quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

hércules 56

com imagens inéditas dos presos políticos libertados após o sequestro do embaixador Charles Elbrick em setembro de 1969, o filme "hercules 56" é como uma jóia de um museu, é feito para ser apreciado, revivido e sentido.

o filme reconstroi, com imagens da época, e debates atuais todo o cenário que cercou o sequestro: da sua idéia às suas consequências. o ponto ruim do filme é a presença de franklin martins que com sua presença de jornalista tenta manter toda a discussão em torno da sua figura, centralizando conversas e idéias. gabeira não está presente.

mas revela os bastidores da ação de forma real, ao contrário de "o que é isso companheiro?". propondo inclusive o debate sobre tudo que cercou a ação: as falhas dos guerrilheiros, as consequências para os grupos revolucionários, etc.

silvio da-rin fez um dos melhores documentários sobre a captura do embaixador estadounidense.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

triste partida - patativa do assaré



defensor da reforma agrária, das ligas camponesas, alfabetizado em apenas seis meses, poeta, cantador, sertanejo, preso político... esse é o patativa do assaré, o "poeta matuto".


triste partida - patativa do assaré

Meu Deus, meu Deus
Setembro passou
Outubro e Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai
A treze do mês
Ele fez experiênça
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, ai
Rompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois barra não tem
Ai, ai, ai, ai
Sem chuva na terra
Descamba Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: "isso é castigo
não chove mais não"
Ai, ai, ai, ai
Apela pra Março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Sinhô São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé
Ai, ai, ai, ai
Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nóis vamo a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai
Nóis vamo a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Ai pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
Ai, ai, ai, ai
E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Inté mesmo o galo
Venderam também
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai
Em um caminhão
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajar
Meu Deus, meu Deus
A seca terrívi
Que tudo devora
Ai,lhe bota pra fora
Da terra natal
Ai, ai, ai, ai
O carro já corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai
No dia seguinte
Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Com seu filho choroso
Iscrama a dizer
Ai, ai, ai, ai
De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comer?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer
Ai, ai, ai, ai
E a linda pequena
Tremendo de medo
"Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?"
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou
Ai, ai, ai, ai
E assim vão deixando
Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo e azul
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos fio pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul
Ai, ai, ai, ai
Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Percura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Ai, ai, ai, ai
Trabaia dois ano,
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai
Se arguma notíça
Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade de móio
E as água nos óio
Começa a cair
Ai, ai, ai, ai
Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
Não vorta mais não
Ai, ai, ai, ai
Distante da terra
Tão seca mas boa
Exposto à garoa
A lama e o paú
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul
Ai, ai, ai, ai

para ouvir na voz de luiz gonzaga: http://br.youtube.com/watch?v=0s4BbHxpUKY

chico julião

“Josué de Castro foi
Quem destapou a panela
Da pobreza e da miséria
Pra ver o que havia nela
E nela não havia nada”
(Chico Julião, cordel,1993)

mais informações sobre Chico Julião, o líder das Ligas Camponesas em:
http://www.geneton.com.br/archives/000209.html

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

nina - match point - crime e castigo

"nina". de heitor dhalia, e "match point", de woody allen são duas obras inspiradas no livro de dostoievski, "crime e castigo".

guta stresser (nina) não convence no papel de raskolnikov. suas caretas de ódio, desprezo ou raiva muitas vezes causam risadas. o fime é de tom negro, como se o enredo em sim não fosse suficiente para dar a atmosfera certa do livro de dostoievski. para tornar-se parecido com o livro heitor se vale de expedientes previsiveis: a cor do filme, o som do filme, etc.


porque raskolnikov tem que ser representado de forma sempre tão marginal?

mesmo que essa fosse uma necessidade, nina não convence!

a melhor cena parece ser o momento em que nina após uma noite de sexo com um cego (wagner moura) rouba sua casa e ele dá gargalhadas do acontecido. do que ele ri? de quem ele ri? do sexo pago com seus objetos de casa? da noite que parecia perfeita e terminou em assalto? dele? de nina? do espectador? parece que wagner moura é o verdadeiro raskolnikov de dostoievski. ele sim é extraordinário, nina é ordinária.

