segunda-feira, 26 de novembro de 2007

é assim que elas brincam.


* foto na pinacoteca de sp, esqueci de anotar o nome do escultor.

arte "africana"


* arte não é sinônimo de europa. qualidade artística muito menos. ainda que não produzam objetos para serem julgados enquanto artísticos pelo seu próprio povo, a arte existe em áfrica, antes mesmo que na europa.

* busto representando um rei do benim, nigéria.

continho

No sujo escuro da noite caminhava enviesado pelas ladeiras difíceis de um pelourinho baixa-estação. Ganhando cada esquina a seguros passos colocava aquela que era a minha melhor cara para atravessar a noite de Salvador.

Duas da manhã. Em ruas e praças abandonadas, meus companheiros eram velhos mendigos bêbados em casas ao ar-livre e malandros de última hora querendo levar algum trocado.

Cigarro na mão, pouco dinheiro no bolso, ia em direção a tia J. À noite todos são suspeitos, por isso, aquela cara de ladrão servia tão bem a essas bebedeiras e perambulações. Puxei espada e segui abrindo caminho.

Parado em frente à sua decandente porta de madeira vermelha, bati atabalhoadamente. O menino de sempre me abre a porta em sua penumbra. Era o mesmo moleque, com ar já familiar, que me guiava pelo casarão escuro.

Tia J. na cozinha assistia, com os filhos, mais um dos filmes que passam na madrugada. Era alí o seu posto de trabalho. Foi sentada naquele mesmo banco que fez seus filhos correrem o mundo.

Com sua gorda dignidade me fazia sentar e me dava notícias da filha Bárbara, casada com um gringo que conheceu no carnaval mandava dinheiro pra mãe, queria que ela largasse aquele trabalho. Sonho de filha nunca concretizado, era daquela rotina que J. gostava.

Me recebia sempre com um café. Anos depois descobri que havia sido enfermeira e era com esse mesmo cuidado que tratava pacientes.

Mas sabia também que aquele meu papo de bêbado lhe interessava, de cada cliente tirava uma sabedoria. Talvez eu fosse algum tipo de exemplo para seus filhos.

Depois ela tirava dos peitos largos o que meu dinheiro podia comprar. Em família experimentávamos sempre, comprar sem provar na hora era algo que não era permitido a nenhum dos seus clientes, nem ao mais íntimo.

E novamente guiado por aquele menino saía melhor do que tinha entrado. Cara posta, espada na cintura, pensava em dormir na praia.

Mas salvador ainda era a mesma de sempre, tinha que voltar pra casa.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

a mulher de todos - rogério sganzerla

direto da ilha dos prazes, no arquipélago da saudade, ângela carne e osso: "a ultrapoderosa, inimiga número um dos homens."


"nós não gostamos de gente. eu sei que eu sou a maior. sempre esperei uma facada pelas costas de todos os meus amores. nasci para os boçais. hoje eu sei, eu preciso de todos os homens. sem deixar de amar nenhum."

"ai que mulher indigesta! indigesta! merece um tijolo na testa!"

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

olhares estranhos.

orson welles é um gênio do cinema. isso todo mundo sabe! para comprovar basta assistir "o processo" ou "cidadão kane". verdadeiras obras-primas.


mas o que me intriga é por que homens como welles cometeram o erro de vir filmar no brasil? logo após terminar "o processo", à convite do governo brasileiro, ele achou que deveria vir fazer um filme aqui e rodou durante três meses no rio de janeiro. o filme nunca foi terminado. ainda bem!

mas ele apresentava um programa, o "it's all true", para a rádio e tv americana e, utilizou das locações brasileiras para o seu programa, que virou um show de horrores dentro do politicamente correto. encontramos nele a exaltação ao governo getulista e na mais típica política da boa vizinhança (programa político dos eua na época) pulam nos seus filmes figuras como carmem miranda, zé carioca e samba, muito samba.

é tudo muito esteriotipado. welles conseguiu um olhar estrangeiro e acrítico do país. uma propaganda enganosa que os eua consumiam com voracidade na época. uma mancha na sua fimografia e atitude pessoal. "é a voz do morro e das selvas", certo welles?

mas não foi o único...

fernando trueba, que dirigiu o maravilhoso "lágrimas negras", responsável pelo encontro de dois grandes músicos, dieguito el cigala e bebo valdez, resolveu , com o apoio do governo baiano, fazer o mesmo caminho e filmou um dos filmes mais toscos já realizados no brasil "o milagre do candeal". nada mais superficial, nada mais apolítico, nada mais horroroso, nada mais estrangeiro.

andamos em uma salvador do axé e dos encontros com caetano no rio vermelho/barra. carlito marrón é o jesus cristo do candeal. mas a cena mais degradante é a de uma senhora que explica a origem da sua família, uma das fundadores do candeal.

uma africana que veio ao brasil resgatar um parente escravo, que depois de juntar dinheiro conseguiu libertá-lo. o problema é que estando aqui resolveu comprar alguns escravos para escravizá-los.

ahhhhh sim... mas os tratava muiiiito bem.



recomendo: "tudo é brasil" e "nem tudo é verdade" de rogério sganzerla.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

HILDA HILST


ela publicou os versos mais doloridos da poesia brasileira. muitas vezes postadas aqui, efeito obras completas. hilda hilst! poesia para viver e amar.

