domingo, 14 de outubro de 2007

tropa de elite - josé padilha


não era preciso nenhum poder especial pra identificar qual a ideologia que está por trás de um filme como "tropa de elite". me lembrou desde o começo aquela propaganda, que já tinha caído em descrédito, que culpava o usuário de droga pelo tráfico e pela violência no brasil.

o filme segue a linha de "cidade de deus", mas vem carregado da ideologia tola do seu diretor. josé padilha que fez o maravilhoso "ônibus 174", agora dirige um dos filmes mais mal-intencionados do cinema brasileiro recente. padilha não é um contador de histórias, seu cinema é um propagador de idéias, isso estava bem claro também no seu filme anterior.

agora basta ler a veja (edição 2030 e 2031) e ver o estrago que padilha começou a causar no imaginário coletivo brasileiro no que se refere à violência, drogas e policiais. esse filme vai alavancar idéias retrógadas que não visam resolver problema algum e sim distribuir a culpa e justificar à violência. agora vai ficar mais fácil explicar os excessos policiais.

maldita hora que esse filme foi pirateado, se tivesse no cinema ninguém assistiria. mas a pirataria foi pra televisão e virou marketing.

é preciso avisar aos ambulantes de dvds piratas que "terra em transe", "macunaíma", "pixote" são filmes já disponíveis pra cópia pirata. quem sabe entram no gosto popular....

4 comentários:

douglas disse...

respeito sua opinião, mas que os usuários tem sua parcela de culpa isso tem! podemos credtar aí também a ausência do estado como um dos fatores...o filme é ligeiramente irretocável tanto tecnicamente como ideologicamente...não é apologia a matança de pobres mesmo pq também trata a PM corrupta para mira do BOPE...hj em dia esse BOPE também já deve estar contaminado mas em 1997 tinham critérios...se humanos ou não cabe ao julgamento de cada um...e maconheiro sabe que é ilícito o tráfico, faz uso pq quer e financia o crime sim!!

Helder Maia disse...

bom douglas. eu acho ideologicamente mal-caráter o filme sim!!!

reduzir o problema da criminalidade ao usuário é negar toda a história da civilização ocidental. o usuário de drogas sempre existiu e a criminalidade não esteve necessariamente ligada ao seu uso, até pq era vendido em farmácias. o que acontece é que essa sociedade de produção preocupa-se demais com o corpo do indivíduo. corpo = dinheiro. drogas = prejuízo.

como nosso país empurra o usuário e o traficante para a marginalidade, assim como prostitutas, etc., quanto mais excluído da sociedade essa pessoa for, mais marginalizado e mais proximo da criminalidade estará.

não podemos esquecer que a criminalidade é um problema de raizes historicas, economicas e políticas. e no elo dessa cadeia o usuário é o último dos responsáveis.

voltaremos a ser bombardeados com essas ideias. infelizmente. sigam novas reportagens da veja.

Tielly disse...

Pela primeira vez depois que assisti esse filme ( assisti na escola, legal né?) vi alguém concordar com a minha opnião.
Concordo plenamente com o que você diz.

Helder Thiago Maia disse...

BERNARDO CARVALHO

Fracasso do pensamento

Num mundo em que o jornalismo substitui a filosofia, é lógico que o bom senso não tem vez

UM MUNDO sem reflexão, onde a violência da realidade obriga o sujeito a deixar de pensar para agir, cedendo ao senso comum, ao simplismo e ao pragmatismo cínico, recorrendo ao preconceito e a ações impensadas que antes ele condenava, quando essa mesma realidade ainda não o atingia diretamente e ele podia repetir belas teorias da boca para fora, não é um mundo menos hipócrita (como alguns gostariam), é um mundo pior. Um mundo sem arte (no qual a arte, aceitando a pecha de ilusão e perfumaria, cede ao consenso da realidade e passa a funcionar como jornalismo e sociologia) também.
É nesse mundo desiludido que a representação de jovens tolos e inconseqüentes, repetindo Foucault da boca para fora, para acabar quebrando a cara na prática contraditória do trato direto com a realidade nua e crua, passa a ter um efeito catártico junto a platéias em busca de um bode expiatório.
É desse mundo (o do fracasso do pensamento) que trata "Tropa de Elite": onde só é permitido escapar à violência (e deixar de ser violento) fora da realidade -tudo o que o capitão Nascimento quer, ou diz querer, é sair desse mundo (onde quem pára para pensar morre), para poder cuidar em paz do filho e da família.
Gostei do filme, embora tivesse preferido o longa-metragem anterior de José Padilha, o documentário "Ônibus 174". Não acho o filme fascista. Mas é inegável que, como qualquer representação da realidade, ele tem um discurso (que não é exatamente o mesmo do capitão Nascimento), a despeito de dizer que se limita a mostrar a realidade. E não é um discurso novo. É o discurso de um realismo funcional que volta e meia reaparece para dizer que a realidade é o que é. E que só os fatos (ali representados) contam.
Num mundo em que o jornalismo substitui a filosofia (e em que a arte se esconde como discurso para se apresentar como espelho de uma realidade unívoca), é lógico que o bom senso não tem vez. A demagogia e a ira, sim. É preto no branco. Produção de subjetividade é coisa de elite irresponsável. Aqui, nós tratamos de fatos objetivos.
Com o desbaratamento das idéias, este passa a ser um mundo de polarizações em torno de questões simplistas e indiscutíveis. Não se produz pensamento; tomam-se partidos. Vozes da ponderação e do conhecimento de causa -como a de Alba Zaluar, que exercita o bom senso semanalmente e sem maiores alardes nas páginas deste jornal- vão se tornando inaudíveis em meio ao bruaá dos lugares-comuns estridentes. O bom senso não aparece, porque não tem graça nem dá manchete. As idéias foram reduzidas a representações sociais. Basta que cada um fale e seja reconhecido como representante do seu grupo social (e que muitas vezes se aproveite disso para respaldar a banalidade ou a demagogia do que diz). O que conta não é o teor das idéias (em geral, as mais simplistas), mas que sirvam para identificar o lugar social de quem as manifesta no campo de batalha. Essa aparente desordem apenas encobre uma ordem geral, o consenso em torno da realidade como um campo de forças autônomo, um teatro de ação e reação, imune à reflexão e à inteligência.
Foi em meio a esse contexto que bati com os olhos na recém-publicada edição espanhola dos artigos e palestras do dramaturgo francês Enzo Cormann: "Para que Serve o Teatro?" (Universidade de Valência). Na conferência de 2001 que dá título à coletânea, o autor diz que o teatro (e de resto toda arte que se preze), por ser reflexão, "consiste em reinjetar subjetividade num corpo social entrevado pelo uniforme demasiado estreito do pragmatismo econômico" -ou (por que não?) do realismo oportunista que reivindica para si uma pretensa objetividade, condenando ao mesmo tempo toda produção subjetiva à impotência e ao ridículo, como se dela não fizesse parte.
Em nome de uma representação unívoca da realidade, o discurso embutido em "Tropa de Elite" (que não se assume como discurso) limita a própria possibilidade de produção de subjetividade a quem está fora desse mundo, ao diletantismo ridicularizado de estudantes inconseqüentes. Ao associar a produção de subjetividade aos ricos, aos tolos e aos irresponsáveis, como se tampouco estivesse produzindo subjetividade, o filme acaba, provavelmente sem perceber, dando um tiro no próprio pé, pois contribui para estreitar o entendimento do que num passado não muito remoto, e graças ao esforço e à resistência de grandes cineastas, garantiu ao cinema um lugar entre as artes, justamente como produção de subjetividade.