sexta-feira, 20 de junho de 2008

110 Anos de Cinema Brasileiro!!!

Rio 40 Graus - Nelson Pereira dos Santos

O cinema brasileiro nasceu no dia 19 de junho

Quando o cinema fez 100 anos, o cineasta Jean-Luc Godard (Nossa Música) foi um dos que se levantaram contra o motivo da comemoração. Tudo porque, segundo ele, estabelecia-se como data do nascimento do cinema a ocasião em que houve a primeira exibição pública da história, com A Chegada do Trem na Estação, dos irmãos Lumière, e não a primeira vez que um filme rodou numa câmera, como ele queria.

No Brasil, há uma confusão de datas. A primeira vez que uma câmera entrou em funcionamento registrando imagens 100% brasileira, foi em 19 de junho de 1898, quando Alfonso Segreto chegou da Europa e filmou cenas da Baía de Guanabara. Essa é a data comumente associada ao nascimento do cinema brasileiro. Seu irmão Pascoal havia inaugurado uma sala de exibições no ano anterior, e foi nessa sala que o filme foi exibido pela primeira vez.

No entanto, o Dia do Cinema Brasileiro é comemorado em 5 de novembro. Seria uma homenagem a dois eventos importantes acontecidos na data: o nascimento de Paulo César Saraceni (O Viajante) e o falecimento de Humberto Mauro (Ganga Bruta)? Ou simplesmente uma escolha comercial?

fonte: http://cineclick.uol.com.br/noticias/index.php?id_noticia=19826

Terra em Transe - Glauber Rocha

Macunaíma - Joaquim Pedro de Andrade

Pixote, A Lei do Mais Fraco - Hector Babenco

quarta-feira, 18 de junho de 2008

a idéia de baianidade no livro "os dias do medo" de ariovaldo matos

A idéia de baianidade é construída utilizando-se de um repertório limitado e arbitrário de elementos estéticos e representativos da cultura afro baiana que são selecionados, amplificados, reproduzidos e reimaginados com a finalidade de construir a imagem da Bahia.

O Prof. Dr. Alberto Albergaria resume a duas correntes os estudos sobre Bahia e baianidade[1]. A primeira corrente é a dos baianólogos Cid Teixeira e Ordep Serra – pode-se encaixar nessa corrente Antônio Risério – para estes existiria um modo de viver particular do baiano (um ethos baiano) constituído endogenamente durante mais de quatrocentos anos de sincretismo religioso e mestiçagem afro-luso-tupi; a outra corrente, mais recente, constituído por Ari Lima e Roque Pinto, acredita que a idéia de baianidade não passa de um mito constitutivo de identidade, sendo construída de fora para dentro (em oposição ao Rio de Janeiro e a São Paulo) e de cima para baixo.

Para esta nova corrente a idéia de baianidade surge quando o Rio se torna metrópole, capital do Brasil em 1763; nesse período, em oposição, a Bahia vai se constituindo no lugar da representação do passado, da tradição, da negritude, das raízes, etc. Porém, no início do século XX, a metrópole brasileira, se desloca para São Paulo, onde se cria também um discurso de baianidade. A oposição Rio de Janeiro x Bahia, torna-se também, uma oposição São Paulo x Bahia.

Nessa oposição fortalecida por volta de 1930, São Paulo representa a razão, a civilização, a discrição, a indústria, o futuro, o trabalho; a Bahia representa o místico, as raízes, o passado, a preguiça, a exuberância, a cordialidade.

A oposição São Paulo x Bahia está bem marcada no livro “Os Dias do Medo” de Ariovaldo Matos. No trecho abaixo, encontramos a oposição riqueza x pobreza:

“Não em São Paulo, terra em que já existiam indústrias, mas aqui, na Bahia paupérrima (...) na próspera cidade de São Paulo? não, não, não! Aqui, eu trabalharia aqui, nesta paupérrima Bahia”[2]

Em outro trecho, em que a ação se passa, aproximadamente, em 1920, podemos destacar a oposição desenvolvimento x decadência:

“aumentava o número de lojas que vendiam sapatos e assemelhados produzidos em São Paulo e mesmo no Rio Grande do Sul, a preços concorrentes (melhor a qualidade), senão inferiores, aos dos produtos localmente manufaturados. Vivia-se a involução industrial baiana”.[3]

Porém, esta oposição não deixa de ser criticada pelos dois narradores dos livros, eles criticam a concentração de dinheiro na região sudeste, dizendo que essa concentração forma uma nova classe, o proletariado, que poderia ser perigoso para o país – era o medo do comunismo.

Ainda, segundo o Prof. Dr. Roberto Albergaria, no inicio dos anos 30, com a entrada da rádio nacional, o tema da Bahia se torna cada vez mais forte, principalmente, através das canções de Caymmi e Ari Barroso. Surge o discurso de uma Bahia mítica que seria um concentrado do Brasil.

Caymmi e Jorge Amado criam através do cancioneiro e da literatura, já no ínicio dos anos 30, a imagem de uma Bahia mística, instituindo uma série de imagens que passaram a ser representativas da Bahia. Essas imagens são também reforçadas por outros artistas como Carybe e Pierre Verger.

Presente na obra desses artistas passam a ser símbolos da baianidade: a sensualidade da mulher baiana, geralmente mulata; a cidade praieira e festeira; a musicalidade; o sincretismo religioso; a boa convivência multirracial e a miscigenação; o sincretismo religioso; a malandragem; a capoeira; a permissividade religiosa e sexual; o carnaval e as festas populares; o candomblé; o acarajé e as baianas; o povo simples e hospitaleiro; a alegria do povo baiano; etc.[4]

Roque Pinto[5] resume essas idéias dizendo que houve a construção e disseminação da idéia de uma cultura baiana “genuína” e idiossincrática, isto é, da construção de uma Bahia estereotipada – mítica, atemporal, praieira, festeira, etc.

O carnaval baiano aparece no livro de Ariovaldo Matos mais de cinco vezes, inclusive a idéia de que o ano na Bahia só começa efetivamente depois do carnaval.

Destaco duas passagens do texto como exemplo, na primeira passagem, a mudança das personagens da Pituba para o centro de Salvador, só pode ser realizado após o carnaval; na segunda passagem, o carnaval é o momento do desbunde, da permissividade sexual, havendo inclusive uma sugestão de homossexualidade entre as personagens Abelardo e Cris.