já match point, levemente inspirado no livro, é muito mais bem feito. não há a esteriotipagem de nina. a cor do filme é clara, o filme não precisa ser sombrio para estar carregado da atmosfera do livro. jonathan rhys-meyes é um raskolnikov, é extraordinário, mesmo sem repetir em imagens o que é escrito no livro.


adaptações cinematográficas nem sempre precisam repetir as mesmas ações do livro e nunca repetem. a fidelidade das ações não é uma necessidade já que se trata de duas linguagens diferentes. vale mais, nesse caso, as características dos personagens (carga dramática). até porque o filme de heitor se passa em uma são paulo atual, sendo impossível repetir o que ocorre no livro.

nina pretende ser um raskolnikov mas é no máximo uma cópia piorada dele. perde por isso! porque não inova, apenas repete. a intensidade do livro não se apresenta em nenhum momento na personagem de guta stresser. já chris wilton (jonathan) mesmo sem repetir as ações do personagem de dostoievski acerta na carga emocional ou até na falta dela.

machado e carolina

após a morte da sua mulher (Carolina) Machado (de Assis) escreveu o seguinte texto:

domingo, 17 de fevereiro de 2008

interferências no simbolismo de consumo - cildo meireles

"uma prática de sonhos e sabotagens para transformação social"

.......................................................................................................................................

gravar opniões críticas nas garrafas.


.......................................................................................................................................

zero dollar.


.......................................................................................................................................

INSERÇÕES EM CIRCUITOS IDEOLÓGICOS (1970)*

Cildo Meireles

Eu me lembro que em 1968-69-70, porque se sabia que estávamos começando a tangenciar o que interessava, já não trabalhávamos com metáforas (representações) de situações. Estava-se trabalhando com a situação mesmo, real. Por outro lado, o tipo de trabalho que se estava fazendo, tendia a se volatilizar e esta já era outra característica. Era um trabalho que, na verdade, não tinha mais aquele culto do objeto, puramente; as coisas existiam em função do que poderiam provocar no corpo social. Era exatamente o que se tinha na cabeça: trabalhar com a idéia de público. Naquele período, jogava-se tudo no trabalho e este visava atingir um número grande e indefinido de pessoas: essa coisa chamada público. Hoje em dia, corre-se inclusive o risco de fazer um trabalho sabendo exata­mente quem é que vai se interessar por ele. A noção de público, que é uma noção ampla e generosa, foi substituída (por deformação) pela noção de consumidor, que é aquela pequena fatia de público que teria o poder aquisitivo.

Na verdade, as "Inserções em circuitos ideológicos" nasceram da necessidade de se criar um sistema de circulação, de troca de informações, que não dependesse de nenhum tipo de controle centralizado. Uma língua. Um sis­tema que, na essência, se opusesse ao da imprensa, do rádio, da televisão, exemplos típicos de media que atingem de fato um público imenso, mas em cujo sistema de circulação está sempre presente um determinado controle e um determinado afunilamento da inserção. Quer dizer, neles a 'inserção' é exercida por uma elite que tem acesso aos níveis em que o sistema se desenvolve: sofisticação tecnológica envolvendo alta soma de dinheiro e/ou poder.

As "Inserções em circuitos ideológicos" nasceram com dois projetos: o projeto "Coca-Cola" e o projeto "Cédula". O trabalho começou com um texto que fiz em abril de 1970 e parte exatamente disso: 1) existem na sociedade deter­minados mecanismos de circulação (circuitos): 2) esses circuitos veiculam evidentemente a ideologia do produtor, mas ao mesmo tempo são passíveis de receber inserções na sua circulação: 3) e isso ocorre sempre que as pessoas as deflagrem.

As "Inserções em circuitos ideológicos" surgiram também da constatação de duas práticas mais ou menos usuais. As correntes de santos (aquelas cartas que você recebe, copia e envia para as pessoas) e as garrafas de náufragos jogadas ao mar. Essas práticas trazem implícita a noção do meio circulante, noção que se cristaliza mais nitidamente no caso do papel-moeda e, metaforicamente, nas embalagens de retorno (as garrafas de bebidas, por exemplo).

