segunda-feira, 31 de março de 2008

não se mate - drummond

NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserves-e todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 13 de março de 2008

primo basílio, de daniel filho

é muito ruim ver uma obra como "o primo basílio" de eça de queiroz, de tão grande intensidade virar uma transposição à moda "a vida como ela é". tudo lembra o antigo seriado baseado na obra de nelson rodrigues. o ritmo, a música, a linguagem cinematográfica/televisiva, os diálogos e gírias, o adultério, até a presença de guilherme fontes lembram a novela global


daniel filho não sabe fazer cinema. sabe fazer programa com padrão globo. e é isso que o filme é uma repetição de padrões globais que tornou frágil e superficial a obra de eça. o livro é uma crítica feroz à sociedade portuguesa, o filme é mais um capítulo de "a vida como ela é".

as únicas boas cenas do filme são as cenas de sexo entre luísa (debora falabella) e basílio (fábio assunção), para ver a cena basta procurar no youtube, todo o resto do filme tem o tempo das novelas de daniel filho: efêmero.

terça-feira, 11 de março de 2008

drummond

A Bruxa


(Carlos Drummond de Andrade)

Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto
estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida a meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona da luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.

Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar um amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse nesse minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.


Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e calma.

Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?
Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.

Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me,
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.

opinião pública x hey boy

"opinião pública", primeiro longa metragem de arnaldo jabor de 1967 está para o cinema brasileiro assim como "hey boy" dos mutantes está para a música brasileira. os dois tratam sobre o mesmo tema: juventude e senso comum.

o filme de jabor trata de desfazer a idéia de que todo jovem da décade de 60-70 era necessariamente um revolucionário. a voz em off diz: "geralmente, se liga juventude moderna com revolta. as manchetes falam em tóxicos, deliquência... não vimos isso no jovem comum da classe média. na maioria, ele ignora que a sociedade seja palco de grande conflitos e marcha atráves de um presente risonho para um futuro conformado. para eles o futuro é apenas um lugar onde vivem os adultos."


para se ter certeza do que narra a voz em off, a voz é dada a juventude comum de classe média e encontramos os mesmos tipos de hoje: mulheres sonhadoras e vaidosas e homens machistas e homofóbicos.

e eis novamente a voz em off: "a indústria vende aos jovens todos os sonhos, os principais produtos são o sucesso e a felicidade. o universo dessa moderna indústria é conformista e totalmente isenta de angústia. qualquer traço de revolta é logo vulgarizado em moda, o que surgiu como protesto social vira estilo de roupa ou corte de cabelo. os novos uniformes da obediência. sem dúvida são bons exemplos os ídolos da música jovem..."

precisamos de algo mais atual do que isso? precisamos de discurso mais certeiro? 

precisamos dos mutantes!

**

hey boy
(arnaldo batista - elcio decario)

He he he hey boy
O teu cabelo tá bonito hey boy
Tua caranga até assusta hey boy
Vai passear na Rua Augusta

He he he hey boy
Teu pai já deu tua mesada hey boy
A tua mina tá gamada
Mas você nunca fez nada

No pequeno mundo do pecado
O tempo é tão pequeno
Teu blusão importado
Tua pinta de abonado
Tuas idéias modernas

He he he hey boy
Mas teu cabelo tá bonito hey boy
Tua caranga até assusta hey boy
Vai passear na Rua Augusta

As meninas e as pernas
Vão aparecer
Nos passos ritmados
Do yê yê yê bem dançado
Da cuba-libre gelada

Hey boy, viver por viver
Hey boy, viver por viver
Hey boy, viver por viver
Hey boy

sexta-feira, 7 de março de 2008

encontro com milton santos

extraí alguns fragmentos do filme "Encontro com Milton Santos" de Silvio Tendler. vale a pena pensar sobre isso, aliás, vale a pena pensar. e vale também ver o filme, ainda que seja de silvio tendler.