“Uma ou duas semanas depois do Carnaval (naquela época chamava-se, tais festejos, de entrudo), o sr. Giuseppe, mamãe e eu fomos residir em Santo Antônio Além-do-Carmo.”[6]

“Querida, não é verdade que eu e Cris nos tenhamos esbaldados no Carnaval, como você afirma. Devo dizer que Cris se excedeu nas bebidas e mi envolvido em situações desagradáveis, algumas perigosas à minha integridade física. Situações deploráveis porque Cris, surpreendentemente, é capaz de ser violento, agressivo, provocador.”[7]

A Bahia representada como uma cidade praieira, uma cidade de pescadores, também encontra ressonância no livro, a Pituba aparece como uma grande colônia de pescadores.

“Morávamos na Pituba, o mar na porta, uma casa de remediados, a única telha-vã naquelas redondezas. As outras, disseminadas ao longo da praia, cobertas com palhas de coqueiros, eram habitadas por pescadores. Tio Leonardo, íntimo de Deus, dos peixes, dos homens, quem sabe amigo até dos fanáticos cavalos-marinhos” [8]

Assim como, Itapuã é representada como o lugar de lavadeiras.

“Itapuã, então, o sol ainda a pino, era cedo para as lavadeiras dos córregos nas imediações do Farol, certo viriam mais tarde, logo amainasse a quentura (...) atribuí-me a obrigação de esperar as lavadeiras”[9]

Essas duas imagens são muito fortes em livros de Jorge Amado, como Capitães de Areia, Mar Morto e Jubiabá; assim como, no segundo LP de Dorival Caymmi com Carmem Miranda, lançado em 1939, que tem canções como “Rainha do Mar” e “Promessa de Pescador”. Foram imagens repetidamente associadas à Bahia que ganharam força com as telenovelas, como Gabriela e Tieta.

A sensualidade e a beleza da mulher negra baiana também está presente no texto, elas são descritas pela potência e ameaça sexual que representam:

“não obstante, fosse Rosenda fêmea desde as pontas dos pés, uma negra muito apetitosa e ciente desse favor”[10]

“ela estava triste e sua tristeza fez-me repara-la melhor, uma negra sem os chamados “traços brancos”, negra bela porque negra, robusta mas extremamente feminina”[11]

“a moça Mariana apareceu lá em casa, olhos amendoados, seiso fartos, nádegas condizentes com o perfil”[12]

O mito da boa convivência racial também se apresenta no texto, a figura do poeta Cruz e Souza é invocada duas vezes, para dizer que não há diferença de tratamento entre brancos e negros.

“Isto de João Candido se preto ou não ser preto é questão de somenos. Do senhor mesmo, professor, ouvi louvores à poesia do Dr. Cruz e Souza, que é preto.”[13]

Algumas vezes, características associadas à baianidade são tratadas com ironia no texto, a personagem-narrador, Tônio, ao se referir a morte da sua mãe, que ele odeia e ao mesmo tempo deseja sexualmente, atribui a morte à preguiça.

“avisei a Anália sobre o acontecido e ela perguntou sobre a causa da morte, respondi Morreu de preguiça, Anália riu (elas se destestavam)”[14]

Comidas tipicamente baianas também se encontram no texto, como por exemplo o caruru.

“não sairia para rezar uma hora daquelas, o jantar próximo, cada vez mais convidativo o odor do caruru que Anália preparava”

A religiosidade também está presente, surgindo principalmente quando dá doença do Sr. Giuseppe, há repetidamente presente a idéia de um milagre e a necessidade de se rezar para que isso aconteça. Porém, essa promessa de cura pela fé é hostilizada por Tônio.

“A fé remove montanhas. Não removeu picas nenhumas!”[15]

Mas além da religiosidade, a Bahia é representada edênicamente, como se o seu clima, por si só, fosse capaz de curar o enfermo, porém, essa idealização da Bahia é logo ironizada, também por Tônio.

“acreditava, o bobão, que o clima de Salvador poderia devolver alguns movimentos ao Sr. Giuseppe. De onde tirou essa teoria maluca eu não sei.”[16]

Armando Bião[17] faz uma associação entre a forma de falar do baiano e a baianidade, para ele há um imaginário brasileiro – expresso em piadas, telenovelas, canções, etc – de que o baiano fala alto e cantando, fala de forma dengosa, essa baianidade refletida na comunicação se dá principalmente pelo uso de diminutivos.

Essa linguagem típica baiana aparece uma única vez no livro de Ariovaldo, no diálogo entre Tônio e uma empregada, Odete:

“Se deite, bichinha. Agora não doutor. De noite você vem? Não sei, doutor. (...) Você engravidou bichinha? Não, doutor.”[18]

Tônio é a personagem principal do livro, são as memórias dele que estão sendo recontadas a partir dos seus escritos e com a ajuda de Aberlado e Marluce, ele parece ser o personagem mais lúcido do livro.

Como político ele sabe da importância de se usar esse discurso de baianidade para angariar votos, e é isso que o interessa, votos! Assim, o discurso da baianidade aparece ironizado através do discurso de um político que o usa para conseguir se eleger - essa foi uma postura adotada inclusive pelo carlismo.

“Afirmo e reafirmo que eu, Tônio Petrucci, senador Antônio Petrucci, consegui iludi-los dezenas e dezenas de anos (...) Meu mérito – porque há mérito em ter sido um canalha bem sucedido – constituiu em ter compreendido vocês e agir de acordo com tal compreensão”[19]



[1] ALBERGARIA, Roberto. Bahia, Bahia, que lugar é este?. Disponível em: http://www.sbpccultural.ufba.br/identid/semana1/alberga.html>. Acesso em: 11 de junho de 2008.

[2] MATOS, Ariovaldo. Os Dias do Medo. Livraria Cultura Editora: São Paulo, 1979. p. 81

[3] Ibid. p. 117.

[4] CRUZ, Gutemberg. A Baianidade é mito?. Disponível em: . Acesso em: 10 de junho de 2008.

[5] PINTO, Roque. A Bahia reimaginada: como transformar um velho entreposto comercial em um novíssimo produtor de tradições. Disponível em: Acesso em: 10 de junho de 2008.

[6] MATOS, Ariovaldo. Os Dias do Medo. Livraria Cultura Editora: São Paulo, 1979, p. 54.

[7] Ibid. p. 108.

[8] Ibid. p. 21.

[9] Ibid. p. 31.

[10] Ibid. p. 48.

[11] Ibid. p. 77.

[12] Ibid. p. 89.

[13] Ibid. p. 81.

[14] Ibid. p. 136.

[15] Ibid. p. 97.

[16] Ibid. p. 97.