Do meu ponto de vista, o importante no projeto foi a introdução do conceito de 'circuito', isolando-o e fixando-o. E esse conceito que determina a carga dialética do trabalho, uma vez que parasita ria todo e qualquer esforço contido na essência mesma do processo (media). Quer dizer, a embalagem veicula sempre uma ideologia. Então, a idéia inicial era a constatação de 'circuito' (natural), que existe e sobre o qual é possível fazer um trabalho real. Na verdade, o caráter da 'inserção' nesse circuito seria sempre o de contra-informação.

Capitalizaria a sofisticação do meio em proveito de uma ampliação da igualdade de acesso à comunicação de massa, vale dizer, em proveito de uma neutralização da propaganda ideológica original (da indústria ou do Estado), que é sempre anestesiante. É uma oposição entre consciência (inserção) e anestesia (circuito), considerando-se consciência como função de arte e anestesia como função de indústria. Porque todo circuito industrial normal­mente é amplo, mas é alienante (ado).

Por pressuposto, a arte teria uma função social e teria mais meios de ser densamente consciente. Maior densidade de consciência em relação à sociedade da qual emerge. E o papel da indústria é exatamente o contrário disso. Tal qual existe hoje, a força da indústria se baseia no maior coeficiente possível de alienação. Então as anotações sobre o projeto "Inserções em circuitos ideológicos" opunham justamente a arte à indústria.

(...)

Porque tem uma transação em artes plásticas que se baseia ou na mística da obra em si (embalagem: tela, etc.) ou na mística do autor (Salvador Dali ou Andy Warhol, por oposição, são exemplos vivos e atuais): ou parte para a mística do mercado (o jogo da propriedade: valor de troca). A rigor, nenhum desses aspectos deveria ser prioritário. No momento em que há distinções nessa ou naquela direção, surge a distinção de quem pode fazer arte e quem não pode fazer. Tal como eu tinha pensado, as "Inserções" só existiriam na medida em que não fossem mais a obra de uma pessoa. Quer dizer, o trabalho só existe na medida em que outras pessoas o pratiquem. Uma outra coisa que se coloca, então, é a idéia da necessidade do anonimato. A questão do anonimato envolve por extensão a questão da propriedade. Não se trabalharia mais com o objeto, pois o objeto seria uma prática, uma coisa sobre a qual você não poderia ter nenhum tipo de controle ou propriedade. E tentaria colocar outras coisas: primeiro, atingiria mais gente, na medida em que você não precisaria ir até a informação, pois a informação iria até você; e, em decorrência, haveria condições de 'explodir' a noção de espaço sagrado.

(...)

Enquanto o museu, a galeria, a tela, forem um espaço sagrado da representação, tornam-se um triângulo das Bermudas: qualquer coisa, qualquer idéia que você colo­car lá vai ser automaticamente neutralizada. Acho que a gente tentou prioritariamente o compromisso com o público. Não com o comprador (mercado) de arte. Mas com a platéia mesmo. Esse rosto indeterminado, o elemento mais importante dessa estrutura. De trabalhar com essa maravilhosa possibilidade que as artes plásticas oferecem, de criar para cada nova idéia uma nova linguagem para expressá-la. Trabalhar sempre com essa possibilidade de transgressão ao nível do real. Quer dizer, fazer trabalhos que não existam simplesmente no espaço consentido, consagrado, sagrado. Que não aconteçam simplesmente ao nível de uma tela, de uma superfície, de uma representação. Não mais trabalhar com a metáfora da pólvora - trabalhar com a pólvora mesmo.

*Extraído do depoimento de CM registrado na pesquisa Ondas do corpo, de Antônio Manuel Copy-desk e montagem do texto: Eudoro Augusto Macieira. Publicado no Livro "Cildo Meireles" da FUNARTE. Rio de Janeiro, 1981.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Patch Adams - Roda Viva

Para quem não assistiu (como eu) ao vivo, em plena segunda-feira de carnaval, ao roda viva, há um consolo: a entrevista de Patch Adams está no YouTube. São 10 partes e a primeira começa no link abaixo:

http://br.youtube.com/watch?v=8Q7aqa-G0l8

Pra quem não sabe Patch Adams foi tema de filme, o "doutor da alegria", segundo Hollywood. O que ninguém ou quase ninguém conhece é o verdadeiro homem que está por trás daquela historinha boba!

E que homem! Vale a pena assistir... mesmo que seja pra rir daqueles médicos, ou aspirantes, bobinhos.

indicação


os três blogs abaixo merecem a indicação: