sábado, 22 de dezembro de 2007

A Representação Indígena em Iracema, de José de Alencar e Iracema, Uma Transa Amazônica, de Orlando Senna e Jorge Bodanzky

A chegada do invasor europeu, em terras ditas, hoje, como brasileiras, gerou o primeiro choque de civilizações no continente americano.

O Brasil não era a terra de um único povo como se costuma pensar, os índios que aqui viviam não representavam uma única civilização, eram povos diferentes, com culturas e línguas diferentes, mas que viviam de forma parecida à sua relação com o meio ambiente. Esses povos estavam divididos em guerras inconciliáveis, pelos mais diversos motivos, principalmente, por questões territoriais.

Os europeus que aqui chegaram também não representavam um único povo, vinham dos mais diversos países do velho continente, com interesses muitas vezes antagônicos, mas que convergiam sempre para a dominação do homem que aqui vivia e para a exploração das riquezas naturais.

“Com a chegada dos Portugueses coincidiu, quase, a dos Franceses, que começaram logo o mesmo comércio de resgate. Na vastidão do litoral podiam ter passado anos sem se encontrar, mas o encontro era fatal, e não havia de ser amigável” (2006:51).

José de Alencar, em Iracema, utiliza-se dessa realidade histórica como pano de fundo do seu romance, apropriando-se desses elementos para compor a sua novela. O livro dramatiza acontecimentos históricos, apresentando os personagens vivos, em suas ações.

Já Bodanzky e Senna, no filme Iracema, Uma Transa Amazônica, partem dessa história já concretizada para mostrar o impacto que esse choque, entre povos tão diferentes, gerou à nossa realidade.

Iracema, de José de Alencar

Alencar é um escritor que busca declaradamente, através da sua produção e da sua crítica literária, configurar/construir uma identidade nacional. O índio para ele é, então, o ponto de convergência dessa identidade a ser construída.

O autor, inclusive, se envolveu em uma polêmica, através de jornais, sobre qual seria o papel do indígena na literatura brasileira, criticando o uso de formas clássicas da literatura para representar o índio.

“Escreveríamos um poema, mas não um poema épico; um verdadeiro poema nacional, onde tudo fosse novo, desde o pensamento até a forma, desde a imagem até o verso. A forma com que Homero cantou os gregos não serve para cantar os índios; o verso que disse as desgraças de Tróia e os combates mitológicos não pode exprimir as tristes endeixas do Guanabara, e as tradições selvagens da América. Por ventura não haverá no caos incriado do pensamento humano uma nova forma de poesia, um novo metro de verso?”.

O livro não resolveu a questão da forma, já que ele utiliza-se de um padrão europeu, o romantismo, para contar a lenda da formação do Ceará. Não há, assim, inovação no campo formal, já que as personagens, a narrativa, o cenário e todos os outros elementos da obra estão dentro do modelo romântico. Além disso, a visão que o autor tem do índio é européia, ele é o lugar do incivilizado, da língua bárbara e também da inocência.

Sem dúvida que o poeta brasileiro tem de traduzir em sua língua as idéias, embora rudes e grosseiras, dos índios; mas nessa tradução está a grande dificuldade; é preciso que a língua civilizada se molde quanto possa à singeleza primitiva da língua bárbara; e não represente as imagens e pensamentos indígenas senão por termos e frases que ao leitor pareçam naturais na boca do selvagem” (1989:89).

Utilizando, então, de crônicas históricas e personagens reais, o autor dramatiza a história dos primeiros anos da colonização européia no Brasil, transformando acontecimentos em literatura, com o objetivo claro, de estabelecer elementos formadores de uma identidade nacional – objetivo dos românticos de todo o mundo.

No atual território cearense, duas grandes nações indígenas inimigas lutavam por territórios; eram os pitiguaras, no litoral, e os tabajaras, no interior, que eram os antigos moradores do litoral.

Essas duas nações, para tentar vencer a outra, realizaram alianças com europeus, os tabajaras com os franceses e, os pitiguaras, com os portugueses – partindo, então, dessa realidade histórica o autor vai contextualizar o seu romance. Além disso, ele utiliza quatro personagens que são reais em sua ficção.

Irapuã, tabajara, “o célebre Mel Redondo, assim chamado pelos cronistas do tempo, que traduziam seu nome ao pé da letra. Mel Redondo, chefe dos tabajaras da serra Ibiapaba, foi encarniçado inimigo dos portugueses e amigos dos franceses” (1989:19).

Jacaúna, pitiguara, “chefe dos índios do litoral” (1989:12). Poti, pitiguara, “recebeu o nome de Antônio Filipe Camarão, que ilustrou na guerra holandesa. Seus serviços foram remunerados com o foro de fidalgo, a comenda de Cristo e o cargo de capitão-mor dos índios” (1989:12).