[17] BIÃO, Armando. Matrizes estéticas: o espetáculo da baianidade. Comunicação apresentada ao Ciclo de Palestras do GIPE-CIT, 1998/1999), Disponível em: . Acesso em 10 de junho de 2008.

[18] MATOS, Ariovaldo. Os Dias do Medo. Livraria Cultura Editora: São Paulo, 1979, p. 176.

[19] Ibid. p. 134.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

abismo - nilson oliveira

ABISMO

Quero absorver intensamente toda a tristeza do mundo
As esperanças não alcançadas
Os filhos que não nasceram
O pranto das mães desconsoladas...
Quero sentir profundamente toda a dor
A dor de não ter amor, não ter paz,
Não ter futuro.
Pelo trabalho rotineiro de cada dia
A comida sem graça e fria
A desigualdade, a injustiça, o olhar distante,
A dor, toda a dor da infelicidade.
Quero aguardar a catástrofe silenciosamente
Com o meu cansaço estafante e descomedido
Pelo excesso das palavras, das mentiras, das ilusões
Dos pesadelos, tantos.
O horizonte se distanciando... longe... longe.
Quero chorar muito... Quero chorar muito
Sem nenhum constrangimento
Sem parar, sem parar.
Quero ser tragado pela realidade
E me esconder na sombra da minha insignificância
Para que num momento distante – se houver,
Eu possa despertar para um mundo
Agradável e melhor.

silêncio - nilson oliveira

SILÊNCIO

Quero o silêncio, silêncio de morte ou de vida,
Não importa, quero o silêncio.
Deixa-me calado,
Deixa-me ficar de olhos fechados...
Não quero mais fingir coragem,
Não quero mais argumentar com o tempo.
Vou esquecer os horizontes,
Vou vomitar os sonhos,
E adormecer a esperança...
Estou realmente cansado,
Não dá para perceber, eu sei,
Mas estou muito cansado.
Talvez pela inexistência de lágrimas
Até o sofrimento fica confuso
E sentir ou não sentir
Não faz nenhuma diferença.
Mas, por favor, não se incomode com isso,
Por favor, passe adiante,
Ignora-me,
Deixa-me despedaçar em minha insignificância.
Logo viro pó,
Logo serei esquecido,
Logo nada mais fará sentido...
Adeus para mim mesmo.
Adeus...

aforismos cinematográficos III


"O mundo não desaparece quando você fecha os olhos"

quarta-feira, 11 de junho de 2008

aforismos cinematográficos II


"Aquele que faz de si um animal se livra da dor de ser homem"

aforismos cinematográficos


"A paz me perturba. Temos a paz acima de tudo. Parece apenas uma aparência que oculta o inferno"

Meu Amigo Ypsilon, de Arthur Schnitzler - uma análise possível

segue a minha análise para o trabalho de "teoria da narrativa" do conto postado abaixo.

* * * * * * * *

Para começar a análise do conto, recorro a biografia de Arthur Schntizler, para esclarecer o uso de alguns vocábulos e comportamentos da personagem-narrador que me parecem ter muito a ver com a sua vida profissional.

Schnitzler foi um médico-psicólogo vienense que só abandonou a carreira médica aos trinta e nove anos para dedicar-se completamente à literatura. Depois de ter trabalhado em hospitais psiquiátricos e ter a sua própria clínica.

A atitude do narrador do conto se confunde em muitos aspectos com a figura de um psicanalista – como era Schnitzler, é o narrador que ouve e aconselha Ypsilon tentando salvá-lo da sua loucura, adotando postura parecida também com a corista que se apaixona por Ypsilon, como mostra o trecho abaixo:

“- Você vem de lá? – Com isto, levantei-me e convidei-a a se sentar no divã, para perto do qual puxei uma cadeira.

Logo após ter-se sentado, começou a soluçar fortemente.

- O que há com você, pequena? – perguntei-lhe. – O que há?

Mas ela nada respondeu.

Esperei pacientemente. Depois perguntei de novo, sem qualquer inquietação no tom:

- O que há?”2

É estranho pensar que alguém receba um amigo ou até mesmo um simples conhecido em sua casa e o faça sentar em um divã, que puxe em seguida uma cadeira pra sentar-se junto ao seu convidado e depois o faça perguntas de forma muito tranqüila, sem mudar o tom da voz, mesmo sentindo-se assombrado com a visita. É uma cena que remete diretamente à figura de um psicanalista, por conseqüência remete a Schnitzer.

O narrador utiliza um conjunto de símbolos que também é gerenciado pela psicanálise em suas teorias, por exemplo, a coroa de perpétuas entrelaçadas com louros que ele coloca no túmulo de Ypsilon. Segundo o “Dicionário de Símbolos e Imagens Oníricas”3, a coroa de louros equivale à coroa de espinhos de Cristo. Ypsilon seria, então, um mártir da sua arte.

“Pois, na minha opinião, não houve em nenhum tempo qualquer outro poeta que os merecesse como meu amigo Ypsilon – não por causa de seu gênio, que pudera mostrar-se pouco armado contra todos os ataques da crítica, mas pela forma grandiosa com que valorizava a sua arte”.4

Essa é uma visão romântica que se tem do escritor, aquele que sofre a incompreensão do mundo, que está em desacordo com a realidade. É dessa forma que o narrador vai nos apresentar Ypsilon, porém cheio de ironia corrosiva com essa figura que era o escritor romântico, como ele mesmo diz no parágrafo acima, ele merece os louros não por ser um escritor genial, mas por valorizar excessivamente a sua arte.

Há a mesma ironia na apresentação de Ypsilon quando o narrador diz:

Martin Brand, assim era seu verdadeiro nome. Não deve causar surpresa o fato de que este nome, cuja lembrança tanto venero, não tivesse grandes êxitos a apresentar. Seus poemas, alguns dos quais, aliás, assinalados com um “Y”, foram publicados num pequeno jornal de Salzburg ou de Graz, não sobressaíam demasiadamente e, mesmo junto a mim, a quem o studiosus philologiae – isto é o que o senhor Martin Brand era na vida burguesa – por vezes se dirigia com suas fantasias escritas, ele raramente conseguia encontrar um verdadeiro estímulo ou reconhecimento”.5

Ypsilon também é descrito como alguém que está fora da realidade, o desacordo dele com o mundo é tal que as suas emoções são geradas pela escrita e não por suas experiências de vida. A ironia no trecho abaixo está presente no fato do narrador associar tal comportamento ao dos jovens poetas.

