quarta-feira, 7 de novembro de 2007

gay. adjetivo. substantivo. verbo.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Não existem homossexuais

Acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada

NÃO CONHEÇO homossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do "homossexual" como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os homossexuais existem?
A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria. Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: "homossexual" é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o "homossexual". Existem atos homossexuais. E atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. Sou como ser humano o que faço na minha cama. Aberrante, não?
Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. Ilógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.
Infelizmente, o mundo não concorda. Os homossexuais existem e, mais, existe uma forma de vida gay com sua literatura, sua arte. Seu cinema. O Festival de Veneza, por exemplo, pretende instituir um Leão Queer para o melhor filme gay em concurso. Não é caso único. Berlim já tem um prêmio semelhante há duas décadas. É o Teddy Award.
Estranho. Olhando para a história da arte ocidental, é possível divisar obras que versaram sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. A arte greco-latina surge dominada por essa pulsão homoerótica. Mas só um analfabeto fala em "arte grega gay" ou "arte romana gay". E desconfio que o imperador Adriano se sentiria abismado se as estátuas de Antínoo, que mandou espalhar por Roma, fossem classificadas como exemplares de "estatuária gay". A arte não tem gênero. Tem talento ou falta de.
E, já agora, tem bom senso ou falta de. Definir uma obra de arte pela orientação sexual dos personagens retratados não é apenas um caso de filistinismo cultural. É encerrar um quadro, um livro ou um filme no gueto ideológico das patrulhas. Exatamente como acontece com as próprias patrulhas, que transformam um fato natural em programa de exclusão. De auto-exclusão.
Eu, se fosse "homossexual", sentiria certa ofensa se reduzissem a minha personalidade à inclinação (simbólica) do meu pênis. Mas eu prometo perguntar a um "homossexual" verdadeiro o que ele pensa sobre o assunto, caso eu consiga encontrar um no planeta Terra.

ps: creditos do texto = La bagaça neobeatnick

4 comentários:

Sol disse...

Eu gosto vc sabe né. Mas tenho meus poréns que vc tb sabe!
No entendo adoro a polêmica daí.
Gostei também dos créditos....
aêh bagaça..!!

beijo, lindo!

Léo Marques disse...

Concordo plenamente com tudo, exatamente tudo o que foi dito.
Acho que as pessoas não deveriam ser avaliadas, nem estigmatizadas por conta de sua orientação sexual. Acho que o ser humano é o ser humano e pronto. Cheio de defeitos e qualidades; de maldades, malicias, bondades e dotado de inteligência. Qualquer ser humano é um ser humano, até os mais sordidos.
Claro que a cultura cria certos guetos, já que eles acabam aproximando pessoas que pensam e agem da mesma forma. Mas acho que essa idéia de gueto está cada vez mais arcaica. Creio que os lugares poderiam, ou pelo menos deveriam, ser classificados de GLS.
Se como substantivo homossexual não existe, como adjetivo acho que não deveria existir, mas como os adjetivos são culturais, eles apenas representam o que cada um quer mostrar da sua cultura.
Creio que falta compreensão de ambas as partes, tanto dos "hetessexuais" quanto dos "homossexuais".

Helder Thiago Maia disse...

eu não sou nem adjetivo e muito menos substantivo. eu sou o verbo: amar!

ZeDú disse...

Olha só onde o texto veio parar... Maravilha!

A leitura do autor é interessante, mas prefiro a interpretação mais óbvia quando trata-se do assunto: somos todos seres humanos (ponto). O conceito de sexualidade, assim como suas representações, são construções sociais, para não dizer convenções...
Existimos, transgredimos, transitamos, evoluímos ... A vida em espiral.


"Cada um que aceite a verdade que mais lhe convém. Ou invente novas verdades."