sábado, 22 de dezembro de 2007

A Representação do Padre Antônio Vieira no livro Boca do Inferno, de Ana Miranda e no filme Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira

Antônio Vieira Ravasco, ou padre Antônio Vieira, nasceu em Lisboa, em 1608, e morreu na Bahia, em 1697, aos oitenta e nove anos de idade. Viveu durante quase todo o século XVII, época dominada por grandes transformações – restauração da monarquia portuguesa, colonização das Américas, expansão comercial, reforma, contra-reforma, etc - e foi um dos personagens mais influentes e ativos politicamente desse período, principalmente em Portugal e Brasil.

Veio para o Brasil aos seis anos de idade, instalando-se com a família, em Salvador, então capital da corte portuguesa no país. Passou sua adolescência no Colégio da Compainha de Jesus, onde aos quinze anos decidiu abraçar o noviciado.

Para a literatura, seus sermões possuem considerável importância n barroco brasileiro, deixando uma obra considerável: duzentos e quarenta sermões e mais de quinhentas cartas.

Religioso, escritor, orador, político, defensor dos índios brasileiros, defensor dos judeus, crítico do clero da sua época e da inquisição, são essas as características e atitudes a que sua imagem está geralmente associada. Importa revelar um pouco mais o imaginário que foi criado ao redor de Vieira em dois países diferentes.

Boca do Inferno, de Ana Miranda

No romance de Ana Miranda, a pesquisa e o discurso histórico são utilizados para contar a história da cidade de Salvador e dos personagens Gregório de Matos e Antônio Vieira, através do crime do alcaide-mor, que envolveu aos dois. A história, então, fornece ao romance um caráter biográfico e histórico, não deixando de ser ficcional.

Vieira aparece a primeira vez no livro como um fantasma do poeta Gregório de Matos, quando este diz que ao ajoelhar-se para confessar, gostava de imaginar que confessava ao padre Vieira. Gregório admirava o padre, o seu saber, a sua oratória e leu muito dos seus sermões, durante a sua meninice desejou ser como ele, mas depois achou o saber dos jesuítas insoso.

Em seguida é mostrada a faceta política desse homem, quando ele é comparado ao seu irmão, Bernardo Ravasco.

“Mesmo não sendo jesuíta considerava-se mais religioso que seu irmão Antônio Vieira, este, sim, um verdadeiro político. O padre estava velho e não queria mais saber de política, levava uma vida de filósofo e escriba. (...) Sabemos, no entanto, que a Compainha jamais deu poetas ao mundo. Deu soldados” (40:1989)

Quando encontra o irmão, Vieira é descrito trajando um hábito simples desbotado, amarrado à cintura por uma corda fina, trazendo na mão uma pena, como se tivesse acabado de parar de escrever, estando acompanhando de um menino índio.

Quando olhava a criança lembrava dos seus anos de infortúnios no Maranhão, onde se vestia, comia e dormia mal, mas que haviam sido os melhores da sua vida, pelo vigor com que se dedicava aos trabalhos de catequização e defesa dos índios.

Escreveu Vieira ao rei Afonso VI, sobre a condição indígena no Brasil: “Em quarenta anos se haviam matado e destruído, na costa e nos sertões, mais de dois milhões de índios e mais de quinhentas povoações como grandes cidades”. (48:1989)

É Vieira sabedor do crime do alcaide-mor e dos interesses que estão por trás desse assassinato, interesses inclusive da sua família – Ravasco, ou seja, é testemunha de tudo que aconteceu. E justifica o assassinato e o seu comportamento quando diz:

“A virtude está subordinada aos interesses do reino. A religião já não significa alheamento ao mundo, não para mim. O maior pecado é a omissão. Portanto, não sofras com o que está acontecendo. Cabe a Deus julgar os atos dos homens mas cabe aos homens agir conforme sua própria consciência” (46:1989)

O governador Antônio de Souza de Menezes, conhecido como Braço-de-Prata, começa então uma caçada à família Ravasco e aos outros partícipes do assassinato, com a ajuda dos dois desembargadores da cidade. Considera Vieira o seu principal inimigo, acusando-o inclusive de tramar a sua morte, jura, então, acabar com o padre.

Vieira faz duras críticas ao comportamento dos colonos da cidade, dos sacerdotes, da igreja e aos políticos, e considera seu destino inevitável escrever. Diz:

“Hipócritas. Os que ser curvam hoje à minha passagem amanha me farão alvo de todas as setas. (...) Detesto as litanias fastidiosas. Não sou mais um daqueles sacerdotes de perna peluda celebrando a missa com cálice de cornos de touros. (...) os beatos são a peste da salvação e da consciência, as igrejas deviam ser transformadas em prisões e hospitais. Nossos homens públicos são ou contemplativos ou ladrões” (64:1989).

Vieira, então, se coloca na posição de intermediar a libertação dos seus familiares e amigos, passando a utilizar toda a influência que conseguiu na Europa para isso, valendo-se para isso da sua imunidade eclesiástica. “O príncipe saberá desses desmandos” (67:1989), ameaça o padre.