“Mas como a maioria dos jovens poetas, dava pouca importância ao julgamento daqueles que não gostavam de suas escrivinhações; sentia-se tão infinitamente à vontade junto à sua musa, que vagava sempre, invisível, ao seu lado, que até um determinado momento pertenceu aos mais felizes dos homens que jamais encontrei. Contudo por vezes ficava acabrunhado; nunca, porém, por causa de algum fato melindroso, que lhe tivesse ocorrido durante a desprezível vida dia-a-dia, mas apenas quando seu pensamento se ocupava de algum tema realmente triste: ao trabalhar num drama, em que morriam rainhas de coração partido e príncipes, de cabeça também partida, ou ao escrever um conto de fadas, onde uma fada maligna, devido à sua maldade inata, ameaçava destruir a felicidade de duas boas criaturas humanas. Pelo contrario, ele costumava mostrar incontida alegria quando cantava a primavera, ou uma noite de baile, em que uma bela máscara beija os lábios de um estudante de artes, fantasiando de núbio, e diz logo após: ‘Sim, é você, e ninguém há de rouba-lo de mim!’”6

Diante desse fato, o narrador adota novamente uma atitude psicanalítica, lembrando a Ypsilon a necessidade dele não fazer amizades demasiadas estreitas com as suas personagens, aconselhando-o a olhar um pouco a vida que está ao seu redor.

Além disso, o narrador está todo o tempo falando da loucura de Ypsilon e das suas atitudes “amalucadas”.

É também, o narrador, uma figura extremamente culta, ele é, além de tudo, um músico que conhece bem essa arte, variando sua prática artística entre valsas e marchas fúnebres. Vale lembrar que os primeiros e principais psicanalistas vienenses eram figuras cultíssimas, assim como Freud.

Ypsilon é caracterizado como um escritor ultra-romântico, é aquele que não encontra imagem ideal de amor na terra, e, por isso, seu amor só pode ser realizado através dos seus personagens literários. Por esta razão ele rompe com a corista, já que ela torna-se enfadonha quando comparadas às mulheres da sua fantasia literária.

“- Ele deve ter outra, pois hoje proclamou várias vezes: “Você não é mesmo como ela. Não como ela”. E depois, quando o beijei atemorizada, ele me olhou, assim, de alto a baixo, e disse: “Vá embora, você não está vendo que me incomoda?”7

Porém, essa atitude de Ypsilon é ironizada pelo narrador quando ele o caracteriza como um doido e quando ele diz que essas mulheres de carne e osso são enfadonhas para o poeta porque estas comem, bebem e amam. As mulheres das fantasias de Ypsilon são graciosas como nunca vistas antes por homens ou deuses.

- É claro, naturalmente! — disse eu. — Essas mulheres de carne e osso! São brutais o bastante tanto para comer, beber, amar, como para atravessar a vida com um imenso desperdício de existência real”.8

Não há uma compreensão real de Ypsilon, há sempre uma série de adjetivos associados à loucura para julgar o seu comportamento. O narrador chega a sugerir a corista que ela diga a Ypsilon ser uma criatura da sua imaginação, para alcançar o status de perfeição das suas personagens literárias.

Outro símbolo importante, na caracterização do poeta, são as quatro velas vermelhas que ele acende para escrever. Para o mesmo “Dicionário de Símbolos e Imagens Oníricas”, a vela é o símbolo da luz resultante de uma atitude compreensiva, a clareza da mente que se abre para penetrar no inconsciente e o fertilizar. Se a vela está acesa, indica que se está conectado com a força primordial, com a essência de seu ser.

A arte do poeta, assim, é apresentada novamente com a idéia romântica do escritor. Aquele que escreve por inspiração, convulsivamente. Esta idéia encontra reflexo em muitas partes do conto, como por exemplo:

Embora a luz clara do dia iluminasse o quarto, havia quatro velas vermelhas acessas sobre a sua mesa (ele conseguia trabalhar apenas à luz de velas vermelhas), e Ypsilon estava sentado diante delas, com os olhos turvos, enquanto a sua pena perambulava irrequieta sobre o papel”9

Mas o narrador não dá importância alguma a este símbolo e apaga as velas para roubar a atenção do poeta e tirá-lo do estado de transe que ele se coloca ao escrever. A pouca importância do narrador à vela, como símbolo que é, mostra a superioridade do narrador sobre o poeta. É a superioridade de uma cultura racional e científica sobre uma cultura emotiva e romântica.

Ypsilon criou uma personagem (Türkisa) que toma conta dele, do seu coração e da sua mente, mas ela está condenada à morte. A morte da personagem para o narrador significaria a libertação do poeta da prisão criada pelo processo de criação literária, mas não é o que acontece.

“Pensei: agora já passou; o feitiço está desfeito; a terrível fantasia, na qual viveu durante dias a fio, dissipou-se, desvaneceu-se. Sim, senti como se em toda a atmosfera ao nosso redor ocorresse uma mudança.”10

O poeta Ypsilon como representante da geração ultra-romântica age de forma diferente. A imagem ideal de perfeição é a personagem que ele criou, não há nada semelhante na vida real, é assim, que a morte da personagem vai significar a morte do próprio poeta.

O amor do poeta pela sua personagem é tão grande que a aproximação da morte da personagem vai deixando-o cada vez mais doente e esgotado fisicamente. Esse comportamento é constantemente ironizado pelo narrador, é a própria ironia moderna ao autor romântico, representado, nesse caso, por Ypsilon.

“- Você está ridículo, Ypsilon; você está doente.”11

O narrador passa, então, a fazer tentativas para salvar Ypsilon da sua loucura, levando-o para passeios pelo mundo real. Mundo que para o poeta não apresenta nenhuma beleza especial, a luz do mundo real fere seus olhos, ele não reconhece na natureza uma imagem ideal.

A loucura do poeta é invencível às razões do narrador, é uma luta vã a que este se propôs, onde novamente se afirma a superioridade da sabedoria do narrador sobre a loucura do poeta.

“Não conseguia deixar de lado esta idéia fixa e a todas as minhas exortações ele respondia apenas com um aceno negativo da cabeça. Senti que, frente a esta loucura, minha sabedoria tinha chegado ao seu fim.”12

O conto de Schnitzler é uma grande ironia aos poetas românticos, aos seus sonhos deslocados da realidade e ao seu fazer poético baseado na inspiração. Ele é mau poeta porque seus versos são ruins, mas é bom poeta por se capaz de se enamorar dos seus personagens até a loucura, é por essa razão que ele será lembrado.



