quarta-feira, 18 de julho de 2007

ensaio sobre Lautréamont

Um poeta de vida curta e praticamente desconhecida, morreu aos vinte quatro anos. Nascido em Montevideo, faleceu em Paris. Dele se conhece apenas sua origem familiar, a escola onde estudou e dois livros que possuía - eram de Homero.

Um pseudônimo forjado no Marquês de Sade e em Eugène Sue. É do Marquês que retira o seu título de nobreza e torna-se Conde, sendo também um legítimo herdeiro da sua temática maldita. De Sue ganha um personagem pronto, Lautréamont, o próprio mal encarnado. E assim, deixa de ser Isidore Ducasse para virar o Conde de Lautréamont.

Sua obra ficou esquecida por quase cinquenta anos, mas foi resgatado do ostracismo pelos surrealistas, sendo considerado precursor deste movimento, junto com o pintor 'El Bosco'.




(detalhe de "Cristo na Cruz" - "El Bosco")

Foram bem escolhidos, enquanto Lautreamont subverte conceitos de bem e mal e vira o homem ao avesso mostrando tudo o que este carrega de podre; 'El Bosco' em suas telas mostra a vulnerabilidade patética dos santos católicos.

'Contos de Maldoror', principal obra de Lautreamont ficou sem edição no Brasil por mais de vinte anos. Foi nesse período de edições esgotadas que tive o primeiro contato com o autor. Em um artigo sobre Sade e Psicanálise descobri nas notas de rodapé quase que escondido o nome deste livro que desejei por mais de cinco anos.

A Iluminuras, felizmente, publicou em 2005 uma nova edição; com uma curta biografia - já que pouco se sabe do escritor, algumas cartas e um ensaio crítico sobre o poeta, feito pelo também poeta Cláudio Willer.

Comprei o livro, não em um sebo como sempre achei que faria, mas em uma megastore do shopping Barra. O contato físico com o livro me colocou em estado de euforia. Era como se eu possuíse algo sagrado, me parecia inacreditável que algo desejado por tanto tempo estivesse agora em minhas mãos.

Não houve decepções, encontrei uma escrita que pegava fogo, que me socava o estômago e me colocava em êxtase a cada frase lida. Era exatamente como o poeta francês Francis Ponge havia descrito: “Abram Lautréamont! E aí está toda a literatura virada pelo avesso como um guarda-chuva! Fechem Lautréamont! E tudo, imediatamente, volta ao lugar...”.

Enquanto lia, imaginava como seria encenar o livro, em delírio pensei que mesmo sem experiência poderia transformar a obra em peça. Espantado fiquei quando descobri que tudo o que eu sonhava já havia sido feito melhor por Breton e os surrealistas. Eles com um único exemplar em mãos revezavam-se em declamar o livro à noite, em um hospital militar onde serviam como estagiários na ala de tratamento psiquiátrico. Enquanto recitavam os internados entravam em surto.

Lautréamont é o poeta da destruição da calmaria, da rotina e dos valores considerados mais sagrados da nossa sociedade. É o poeta do delírio e do surreal, deixou marcas na literatura mais profundas que Rimbaud. Deixarei que ele se apresente. "Não convém que qualquer um leia as páginas que vem a seguir; somente alguns saborearão este fruto amargo sem perigo".

Lautréamont é veneno anti-monotonia. Fechar o seu livro é voltar ao cotidiano banal, mas carregado de uma energia que só ele poderia nos dar.

Um comentário:

pepeu_marques disse...

Que orgulho ler você falando tão bem dessa obra. É interessante também notar que ele escreve tanta maldade de uma maneira lindamente poética.

Beijos