“Perde-se o Brasil nas unhas escorregadias dos governantes. O problema do Brasil é que nada que se faz aqui de arbitrário chega aos ouvidos certos em Portugal. Também os roubos aqui parece que não são reparados lá na metrópole. E o povo continua na maior das misérias. O Brasil, aliás, não passa de um retrato e espelho de Portugal, seara dos vícios sem emendas, do infinito luxo sem cabedal e todas as outras contradições do juízo humano. (...) Hoje em dia é assim: um moço sem pai, mal herdado da natureza, sem valor para seguir as armas, sem engenho para cursar as letras, moço sem talento, nem industria para granjear a vida por outro exercício. É desonesto? Vai governar. É honesto? Vai ser padre. Entram no convento para comer, cantar, vestir-se e conversar. Mal sabem persignar-se nem dizer se Cristo ressuscitaria ou não” (68:1989).

O desabafo do padre muito se parece com as poesias satíricas de Gregório de Matos, mas porque o imaginário que se criou sobre ele não abarca essas críticas duras às nossas instituições?

Em outro momento do livro, o governador diz que Vieira sempre foi considerado um homem rendido ao poder econômico, pelo fato de proteger os judeus, que representavam a riqueza e que a sua defesa dos índios representavam os interesses da Compainha de Jesus.

“E estavam ali no Brasil defendendo a liberdade dos indígenas para os terem, eles mesmos, como ativos – de suas idéias” (78:1989).

Em outro momento é chamado de ardiloso, traiçoeiro e promotor de ciladas, pelo novo alcaide. Vieira, na verdade, sempre foi tão odiado quanto amado, seja em Portugal ou no Brasil.

Vieira está agindo e escreve cartas a amigos poderosos para que eles possam intervir por ele junto ao rei, e consegue, intervir. Seu irmão é solto e tem o antigo cargo restituído e o governador é substituído. Vieira continua a agir politicamente no Brasil: lutou pelo envio de padres negros à Palmares, ao invés de padres italianos; intercedeu pelos índios em uma das grandes cheias do rio São Francisco; envolveu-se em questões de baixa da moeda, o perigo de extinção de moeda no Brasil; intercedeu pelos índios contra os paulistas que desejavam o trabalho destes na mineração; etc.

Dizia missa todos os dias, mesmo tendo ficado cego em 1696, morrendo no ano seguinte, logo após terminar a Clavis prhophetarum.

Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira

"Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa seleta, o passo célebre de Vieira, sobre o rei Salomão. E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lágrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar..." (22:1982)

Em 1663, o Padre António Vieira é chamado a Coimbra para comparecer diante do Tribunal do Santo Ofício, a terrível Inquisição. Perante os juizes, Vieira revê o seu passado: a juventude no Brasil e os anos de noviciado na Bahia, a sua ligação à causa dos índios e os seus primeiros sucessos no púlpito.

Voltado à causa dos índios, aprende as suas línguas e os seus costumes durante as missões evangélicas. As terras são objeto de convulsões e Vieira testemunha, na sua juventude, freqüentes saque de igrejas católicas por piratas protestantes holandeses.

Em Dezembro de 1640, uma revolta no velho continente liberta Portugal do domínio espanhol. O Duque de Bragança sobe ao trono sob o nome de D. João IV. A notícia é bem acolhida no Brasil onde o vice-rei envia a Lisboa, em sinal de concordância, o seu filho e dois jesuítas, um dos quais o Padre António Vieira.

Uma amizade profunda vai ligar o rei e o seu pregador. É o período em que o papel político de Vieira vai ser determinante. Ele está na origem de medidas económicas importantes; atravessa a Europa para afirmar um novo poder português e vai influenciar a sua política externa.

Em 1652, a Companhia de Jesus envia-o à província do Maranhão, na América do Sul, para fundar novas missões. A tarefa é delicada porque os jesuítas e os colonos opõem-se violentamente quanto ao problema dos índios. Os colonos portugueses no Brasil querem, antes de tudo, escravos para as suas plantações de cana de açúcar. Pelo contrário, os jesuítas pretendem catequizar os índios, colocando-os ao abrigo da escravatura.

Vieira toma a defesa dos índios, e continuará a fazê-lo mesmo quando, mais tarde, os jesuítas mostrarem menos firmeza sobre esta questão. Sabendo-se ameaçado pelos colonos, embarca secretamente para Lisboa e regressa com uma decisão real dando unicamente à Companhia de Jesus o estatuto de protectora dos índios. O descontentamento dos colonos é tal que ele é expulso em 1661.

No seu regresso a Portugal, Vieira descobre uma outra pátria: D. João IV morreu, ele já não é bem-vindo na corte e é exilado na província. A Santa Inquisição instrui o seu processo que decorrerá durante muitos anos. Mas quando sai a sentença, as intrigas palacianas são menos desfavoráveis a Vieira.

Vieira parte então para Roma onde prega frequentemente em latim ou italiano. O seu sucesso é imenso e o Papa concede-lhe uma "Breve de Isenção", colocando-o fora do poder da Inquisição de Portugal e Castela.

A rainha Cristina admira-o, quere-o como confessor, mas Vieira decide regressar a Portugal. Com o avançar da idade aparecem os primeiros sinais de uma cegueira progressiva durante a sua viagem de regresso, no sul de França. O Padre volta ao Brasil onde as acusações caluniosas assombram os seus últimos anos, consagrados sobretudo à fixação do texto dos seus sermões, para publicá-los.

Considerações Finais

O Vieira que nos é apresentado no livro corresponde a um período da sua velhice, ao período do governo do Braço de Prata, enquanto no filme, é mostrado um Vieira que está se iniciando no noviciado até a sua morte.

Na passagem, do livro, em que Antônio Vieira lembra dos seus anos de Maranhão, onde passava grandes privações, mas que considerava esse tempo o melhor da sua vida, associa-se diretamente a sua imagem ao de defensor dos índios, aquele que tudo faz para o bem estar dos índios.

Mas vale lembrar que Vieira que se dizia defensor da liberdade dos homens originais dessa terra, nunca pensou em liberdade religiosa ou cultural para eles. Os índios deixavam de ser cativos dos colonos, para serem cativos das idéias dos jesuítas. Vieira enxergava os índios como objetos a serem convertidos à sua religião, tirando-os do atraso e da bestialidade em que viviam.

Tendo feito tantas críticas ferozes às principais instituições políticas e sociais brasileiras, o que diferenciaria Vieira de Gregório de Matos, o boca do inferno? Isso só pode ser justificado pela forma com que faziam as suas críticas, Gregório usava da sátira para criticar a sociedade, sua poesia era mais fácil de ser entendida, enquanto Vieira, utilizava-se de parábolas e metáforas – da forma bíblica - para as suas críticas à sociedade.

No filme de Manoel de Oliveira, a exaltação do verbo oratório, do padre Vieira, corre paralelo com a evocação do seu perfil, dinâmico e corajoso. O encontro de Vieira e Braço de Prata no filme é narrado de forma parecida com a do livro, da seguinte forma:

“No palácio do governo da baía.

Vieira: esta é a terra de que com razão fogem todos quanto podem e este enfim, sou eu. Tão mal sacerdote, tão mal religioso, tão mal cristão e tão mal homem, que deixei Roma e Portugal aos 75 anos de idade, para vir mandar matar homens?

Braço de Prata: Mandar matar homens?!

Vieira: Isto quem o cuida ou afirma sem o cuidar é vossa senhoria. Acusando meu irmão e mandando prendê-lo incomunicável pelo assassínio do alcaide-mor de que está inocente. Suspeitando ainda da minha conivência e de outros jesuítas inocentes.

Braço de Prata: Vá-se daqui e não entre mais no palácio.

Vieira: Ahh, com certeza será matéria de grande lástima não entrar neste palácio, quem com tão diferente respeito tem freqüentado palácios de todos os príncipes e reis da Europa.

Braço de Prata: Bem sei onde entra. Bem sei onde entra” (1:26:13)

Mesmo com espaços temporais tão diferentes e com produções de países diferentes sobre o mesmo personagem, pode-se dizer que de forma geral, o imaginário criado em torno de Vieira, analisados no livro e no filme, são parecidos no que se refere ao seu comportamento político, mas não em relação aos indígenas.

Já que no livro, fala-se de outros interesses em relação aos índios, e o filme mostra uma visão romântica e idealizada da sua atuação. Mas a sua morte, que parece bastante romantizada no filme, é descrita da mesma forma no livro.

Não significa que as duas obras sejam necessariamente verdadeiras e que os fatos narrados aconteceram como se passa no livro ou no filme, pois, mesmo assumindo características biográficas, as duas obras são exercícios ficcionais.

Referências Bibliográficas

1. MIRANDA, Ana. Boca do Inferno. São Paulo: Schwarcz, 1989.

2. SOARES, Bernardo. Livro do Desassossego: Vol.I. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1982.

3. PALAVRA e Utopia. Direção: Manoel de Oliveira. Produção: Paulo Branco. Lisboa: PROGRAMA IBERMEDIA, 2000. 1 DVD.

3 comentários:

Giulia disse...

Padre Vieira sempre me interessou. Passei a saber mais sobre ele quando li O Boca do Inferno e adorei. Agora estou ansiosa para ler Sermão da Sexagésima, escrito pelo proprio.

Édila Souza Santana disse...

Aprecio bastante o romance Boca do inferno como pesquisadora do mesmo e com leitora. Em se tratando do padre Vieira, acho que Ana Miranda foi feliz em seu propósito de representação. Muito bom.

Édila Souza Santana disse...

Aprecio o romance Boca do Inferno enquanto leitora e também como pesquisadora. Quanto a representação do padre Vieira acho que Ana Miranda foi feliz, pois conseguiu mesclar dois discursos na construção da figura do personagem com grande maestria.