2 Ibid. p. 33

3 PEREIRA ALVES, Sérgio. Dicionário de Símbolos e Imagens Oníricas. Disponível em .Acesso em 09 de junho de 2008.

4 SCHNITZLER, Arthur. Contos de Amor e Morte: Meu Amigo Ypsilon. São Paulo. Compainha das Letras: 1996. p. 31

5 Ibid. p. 31-32.

6 Ibid. p. 32.

7 Ibid. p. 34.

8 Ibid. p. 35.

9 Ibid. p.35.

10 Ibid p. 42.

11 Ibid. p. 37.

12 Ibid. p.40.

terça-feira, 10 de junho de 2008

contos de amor e morte - arthur schnitzler

meu trabalho final para a matéria "teoria da narrativa" de mirella lima é a análise de um conto de amor. escolhi um conto de arthur schnitzler, chamado "meu amigo ypsilon".

arthur era considerado pelo próprio freud como o seu duplo. isso lhe causava medo e evitou a todo custo que eles se conhecessem pessoalmente, já que ambos viviam na mesma viena. e conseguiu.

como o conto não existe na internet estou fazendo o favor de "lançá-lo" em português, direto do livro "contos de amor e morte" da compainha das letras.

na próxima postagem farei a minha análise do conto. o texto é "longo" mas é bom!

****

1. Meu Amigo Ypsilon

DOS PAPÉIS DE UM MÉDICO

Se houve um homem a cujo destino cabe o adjetivo “tragicômico”, este homem foi, certamente, meu amigo Ypsilon, já falecido; sobre seu túmulo depositei, ontem, mais uma coroa, uma coroa de perpétuas, na qual fiz com que entrelaçassem alguns louros. Pois, na minha opinião, não houve em nenhum tempo qualquer outro poeta que os merecesse como meu amigo Ypsilon – não por causa de seu gênio, que pudera mostrar-se pouco armado contra todos os ataques da crítica, mas pela forma grandiosa com que valorizava a sua arte. Nunca vi alguém que se lhe assemelhasse, e mais de um dos grandes Poetas, que são louvados pelos seus contemporâneos, bem que poderiam ir para o cemitério de Wahring e rezar uma prece silenciosa junto à pequena cruz que traz a inscrição:

AQUI DESCANSA NA PAZ DE DEUS
MARTIN BRAND

Martin Brand, assim era seu verdadeiro nome. Não deve causar surpresa o fato de que este nome, cuja lembrança tanto venero, não tivesse grandes êxitos a apresentar. Seus poemas, alguns dos quais, aliás, assinalados com um “Y”, foram publicados num pequeno jornal de Salzburg ou de Graz, não sobressaíam demasiadamente e, mesmo junto a mim, a quem o studiosus philologiae – isto é o que o senhor Martin Brand era na vida burguesa – por vezes se dirigia com suas fantasias escritas, ele raramente conseguia encontrar um verdadeiro estímulo ou reconhecimento.

Mas como a maioria dos jovens poetas, dava pouca importância ao julgamento daqueles que não gostavam de suas escrivinhações; sentia-se tão infinitamente à vontade junto à sua musa, que vagava sempre, invisível, ao seu lado, que até um determinado momento pertenceu aos mais felizes dos homens que jamais encontrei. Contudo por vezes ficava acabrunhado; nunca, porém, por causa de algum fato melindroso, que lhe tivesse ocorrido durante a desprezível vida dia-a-dia, mas apenas quando seu pensamento se ocupava de algum tema realmente triste: ao trabalhar num drama, em que morriam rainhas de coração partido e príncipes, de cabeça também partida, ou ao escrever um conto de fadas, onde uma fada maligna, devido à sua maldade inata, ameaçava destruir a felicidade de duas boas criaturas humanas. Pelo contrario, ele costumava mostrar incontida alegria quando cantava a primavera, ou uma noite de baile, em que uma bela máscara beija os lábios de um estudante de artes, fantasiando de núbio, e diz logo após: “Sim, é você, e ninguém há de rouba-lo de mim!”.

Mas aqui, e isto é um fato indiscutível, já começava a loucura do meu amigo Ypsilon. Eu costumava exorta-lo, mais seriamente do que muitos outros, para que ele não fizesse amizade demasiado estreita com as suas sombras, mas que olhasse também um pouco a vida ao seu redor, onde há mais de um objeto vivo que vale a pena ser visto. Também moças, louras, morenas, que eu, por exemplo, preferiria muito mais do que as suas esvoaçantes e efêmeras criaturas.

Mesmo assim, certa vez ele iniciou um pequeno namoro com uma corista – após o teatro, naturalmente – que muito mais se atirou em seus braços do que ele se esforçou por ela. O caso, porém, terminou de forma tão penosa, triste até, que o aspecto surpreendente e amalucado da situação só ficou realmente claro para mim quando tudo acabara.

A moça veio correndo ao meu encontro, certa tarde, e achou-me justamente no momento em que estava na poltrona, em frente ao piano, acometido por uma ligeira soneca. Tinha ainda a mão deitada sobre o teclado, alguma dissonância ressoava-me no ouvido.

Olhei com algum assombro para o rosto da pequena, tanto maior porque não vi o amigo Ypsilon ao seu lado, sem cuja compainha ela nunca tinha visitado minha casa anteriormente. Meu rápido olhar em direção à porta pôde esclarecer-lhe a pergunta tácita que eu tinha nos lábios e ela disse, enquanto um choro contido tremia em sua voz:

- Está em casa, escrevendo!

- Você vem de lá? – Com isto, levantei-me e convidei-a a se sentar no divã, para perto do qual puxei uma cadeira.

Logo após ter-se sentado, começou a soluçar fortemente.

- O que há com você, pequena? – perguntei-lhe. – O que há?

Mas ela nada respondeu.

Esperei pacientemente. Depois perguntei de novo, sem qualquer inquietação no tom:

- O que há?

Ela pegou o seu lenço e secou as lágrimas.

- Toque uma valsa, algo alegre, daí vou contar-lhe tudo...

Dirigi-me ao piano e comecei a tocar. Já nos primeiros acordes ouvia a sua voz ao meu lado.

- Ele não me ama – disse quase sem voz.

Parei de tocar e olhei para ela com um ar surpreso que, a bem dizer, não era muito sincero, por eu estava preparado para um relato desse teor.

- Continue – pediu ela, triste.

- Está bem, mas agora não posso tocar uma valsa – repliquei, para que ambos pudéssemos superar esse momento penoso com uma brincadeira – e executei uma marcha fúnebre... Gostaria de não tê-la tocado então – hoje tortura-me de forma ridícula, supersticiosa, a lembrança dessa ação.