VII
Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
NA minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?

Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?

Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?

chocolate - marisa monte

Marisa Monte - Chocolate

Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate....Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber
Não quero pó, não quero rapé
Não quero cocaína, me liguei no chocolate
Eu me liguei, só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber
Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate....Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber
Não quero chá, não quero café
Não quero coca-cola, me liguei no chocolate
Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber
Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate.... ui ui é
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber
Chocolate, chocolate, chocolate
Chocolate, chocolate, chocolate
chocolate, chocolate, chocolate
É proibido fumar, chocolate, ui, ui ui..
É proibido fumar
É proibido fumar

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

rio, 40 graus - nelson pereira dos santos

segundo glauber rocha, nelson pereira dos santos é "o pai do cinema novo" e "rio 40 graus" é o marco fundador, mesmo que não intencionalmente, desse movimento que mudou o cinema nacional.

o primeiro choque que provocou em 1955 foi o deslocamento do cenário, nelson incorpora o morro e os moradores do rio de janeiro ao cinema. isso o torna o grande farol de filmes como "pixote" e "cidade de deus".


alí estão os meninos que aos doze anos são homens em luta pela sobrevivência, a moral liberal e interesseira da classe média das praias de copacabana, o espetáculo do futebol e toda a sua irracionalidade, a politicagem brasileira e seus jogos de interesses, o samba e muito mais. nada poderia ser mais atual.

sem ser didático e sim! poético nelson parece explicar com cada cena o surgimento de comportamentos que se reproduzem em todo o país, partindo da individualidade de cada personagem ele chega ao coletivo.

duas são as jóias estéticas do filme: o menino que ensina o outro a pedir esmola e o menino que foge em cima do bondinho do pão-de-açúcar. são cenas fortes que expõe as tripas da nossa miséria.


por isso tudo, "rio 40 graus" é o melhor filme brasileiro.


Fortuna - Carmina Burana


inspiração de hoje: aula de latim. encerramento de unidade em alto estilo.
agradecimentos à prof. rosana.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Hilda Hilst - Alcoólicas


VI
Vem, senhora, estou só, me diz a Vida.
Enquanto te demoras nos textos eloqüentes
Aqueles onde meditas a carne, essa coisa
Que geme sofre e morre, ficam vazios os copos
Fica em repouso a bebida, e tu sabes que ela é mais viva
Enquanto escorre. Se te demoras, começas a pensar
Em tudo que se evola, e cantarás: como é triste
O poente. E a casa como é antiga. Já vês
Que te fazes banal na rima e na medida.

Corre. O casaco e o coturno estão em seus lugares.
Carminadas e altas, vamos rever as ruas

E como dizia o Rosa: os olhos nas nonadas.
Como tu dizes sempre: os olhos no absurdo.

Vem. Liquidifica o mundo.

o bandido da luz vermelha - rogério sganzerla


Aos senhores críticos:

Definitivamente, queria esquecer O Bandido da Luz Vermelha (rodado em abril-maio de 1968) de uma vez, já que foi feito para ser visto num poeira, esquecido ao fim da sessão, jogado no lixo enfim, ao invés de ser conservado na memória dos cineclubes e cinematecas. Em São Paulo tive também de fazer a crítica porque picharam ou elogiaram sem entender. Continuo esperando umna crítica inventiva, ao nível do provável e não da certeza idealista, das especulações sentimentais e perspectivas do passado (e do provincianismo, principalmente). Não dá pé escrever que "Helena Inês está genial, é uma personagem fatal." É preciso repensar – no cinema como na crítica – o nova dimensão do ator, da câmera, do diálogo; discutir as noções de belo, talentoso, sensível, etc. Pelo amor de Deus, senhores críticos, não publiquem o óbvio, que eu sou "um talentoso influeicnado por Welles e Godard." Falem da minha dívida a Mojica, que vocês detestam, por exemplo.