Martim Soares Moreno, português, “que se ligou de amizade com Jacaúna (...) e seu irmão Poti” (1989:12), “Martim Soares tinha conhecimento da língua dos índios” (1989:16).

Mas os interesses em jogo não eram só indígenas, do lado português essa nova terra invadida era considerada propriedade exclusiva do seu reino, mas estava constantemente sob ameaça francesa. Era necessário colonizar e povoar, para que os invasores franceses fossem expulsos. Nesses primeiros anos de terras brasileiras não estava bem decidido a quem a terra pertenceria, assim, a vitória de uma dessas tribos indígenas representaria a vitória de um dos invasores.

Com tantas tensões como pano de fundo o livro poderia ser uma verdadeira história da carnificina que foi a destruição dos povos indígenas, mas não é. Alencar ao trabalhar, à maneira romântica, esse choque de civilizações, termina quase por apagar a violência, a dominação e todos os outros problemas desse processo de construção do país.

Iracema e Poti são, assim, as personagens-arquétipos do romance. Ela é a heroína romântica e apaixonada, a virgem que vive um amor quase escravizante. Ele é o amigo do herói e está ligado a este por laços de amizades quase subservientes.

Iracema é uma alegoria dessa nova terra invadida, seu próprio nome é um anagrama desse novo mundo e suas características representam o comportamento esperado, pelos europeus, para as mulheres desse novo mundo. O mesmo acontece com Poti que também assume o comportamento esperando, ao índio homem, pelo invasor.

Mas qual seria o comportamento esperado para essas civilizações bárbaras e incivilizadas?

Iracema dá o exemplo de como deveria ser essa nova mulher, primeiro ela tem que admirar e amar o homem europeu, deve ser dócil, bonita e submissa a este e, principalmente, deve gerar filhos porque é necessário colonizar essa nova nação.

Já o comportamento de Poti deve ser leal e subserviente ao homem branco europeu. Essa explicação romantizada, ou falta de explicação racional, para tanta submissão esconde o processo de dominação do europeu sobre o índio.

Processo este que nada teve de romântico, pelo contrário, foi extremamente violento, terminando com o genocídio de quase toda a população indígena local e um verdadeiro extermínio cultural.

Os índios passam, então, por um processo de reorganização social, terão que fazer mudanças comportamentais para sobreviverem a essa nova sociedade, que está para nascer ou, então, serão marginalizados desse processo.

Iracema após cumprir a sua missão, como índia (reprodução), encontra o seu destino de heroína romântica: a morte por amor. Ela deixa de ter uma função nessa nova sociedade, sendo necessário, então, que ela morra para que seu marido e seu filho sobrevivam, a sua morte é uma metáfora da morte de todos os índios que morrerão para a construção desse novo povo.

Antes deixa para o branco europeu o filho da sua dor – Moacir. Esse novo homem miscigenado é o brasileiro que surge, filho do domínio europeu e da “submissão” indígena, filho de duas culturas que não se entendem. Os índios, que não morrerem, passarão a viver o mesmo processo que os tabajaras, serão empurrados cada vez mais para o interior do Brasil.

Poti não será alijado dessa nova nação que surge, porque ele se adapta e termina por converter-se à religião de Martim. Jacaúna, ainda, cumprirá um papel importante, ainda que provisório, pois mesmo não convertido, ele será o responsável pela proteção da nova vila brasileira que surge, fazendo o trabalho de cão de guarda.

O índio que Alencar nos apresenta em nada se distancia do índio da historiografia de todo o século XIX e quase todo século XX.

Iracema, Uma Transa Amazônica de Jorge Bodanzky e Orlando Senna

O filme de Bodanzky e Senna pode ser visto como um suplemento da obra de Alencar, mas que está livre do olhar romântico deste. A dramatização de como ocorreram os primeiros contatos, entre índios e brancos, coube ao livro, o filme agora vai tratar do papel que foi dado ao indígena após esses contatos e, que homem surgiu a partir daí.

O tempo histórico, entre o livro e o filme, se distancia cronologicamente em mais de quatrocentos anos, espaço de tempo suficiente para que se possa analisar qual foi o papel social que coube a cada uma das personagens do romance alencariano.

Os diretores também utilizam personagens ficcionais e reais. Dois são os personagens ficcionais, o Tião, interpretado por Paulo César Peréio – o homem branco – e, a Iracema, interpretada por Edna de Cássia – a índia. Os dois personagens vão conduzir todo o filme, provocando intervenções e depoimentos reais de terceiros.

