segunda-feira, 26 de novembro de 2007

continho

No sujo escuro da noite caminhava enviesado pelas ladeiras difíceis de um pelourinho baixa-estação. Ganhando cada esquina a seguros passos colocava aquela que era a minha melhor cara para atravessar a noite de Salvador.

Duas da manhã. Em ruas e praças abandonadas, meus companheiros eram velhos mendigos bêbados em casas ao ar-livre e malandros de última hora querendo levar algum trocado.

Cigarro na mão, pouco dinheiro no bolso, ia em direção a tia J. À noite todos são suspeitos, por isso, aquela cara de ladrão servia tão bem a essas bebedeiras e perambulações. Puxei espada e segui abrindo caminho.

Parado em frente à sua decandente porta de madeira vermelha, bati atabalhoadamente. O menino de sempre me abre a porta em sua penumbra. Era o mesmo moleque, com ar já familiar, que me guiava pelo casarão escuro.

Tia J. na cozinha assistia, com os filhos, mais um dos filmes que passam na madrugada. Era alí o seu posto de trabalho. Foi sentada naquele mesmo banco que fez seus filhos correrem o mundo.

Com sua gorda dignidade me fazia sentar e me dava notícias da filha Bárbara, casada com um gringo que conheceu no carnaval mandava dinheiro pra mãe, queria que ela largasse aquele trabalho. Sonho de filha nunca concretizado, era daquela rotina que J. gostava.

Me recebia sempre com um café. Anos depois descobri que havia sido enfermeira e era com esse mesmo cuidado que tratava pacientes.

Mas sabia também que aquele meu papo de bêbado lhe interessava, de cada cliente tirava uma sabedoria. Talvez eu fosse algum tipo de exemplo para seus filhos.

Depois ela tirava dos peitos largos o que meu dinheiro podia comprar. Em família experimentávamos sempre, comprar sem provar na hora era algo que não era permitido a nenhum dos seus clientes, nem ao mais íntimo.

E novamente guiado por aquele menino saía melhor do que tinha entrado. Cara posta, espada na cintura, pensava em dormir na praia.

Mas salvador ainda era a mesma de sempre, tinha que voltar pra casa.

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