É preciso, outro exemplo, dizer que com este filme o cinema moderno finalmente chega ao Brasil; que eu me recuso a fazer literatura na tela; que enfim surge um filme brasileiro ligado a Hawks e Godard e não a Visconti e Fellini (isto é fundamental). Reparem as inovações da banda sonora. Necessário dizer, também, que eu e alguns poucos estamos por dentro, ao contrário dos deslumbrados provincianos do cinema novo rico. Se tivesse que definir falaria de um cinema péssimo e livre, paleolítico e atonal, panfletário e revisionário – que o Brasil atualmente merece. Repito isso tudo simplesmente porque não agüento mais o que vem sendo feito pelo cinema novo. Falo como espectador comum, agredido pela burrice institucionalizada.

Felizmente, Formosa Pistoleira – meu segundo longa-metragem, em fase de finalização e mixagem – é o contrário deste: escolhi a teleobjetiva ao invés da grande angular, longos silêncios substituem esta apocalíptica banda sonora; um filme calmo, afirmativo e fechado sobre si mesmo.

Outro dia, numa entrevista a O Cruzeiro, que ninguém leu, disse que "o cinema não me interessa, mas a profecia". Com essa frase resumo o meu desprezo pelas pequenas sensibilidades, pelos autores levemente corajosos, sutilmente inteligentes, afirmando munha ruptura ao movimento de elite, aristocrático, paternalizante e acadêmico denominado cinema novo. Vendo O Bandido, compreenderão minha radicalização sincera.

Já fui crítico; e se deixei o jornal para realizar provocações antiocidentais não foi para virar autor como Bergman ou Antonioni mas para, no máximo, ser um anônimo copydesk de Mack Sennett.

Rogério Sganzerla

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

gay. adjetivo. substantivo. verbo.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Não existem homossexuais

Acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada

NÃO CONHEÇO homossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do "homossexual" como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os homossexuais existem?
A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria. Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: "homossexual" é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o "homossexual". Existem atos homossexuais. E atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. Sou como ser humano o que faço na minha cama. Aberrante, não?
Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. Ilógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.
Infelizmente, o mundo não concorda. Os homossexuais existem e, mais, existe uma forma de vida gay com sua literatura, sua arte. Seu cinema. O Festival de Veneza, por exemplo, pretende instituir um Leão Queer para o melhor filme gay em concurso. Não é caso único. Berlim já tem um prêmio semelhante há duas décadas. É o Teddy Award.
Estranho. Olhando para a história da arte ocidental, é possível divisar obras que versaram sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. A arte greco-latina surge dominada por essa pulsão homoerótica. Mas só um analfabeto fala em "arte grega gay" ou "arte romana gay". E desconfio que o imperador Adriano se sentiria abismado se as estátuas de Antínoo, que mandou espalhar por Roma, fossem classificadas como exemplares de "estatuária gay". A arte não tem gênero. Tem talento ou falta de.
E, já agora, tem bom senso ou falta de. Definir uma obra de arte pela orientação sexual dos personagens retratados não é apenas um caso de filistinismo cultural. É encerrar um quadro, um livro ou um filme no gueto ideológico das patrulhas. Exatamente como acontece com as próprias patrulhas, que transformam um fato natural em programa de exclusão. De auto-exclusão.
Eu, se fosse "homossexual", sentiria certa ofensa se reduzissem a minha personalidade à inclinação (simbólica) do meu pênis. Mas eu prometo perguntar a um "homossexual" verdadeiro o que ele pensa sobre o assunto, caso eu consiga encontrar um no planeta Terra.

ps: creditos do texto = La bagaça neobeatnick

Hilda Hilst - Alcoólicas

IX

Se um dia te afastares de mim, Vida - o que não creio
Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida -
Bebe por mim paixão e turbulência, caminha
Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as)
Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te
Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado vazio.
Empresta-lhe meu coturno e meu casaco rosso : compreenderá
O porquê de buscar conhecimento na embriaguês da via manifesta.
Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica:
Estilhaça a tua própria medida.



quadro. sapatos
pintor. van gogh

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Hilda Hilst - Amavisse

XX

De grossos muros, de folhas machucadas
É que caminham as gentes pelas ruas.
De dolorido sumo e de duras frentes
É que são feitas as caras. Ai, Tempo

Entardecido de sons que não compreendo
Olhares que se fazem bofetadas, passos
Cavados, fundos, vindos de um alto poço
De um sinistro Nada. E bocas tortuosas

Sem palavras.

E o que há de ser da minha boca de inventos
Neste entandercer. E o do ouro que sai
Da garganta dos loucos, o que há de ser?



quadro. anoitecer em karl johan
pintor. munch

Hilda Hilst - Do Desejo

IX

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.


quadro. amor vitorioso
pintor. caravaggio