A pequena continuou a falar:

- Ele deve ter outra, pois hoje proclamou várias vezes: “Você não é mesmo como ela. Não como ela”. E depois, quando o beijei atemorizada, ele me olhou, assim, de alto a baixo, e disse: “Vá embora, você não está vendo que me incomoda?”. Fiquei estarrecida, mas ele continuou a escrever; seu rosto estava enrubescido e seus olhos brilhavam. Após um tempo ele se voltou e me viu, ainda em pé, no mesmo lugar. “Ainda?”, perguntou; então, eu fui embora.

- Você acredita mesmo nisso? – perguntei.

Ela apenas deu de ombros.

- Vou dizer-lhe do que se trata – continuei – mesmo que, de início, não vá me entender. Você não tem uma rival de carne e osso. Essa outra, de quem você fala – nem vive e é apenas imaginação de nosso amigo Ypsilon.

Ela me olhou espantada.

- Eu o conheço – disse eu – e sei que é doido!

No seu rosto li o assombro pela calma com que eu pronunciava esta verdade.

- Não é a primeira vez que ele fica enamorado das criaturas de sua própria fantasia. Deixe-o terminar seu poema, deixe que ele o ponha no papel e o fantasma terá desaparecido novamente.

- Mas assim dá para ter medo dele! – exclamou ela.

- Não, isso não – repliquei -, mas por mais de uma vez pensei como faria bem ao amor que ele tem por você, se você lhe declarasse “Meu doce Ypsilon, eu, na verdade, não existo, escapuli de um dos seus poemas, e esta amável realidade em teus braços é apenas um sonho...”.

- Como? – perguntou. Ela quase não me entendia.

- Ora, quero apenas explicar-lhe que você não tem nenhum motivo sensato para estar com ciúmes. Deixe-o trabalhar dois ou três dias, ainda, e depois ele virá sozinho até você e lhe pedirá para ser novamente a mesma de antes. Confie em mim!

- Quer dizer que ele é meio maluco! – exclamou.

- Meio maluco? Meio poeta, ou seja, maluco por inteiro! Mas acalme-se e não chore!

Novamente levei as mãos ao teclado e toquei uma valsa.

Enquanto isso, ela foi até a porta e, quando quis me levantar para acompanhá-la, me afastou com um gesto, dizendo:

- Eu vou voltar! – Com isso desapareceu e eu deixei cair as mãos no regaço...

Na manhã seguinte visitei meu amigo Ypsilon. Embora a luz clara do dia iluminasse o quarto, havia quatro velas vermelhas acessas sobre a sua mesa (ele conseguia trabalhar apenas à luz de velas vermelhas), e Ypsilon estava sentado diante delas, com os olhos turvos, enquanto a sua pena perambulava irrequieta sobre o papel.

Apaguei as velas; quando dá última, ele terminou por se aperceber da minha presença.

- Ah, é você – disse.

- Ypsilon – comecei eu, sério -, ponha já essa coisa de lado; venha lanchar comigo; caso contrário, farei tudo que estiver ao meu alcance para que o enfiem no manicômio.

Fixou seus grandes olhos baços em mim.

- A pequena me procurou ontem — continuei. — O que foi que você fez?

Sorriu.

- Não me fale dessa pobre criatura! Estou mais do que farto dessa espécie.

- É claro, naturalmente! — disse eu. — Essas mulheres de carne e osso! São brutais o bastante tanto para comer, beber, amar, como para atravessar a vida com um imenso desperdício de existência real.

- Não me fale delas — interrompeu-me, — Só há uma para mim. Você não vai arrancar-me dela! Ouça! Houve uma vez...

E começou a contar-me uma história, durante a qual olhava de vez em quando para as folhas que estavam à sua frente. Tratava-se de alguma peculiar moçoila, que vivia numa ilha no oceano Índico; chamava-se Türkisa e era a mais graciosa criatura que jamais fora vista por homens ou por deuses. Ypsilon não conseguia achar palavras suficientes para descrever o infinito encanto que dela emanava. Com olhares extáticos explicou-me, finalmente, que, desde que Türkisa lhe erigira seu reino, no coração e na mente, ele próprio não podia sentir o menor interesse por nenhuma outra coisa ou pessoa.

- Quer dizer que você a ama? — perguntei.

- Eu a adoro — disse ele, num tom da mais profunda seriedade. — Mas, ai, ela deve morrer!

Abanei a cabeça, horrorizado.

- E depois, há ainda um príncipe africano — continuou a história e informou pormenores acerca do tal príncipe, que tinha sido tomado de uma funesta paixão por Türkisa.

- Então você está com ciúmes? — perguntei.

- De que adianta? — disse ele, com a voz embargada. — Ela o ama de novo.

- Seu maluco! — gritei. — Acorde, pense que você pode fazer com que o príncipe africano seja devorado por um tigre e que, depois, um poeta alemão de nome Ypsilon pode chegar com uma barca até a costa dessa ilha e...

- Não pode — replicou Ypsilon com a mais profunda convicção.

- Como? Por que não? — exclamei. — Isto está em suas mãos! Você puxa os cordões, é da sua cabeça que saiu este desvario; esta Türkisa existe apenas em sua fantasia!

- Tanto faz! — respondeu ele calmamente. — Tem que ser como é, as coisas se desenrolam, eu não posso mudá-las. Levantei-me bruscamente.

- Você está totalmente louco!

Formou-se em seus lábios um leve sorriso, e ele, calmo, apenas disse:

- Não.

Andei de um lado para o outro pelo quarto e senti que uma intensa agitação tomava conta de mim.

- Eu lhe peço, vá embora! Você me atrapalha! — disse ele.

Fiquei em pé à sua frente, olhei para ele exasperado e repliquei:

- Ao meio-dia voltarei, para perguntar-lhe se quer comer.

Enquanto fechava a porta atrás de mim, vi como Ypsilon voltava a acender suas velas vermelhas. Eu, porém, saí para a luz plena, no meio das pessoas, que andavam pelas ruas com potentes passos cotidianos. Num primeiro instante quase me surpreendi com essa vital exuberância generalizada. Não se compreende a saúde, quando se sai da casa de um louco...

Quando, ao meio-dia, bati à porta de meu amigo Ypsilon, não abriram.

- Volte à noite — disse ele através da porta. - Estou trabalhando, você me atrapalha.

À noite aconteceu-me a mesma coisa. Gritei irônico para dentro:

- Türkisa não morreu ainda? - Ouvi, então, um pro­fundo suspiro. Evidentemente a coitada estava perto do fim. Senti alguma alegria, pois esperava que dessa forma o feitiço seria rompido.

Também na manhã seguinte bati cedo à porta de Ypsilon. Não ouvi nenhum "Pode entrar", mas a maçaneta cedeu e vi meu amigo, pálido e consumido, sentado diante de sua escrivaninha.

- Ypsilon! — exclamei.

- Olhou-me com olhos mortiços.

- O que há com você? — perguntei.

- Ela está morrendo — sussurrou.

- Deus seja louvado! — repliquei.

O seu olhar ficou sombrio, não entendia mais essa alegria.

- Venha, Ypsilon - disse eu e senti que um calafrio angustiante me atravessava o coração. - Venha!

- Não posso – respondeu, mostrando o papel escrito e depois a sua própria cabeça.

- Você está ridículo, Ypsilon; você está doente.

- Depressa, depressa, está chegando ao fim — disse ele, como que para si próprio, apertando a mão contra a cabeça.

- Mas isto não é necessário — disse eu e lhe tirei as mãos da testa, segurando-as nas minhas.

Ele tornou a olhar para o meu rosto, sorrindo melancolicamente.

- Não é necessário, você diz? ... Você não pode entender!

- É verdade, Ypsilon! Eu o entendo muito bem. Você está extenuado; os seus nervos estão enfermos por causa desse estímulo excessivamente violento, ao qual se entrega a sua fantasia selvagem... Um pouco de ar fresco e saudável deste mundo vivo e real, e tudo será apagado.

Fui até a janela e a abri de um tranco.

- Está sentindo? Percebe como o vento da manhã re­mexe travesso as folhas sobre a sua escrivaninha, como os raios do sol brilham atrevidos sobre a sua cabeça cansada e sobre o chão empoeirado? Percebe como este mundo multicolorido mergulha no abençoado azul do céu?

Ele seguiu o meu olhar para fora da janela. Teve de pestanejar, a luz lhe doía. Virei-me em sua direção e o ergui da cadeira, o que ele deixou fazer indolente.

Temendo atiçá-lo, calei e o guiei neste estado de inconsciente passividade até a escadaria. Ele estremeceu mas apenas um instante, depois me acompanhou com passos arrasta­dos pela escada e deixou que eu lhe desse o braço na rua, sem contradizer-me. Só então me atrevi a falar novamente.

- O que há agora, Ypsilon? — perguntei. — Este ar não lhe faz bem?

Mas ele nada replicou e quando eu tentava, de vez em quando, iniciar um diálogo, não obtinha nenhuma resposta.

Nosso passeio nos levou ao longo dos jardins das casas de subúrbio e as flores matutinas cheiravam maravilhosamente. Os brotos mais novos das árvores temperavam nossa respira­cão. O peito elevava-se com mais força, o passo tornava-se mais leve e seguro. Ypsilon, porém, continuava a perambular como por uma paisagem morta. Detivemo-nos numa confeitaria e Ypsilon tomou o seu café, assim como eu. Queria me parecer que ele acordava para uma vida real. Após um gole, abanou a cabeça e passou as mãos pelos olhos.

- Por que não fazemos um passeio pelo campo? — propus. — O tempo está bom.

- Oh, sim! — disse ele e fiquei muito contente com esta sua primeira palavra.

Entramos num carro e fomos em direção ao Bosque de Viena. De início Ypsilon estava sentado imóvel ao meu lado; só quando chegamos ao campo e as árvores da estrada nos cobriam com sua sombra, ele olhou ao seu redor parecendo surpreso, como se quisesse voltar a si. Finalmente sorriu.

— Não é bonito aqui? — perguntei.

Olhou-me novamente, sorrindo, como se quisesse dizer: "Seu tolo, você realmente acha que isto vai me ajudar?".

Continuei a falar o que me vinha à mente, a essa altura realmente oprimida, e falava da grandiosa, da reconciliante solidão da floresta, pela qual estávamos indo...

Ele fechou os olhos e franziu a testa. Depois abanou a cabeça. Tive a sensação de que queria dizer: "Nem você vai melhorar as coisas!".

Assim, mantive-me o tempo todo falando com ele, sem, que Ypsilon abrisse a boca uma vez sequer.

Numa pousada tranqüila pedimos um almoço. Em torno de nós, a floresta sussurrava com vozes misteriosas e o vento passava pelas copas das árvores.

Animei meu amigo a se servir dos pratos que haviam sido trazidos, o que fez afinal. Após alguns bocados, porém, deixou garfo e faca de lado, olhou-me diretamente no rosto e disse:

- Você é um bom homem, mas nem você vai melhorar as coisas!

Ai! Ele já me dissera o mesmo com sua expressão magoada e triste.

- Não, talvez eu não vá melhorar as coisas — repliquei —, mas elas vão ficar boas, se você for sensato. Bem que o entendo — continuei — não me falta sensibilidade para seu gênio irritável e doentio de poeta e você nem seria um poeta, se não estivesse enamorado de sua Türkisa.


- E como ela morre, preciso me sentir miserável — ele me interrompeu, olhando-me estremecido.


Não conseguia deixar de lado esta idéia fixa e a todas as minhas exortações ele respondia apenas com um aceno negativo da cabeça. Senti que, frente a esta loucura, minha sabedoria tinha chegado ao seu fim.


Ficamos sentados bastante tempo, depois passeamos novamente pelo bosque. Foi um dia espantoso. Como se passou para mim? Eu mesmo quase não sei mais; tão longas, tão graves pesaram as horas sobre mim.


O sol já estava longe, no oeste, quando voltamos a nos sentar no carro. Os cavalos, bem descansados, trotavam com prazerosa pressa pelo bosque.


Tínhamos já percorrido um trecho do caminho, quando percebi que meu amigo estava ficando inquieto.


O sol começava a sumir e o crepúsculo espalhava-se lentamente pelas campinas...


- Mais depressa! — disse ele em voz baixa...


Íamos bastante rápido e, como já era possível perceber as primeiras casas da cidade no final da estrada, parecia que chegaríamos antes da escuridão; mas as sombras vespertinas enganavam.


- Rápido, rápido! — gritou Ypsilon, tão alto, que o co­cheiro ouviu e atiçou os seus cavalos...


- O que há com você? — perguntei.


- Para casa! — murmurou. — Preciso chegar ao fim.


A sua respiração acelerou-se; tinha uma expressão agitada; de tempos em tempos ficava sentado imóvel, depois voltava a soltar um lamentável suspiro. Havia um farfalhar nas castanheiras ao longo do caminho e uma brisa fresca se levantou... Senti alguns calafrios...


- Para casa, para casa! — gritou Ypsilon, alto, mas como se soluçasse.


- Deixe disso — acalmei-o —, chegaremos logo. O você quer em casa?... Você não deve trabalhar mais.


Ele me olhou, totalmente surpreso.


- Mas preciso — disse.


Agora passávamos por entre os primeiros lampiões do subúrbio. Ypsilon estava cada vez mais inquieto. Mexia com as mãos de um lado para o outro, e os seus olhos vagueavam; respirava como quem ardesse em febre...


Respirava com tanta sofreguidão que o cocheiro se voltou e o observou assombrado. Depois açoitou os cavalos, e com grande velocidade rolamos sobre o calçamento ruidoso em direção à residência de meu amigo. Uma ou outra vez, ainda, eu o chamei.


— Ypsilon! Ypsilon!


Mas ele não me ouvia mais; sua mente parecia estar presa a um trabalho inquietantemente apressado, e me vi acometido de um estado d'alma cada vez mais sombrio.


Diante de mim apareceu, quando passamos pelas ruelas mal iluminadas, uma imagem que não mais queria me deixar... Via a princesa Türkisa deitada no esquife, feito todo de cristal, e diante dela estava meu infeliz poeta, com olhos do­lentes, isentos de lágrimas.


Nesse momento detivemo-nos diante da casa; Ypsilon saltou do carro e correu escada acima. Quando cheguei no alto, já estava sentado à sua escrivaninha, com as quatro velas vermelhas acesas, e não me ouviu quando entrei.


Tinha acabado de começar a escrever. Tudo tinha afundado ao seu redor. A moribunda Türkisa o enfeitiçava em seu círculo.


Deitei-me no divã e resolvi ficar lá, pois estava seriamente apreensivo.


Sua pena apressava-se sobre o papel, a janela estava aberta, as chamas das velas tremiam. As folhas soltas de sua história misturavam-se sobre a mesa. A expressão de seu rosto se tornava mais perturbada a cada instante; mesmo assim, estava com uma palidez mortal.


De repente tive a nítida sensação de que Türkisa morria. Escrevia mais lentamente, enquanto respirava com dificuldade e fitava com olhos esgazeados as linhas diante de si. Depois, pois, deixou cair a pena das mãos, sua cabeça caiu-lhe sobre o peito e começou a chorar amargamente, de romper o coração. Senti-me melhor, mais aliviado. Pensei: agora já passou; o feitiço está desfeito; a terrível fantasia, na qual viveu durante dias a fio, dissipou-se, desvaneceu-se. Sim, senti como se em toda a atmosfera ao nosso redor ocorresse uma mudança. Maus espíritos fugiam pela janela — e as chamas vermelhas no aposento brilhavam mais calmas e claras. Também as folhas na mesa não mais se mexiam; a paz havia retornado. E meu pobre amigo chorava, chorava cada vez mais silenciosamente.


Aos poucos adormeci no divã...


Deve ter passado bastante tempo, porque, quando acordei, as velas tinham quase se consumido.


Ypsilon, porém, continuava sentado, com a cabeça baixa.


Aproximei-me dele. Olhou para mim com um olhar pleno, totalmente apaziguado.


- Vá dormir — disse-lhe.


Respondeu e sua voz soava firme e moderada:


- Vá você e não se preocupe com nada mais.


- Ora, Ypsilon — exclamei alegremente comovido —, tudo acabou!


- Tudo acabou — disse ele e me beijou a testa.


- Permita-me, então — falei —, passar o resto da noite no sofá do seu quarto, Ypsilon.


- À vontade — respondeu com um olhar amável.


Ficou-me olhando, enquanto me estendia no leito. E quando lhe disse: "Para a cama, então!", acenou sorrindo para mim. Senti que seu olhar ainda pousava sobre mim, quando comecei a adormecer.


Uma aragem quente penetrava no quarto; uma das velas apagou-se; as outras continuavam a bruxulear, com luz cal­ma. Via tudo isso num semi-sonho e depois adormeci completamente.


Amanhecia quando acordei. Ypsilon não estava mais no quarto.


Ainda não pensava em nada e me levantei, para ir até a mesa, onde via um bilhete dobrado, na luz do amanhecer.


Antes de abri-lo, fui até o leito de meu amigo. Não tinha sido desfeito.


Estremeci e, antes de mais nada, por um desses jogos que n perplexidade faz conosco em momentos como aquele, pro­curei pelas velas. Não mais estavam sobre a mesa, jaziam com os castiçais num canto, ao lado do aquecedor. Olhei pelas folhas, e estavam espalhadas, como antes.


Então abri o bilhete. Nele estava escrito:


"Türkisa está morta! Tudo acabou!".


Bati os dentes. Onde estava ele, onde é que ele estava?


Apressei-me em direção ao vestíbulo — vazio! Abri a porta de um tranco, passei para a escadaria — estava escura. Voltei, acendi uma das velas que jaziam no canto do quarto e voltei à escadaria. Lá embaixo havia algo preto deitado! Passei a luz por sobre a balaustrada, para ver melhor. Uma gota de cera vermelha caiu; corri com a luz escada abaixo — aí jazia o seu cadáver diante de mim.


Depois vieram, provavelmente despertados pela minha correria pela escada, outras pessoas e viram o corpo.


- O que é? — perguntavam. Alguns gritaram.


Senti-me obrigado a dar uma explicação.


- Estava louco — disse.


Alguém tirou a vela da minha mão; devia estar tremendo.


Li a última narrativa de meu amigo Y; é um completo fracasso; há muito pouco talento nela.


Certamente este é um final sombrio para minha história; faz parte, contudo, da integridade de meu relato.


Não obstante, Y foi um verdadeiro poeta, sim, um grande poeta! Pois qual não deve ser a fantasia que consegue fazer nascer por encanto um ser pelo qual o mágico ele próprio se enamora até a loucura. Tão enamorado que não mais pode continuar a viver, quando a criatura encantada, por outros jogos da fantasia, volta a submergir no nada.


A musa às vezes tem caprichos... O instrumento de um deles foi meu amigo Y. Enlouqueceu e morreu.


Ora, poucos o conheceram em vida... as suas obras não hão de lhe conferir a imortalidade. A sua loucura, porém, fará com que mais de um o considere amável: aqueles cujo interesse é despertado pelas tristes brincadeiras com as quais a natureza por vezes se compraz.


Fantasia caprichosa, dourada! Aproxima-te de um de nós, lisonjeira, com fragrante amizade, e o transformas no mais feliz dos loucos, o poeta; como um inimigo atacas o outro e o transformas no mais lamentável dos poetas: o louco.