"toda doutrina que não se busca renovar, ela corre o risco de se tornar uma religião, um dogma, em conseguinte, emburrecer em vez de esclarecer"

"a questão da fome não é a questão da produção de alimentos é questão de distribuição"

"a lógica financeira nada tem a ver com a lógica da solidariedade"

"temos que recomeçar o debate da civilização. a gente passou a debater o crescimento econômico: se vamos aumentar os juros, se vamos diminuir, se vamos facilitar um pouco a inflação ou não, mas a civilização, ela própria, quase que não é objeto de discussão. isso abre espaço para qualquer forma de barbárie, como esta pela qual a gente deixa morrer crianças, velhos e adultos tranquilamente"

"o homem deixou de ser o centro do mundo, o centro do mundo hoje é o dinheiro, mas o dinheiro em estado puro. o dinheiro em estado puro só é o centro do mundo por causa dessa geo-política que se instalou, proposta pelos economistas e impostas pela mídia"

"a gente esvaziou a palavra democracia de conteúdo, a gente continua falando de uma democracia sem saber muito bem do que está falando. nós utilizamos uma série de conceitos que vem de um outro tempo e que se torna vazia porque o tempo mudou. o que é conveninente. e o que ficou foi o eleitoral, o resto: a representatividade, a responsabilidade.. tudo isso perdeu força, a coerência com idéias, a transparência"

quarta-feira, 5 de março de 2008

presente da graça


primeiro presente da casa da graça! todos felizes!

andy warhol.

o livro de cabeceira - peter greenaway


encontrei uma bom texto sobre o filme "o livro de cabeceira" de peter greenaway, o texto é escrito por Rafael Raffaelli, professor Universidade Federal de Santa Catarina.

segue o link abaixo:

http://www.cfh.ufsc.br/~dich/TextoCaderno75.pdf

discordo apenas da conclusão do artigo, o filme se explica na frase do próprio filme: "há duas coisas em que se pode confiar: os prazeres do corpo e os prazeres da literatura".

sábado, 1 de março de 2008

quarto 666 - wim wenders

para quem pensa cinema para além do entretenimento o filme "quarto 666" de wim wenders, de 1983, é obrigatório. quando estava a caminho do festival de cannes de 1982, ele resolveu reunir um elenco de grandes diretores para discutir o futuro do cinema. wenders escreve algumas perguntas para que seu elenco de pensadores as respondam. assim, o filme é uma viagem metalinguistica no mundo cinematográfico. o cenário é simples: um quarto de hotel, uma cadeira com o convidado, uma câmera fixa e um televisão ligada.

a tv está ligada sempre, mas o que ela transmite é sem importância para o filme, pode ser uma partida de tênis ou um desenho animado, não importa! porque o espetáculo, nesse caso, não aparece. ele é o cinema. é ele que produz o show. é ele que produz o debate e a reflexão. é o cinema que está por trás das câmeras.


o primeiro a aparecer na tela é godard, seus esclarecimentos sobre o surgimento do cinema e da tv, que esteve sempre associada à publicidade, o porquê da velocidade de comerciais, e além disso de programas, são pontuais. godard vai calmamente com seu charuto nos dando pequenas pistas para pensar o cinema e a tv. gosto, especialmente, quando ele diz "a televisão é como um pequena agência de correios".

depois de godard, desfilam pela tela, rapidamente: paul morrissey, o diretor de cinema da fábrica de andy warhol. para este o cinema morrerá, assim como a poesia e o romance estão mortos; mike de leon, diretor filipino; monte hellman, que não acredita na morte do cinema; romain goupil, acredita que o cinema pode se utilizar da tv para transmitir filmes para o mundo inteiro; susan seidelman e; noel simsolo.

fassbinder acredita em uma polarização do cinema: cinema de estilo e cinema de sensação. um cinema individual e um cinema de televisão. um cinema importante e outro sem importância.

werner herzog, para responder às perguntas, tira os sapatos e desliga a tv. ele não crê em uma situação tão dramática, para ele as duas linguagens são completamente diferentes.

robert kramer, acredita na liberdade no cinema; ana carolina, agradece por participar da entrevista; mahroun bagdadi, fala de problemas de produção.

spielberg é um grande otimista em relação ao cinema e à hollywood. e fala de dinheiro. dinheiro. dinheiro e dinheiro. aliás, dolares. dolares e dolares.

antonioni discute a influência da televisão no espectador e crê que as novas tecnologias criarão um novo tipo de cinema. o cinema passará para as casas.

wim wenders aparece para dar voz ao cineasta turco yilmaz guney que havia sido extraditado e não pode filmar. yilmaz acredita que o cinema industrial reproduz o que deseja as massas, enquanto que o cinema artístico fala sobre as massas. obrigado wim!