Assim, como a personagem Iracema do romance de Alencar, a índia do filme é ingênua e crê no amor do homem branco, ela, também, é tirada do seu meio, e termina por ser abandonada, além de falar por frases curtas e ter a mesma silhueta da índia literária. O branco é também o explorador, que chega a um lugar onde nada tem dono, onde a lei que vale é a lei da esperteza.

Mas a transformação pela qual passa essa nova Iracema, nada se parece com a outra, já que não há um ideal romântico por trás. Pelo contrário, como o filme foi produzido durante o período da ditadura, ele é uma espécie de denúncia contra o Estado, através da análise do índio brasileiro e também da situação das nossas florestas.

Iracema não vai morrer para que seu marido e filho sobrevivam. Dentro das possibilidades, que uma mulher na sua condição pode escolher, amar um branco que a resgataria da sua condição de exclusão social; casar com um mestiço e viver para cozinhar e costurar; ou prostituir-se, ela opta pela prostituição.

Os choques culturais que Alencar quase apagou no seu livro, aparecem agora em suas conseqüências, a índia Iracema, não quer ser reconhecida como índia, pois isso a exclui socialmente.

Por isso, a cena em que ela, já prostituta, aparece se pintando com pó-de-arroz é uma metáfora do que o índio, ou a maior parte deles, precisa fazer para se inserir nessa nova sociedade. É necessário, que eles apaguem suas características indígenas, sua cultura, suas crenças para que possa tentar algum tipo de inclusão social.

O índio, então, passa a ser o responsável indireto pela devastação florestal e já não convive mais em harmonia com a natureza, ele precisa derrubar árvores, fazer queimadas, porque precisa sobreviver. Sua cultura já está devastada e o que ainda sobra de uma identidade indígena procura-se sempre apagar, como faz Iracema.

É o índio que sofre as principais mudanças no tempo, a heroína de Alencar, que era mais bela do que a natureza, no filme se apresenta, como uma prostituta, desdentada e suja.

O branco continua com as mesmas idéias, propagando um discurso civilizatório, acreditando que a exploração desenfreada dos recursos naturais trará riquezas, ou melhor, riquezas para os brancos e trabalho para os outros.

O discurso de Tião, assim como, o de Martim, é o discurso oficial, o discurso da superioridade de um povo sobre o outro.

Moacir, enquanto representação desse novo homem brasileiro, se espalhou por todos os cantos do país e já recebeu os mais diferentes nomes. Já foi João, nos sambas do rio, já foi Severino, nas poesias nordestinas da década de trinta e terá muitos outros nomes.

Conclusão

Enquanto o livro nos apresenta uma imagem romantizada de um empreendimento de invasão e colonização, o filme nos apresenta o resultado dessa falência travestida de civilização e desenvolvimento, em tom de denúncia.

Iracema é texto que representa o discurso oficial da sua época, era necessário se criar mitos e heróis brasileiros, para uma nação que estava surgindo e foi isso o que Alencar fez.

Iracema, Uma Transa Amazônica é o oposto do discurso oficial da sua época, em tempos de ditadura militar, que propagandeava uma imagem de um país desenvolvido, o filme nos revela a miséria e privações do povo e dos indígenas brasileiros.

O branco, nas duas obras, continua em seu papel de explorador de riquezas naturais, continua acreditando em um país do futuro e continua a achar a sua cultura superior a qualquer outra.

O índio foi cada vez mais alijado desse novo corpo social, tornando-se um ser cada vez mais marginal, que precisa apagar os vestígios físicos e culturais para poder se adaptar ao Brasil.

Ao mestiço coube fazer o trabalho que o branco não faz e que o índio não pode fazer. Ele continua a ser o intermediário entre essas duas culturas que continuam a não se cruzar. O mestiço é o Moacir da obra de Alencar.

As duas obras, mesmo com objetivos e formas tão diferentes, conseguem fazer um retrato, ora romantizado, ora dentro do ideal realista, do homem que está a surgir, o homem que se pode chamar de brasileiro. Um homem que surge de uma cultura importada (européia) e que precisa apagar quaisquer outros culturais, seja indígena ou africana, para sobreviver.

Referências Bibliográficas

1. ALENCAR, José de. Iracema, Lenda do Ceará. São Paulo: Editora Ática, 1989.

2. ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial. Salvador: Coleção A/C Brasil, 2006.

3. BODANZKY, Jorge. Era Uma Vez Iracema. Videofilmes, 2007.

4. BODANZKY, Jorge e SENNA, Orlando. Iracema, Uma Transa Amazônica. Videofilmes, 2007.

5. OLIVEIRA JR., Luis Carlos.Iracema – Uma Transa Amazônica. Disponível em: . Acesso em 30 de outubro de 2007.

Nenhum comentário: