terça-feira, 10 de junho de 2008

contos de amor e morte - arthur schnitzler

meu trabalho final para a matéria "teoria da narrativa" de mirella lima é a análise de um conto de amor. escolhi um conto de arthur schnitzler, chamado "meu amigo ypsilon".

arthur era considerado pelo próprio freud como o seu duplo. isso lhe causava medo e evitou a todo custo que eles se conhecessem pessoalmente, já que ambos viviam na mesma viena. e conseguiu.

como o conto não existe na internet estou fazendo o favor de "lançá-lo" em português, direto do livro "contos de amor e morte" da compainha das letras.

na próxima postagem farei a minha análise do conto. o texto é "longo" mas é bom!

****

1. Meu Amigo Ypsilon

DOS PAPÉIS DE UM MÉDICO

Se houve um homem a cujo destino cabe o adjetivo “tragicômico”, este homem foi, certamente, meu amigo Ypsilon, já falecido; sobre seu túmulo depositei, ontem, mais uma coroa, uma coroa de perpétuas, na qual fiz com que entrelaçassem alguns louros. Pois, na minha opinião, não houve em nenhum tempo qualquer outro poeta que os merecesse como meu amigo Ypsilon – não por causa de seu gênio, que pudera mostrar-se pouco armado contra todos os ataques da crítica, mas pela forma grandiosa com que valorizava a sua arte. Nunca vi alguém que se lhe assemelhasse, e mais de um dos grandes Poetas, que são louvados pelos seus contemporâneos, bem que poderiam ir para o cemitério de Wahring e rezar uma prece silenciosa junto à pequena cruz que traz a inscrição:

AQUI DESCANSA NA PAZ DE DEUS
MARTIN BRAND

Martin Brand, assim era seu verdadeiro nome. Não deve causar surpresa o fato de que este nome, cuja lembrança tanto venero, não tivesse grandes êxitos a apresentar. Seus poemas, alguns dos quais, aliás, assinalados com um “Y”, foram publicados num pequeno jornal de Salzburg ou de Graz, não sobressaíam demasiadamente e, mesmo junto a mim, a quem o studiosus philologiae – isto é o que o senhor Martin Brand era na vida burguesa – por vezes se dirigia com suas fantasias escritas, ele raramente conseguia encontrar um verdadeiro estímulo ou reconhecimento.

Mas como a maioria dos jovens poetas, dava pouca importância ao julgamento daqueles que não gostavam de suas escrivinhações; sentia-se tão infinitamente à vontade junto à sua musa, que vagava sempre, invisível, ao seu lado, que até um determinado momento pertenceu aos mais felizes dos homens que jamais encontrei. Contudo por vezes ficava acabrunhado; nunca, porém, por causa de algum fato melindroso, que lhe tivesse ocorrido durante a desprezível vida dia-a-dia, mas apenas quando seu pensamento se ocupava de algum tema realmente triste: ao trabalhar num drama, em que morriam rainhas de coração partido e príncipes, de cabeça também partida, ou ao escrever um conto de fadas, onde uma fada maligna, devido à sua maldade inata, ameaçava destruir a felicidade de duas boas criaturas humanas. Pelo contrario, ele costumava mostrar incontida alegria quando cantava a primavera, ou uma noite de baile, em que uma bela máscara beija os lábios de um estudante de artes, fantasiando de núbio, e diz logo após: “Sim, é você, e ninguém há de rouba-lo de mim!”.

Mas aqui, e isto é um fato indiscutível, já começava a loucura do meu amigo Ypsilon. Eu costumava exorta-lo, mais seriamente do que muitos outros, para que ele não fizesse amizade demasiado estreita com as suas sombras, mas que olhasse também um pouco a vida ao seu redor, onde há mais de um objeto vivo que vale a pena ser visto. Também moças, louras, morenas, que eu, por exemplo, preferiria muito mais do que as suas esvoaçantes e efêmeras criaturas.

Mesmo assim, certa vez ele iniciou um pequeno namoro com uma corista – após o teatro, naturalmente – que muito mais se atirou em seus braços do que ele se esforçou por ela. O caso, porém, terminou de forma tão penosa, triste até, que o aspecto surpreendente e amalucado da situação só ficou realmente claro para mim quando tudo acabara.

A moça veio correndo ao meu encontro, certa tarde, e achou-me justamente no momento em que estava na poltrona, em frente ao piano, acometido por uma ligeira soneca. Tinha ainda a mão deitada sobre o teclado, alguma dissonância ressoava-me no ouvido.

Olhei com algum assombro para o rosto da pequena, tanto maior porque não vi o amigo Ypsilon ao seu lado, sem cuja compainha ela nunca tinha visitado minha casa anteriormente. Meu rápido olhar em direção à porta pôde esclarecer-lhe a pergunta tácita que eu tinha nos lábios e ela disse, enquanto um choro contido tremia em sua voz:

- Está em casa, escrevendo!

- Você vem de lá? – Com isto, levantei-me e convidei-a a se sentar no divã, para perto do qual puxei uma cadeira.

Logo após ter-se sentado, começou a soluçar fortemente.

- O que há com você, pequena? – perguntei-lhe. – O que há?

Mas ela nada respondeu.

Esperei pacientemente. Depois perguntei de novo, sem qualquer inquietação no tom:

- O que há?

Ela pegou o seu lenço e secou as lágrimas.

- Toque uma valsa, algo alegre, daí vou contar-lhe tudo...

Dirigi-me ao piano e comecei a tocar. Já nos primeiros acordes ouvia a sua voz ao meu lado.

- Ele não me ama – disse quase sem voz.

Parei de tocar e olhei para ela com um ar surpreso que, a bem dizer, não era muito sincero, por eu estava preparado para um relato desse teor.

- Continue – pediu ela, triste.

- Está bem, mas agora não posso tocar uma valsa – repliquei, para que ambos pudéssemos superar esse momento penoso com uma brincadeira – e executei uma marcha fúnebre... Gostaria de não tê-la tocado então – hoje tortura-me de forma ridícula, supersticiosa, a lembrança dessa ação.

A pequena continuou a falar:

- Ele deve ter outra, pois hoje proclamou várias vezes: “Você não é mesmo como ela. Não como ela”. E depois, quando o beijei atemorizada, ele me olhou, assim, de alto a baixo, e disse: “Vá embora, você não está vendo que me incomoda?”. Fiquei estarrecida, mas ele continuou a escrever; seu rosto estava enrubescido e seus olhos brilhavam. Após um tempo ele se voltou e me viu, ainda em pé, no mesmo lugar. “Ainda?”, perguntou; então, eu fui embora.

- Você acredita mesmo nisso? – perguntei.

Ela apenas deu de ombros.

- Vou dizer-lhe do que se trata – continuei – mesmo que, de início, não vá me entender. Você não tem uma rival de carne e osso. Essa outra, de quem você fala – nem vive e é apenas imaginação de nosso amigo Ypsilon.

Ela me olhou espantada.

- Eu o conheço – disse eu – e sei que é doido!

No seu rosto li o assombro pela calma com que eu pronunciava esta verdade.

- Não é a primeira vez que ele fica enamorado das criaturas de sua própria fantasia. Deixe-o terminar seu poema, deixe que ele o ponha no papel e o fantasma terá desaparecido novamente.

- Mas assim dá para ter medo dele! – exclamou ela.

- Não, isso não – repliquei -, mas por mais de uma vez pensei como faria bem ao amor que ele tem por você, se você lhe declarasse “Meu doce Ypsilon, eu, na verdade, não existo, escapuli de um dos seus poemas, e esta amável realidade em teus braços é apenas um sonho...”.

- Como? – perguntou. Ela quase não me entendia.

- Ora, quero apenas explicar-lhe que você não tem nenhum motivo sensato para estar com ciúmes. Deixe-o trabalhar dois ou três dias, ainda, e depois ele virá sozinho até você e lhe pedirá para ser novamente a mesma de antes. Confie em mim!

- Quer dizer que ele é meio maluco! – exclamou.

- Meio maluco? Meio poeta, ou seja, maluco por inteiro! Mas acalme-se e não chore!

Novamente levei as mãos ao teclado e toquei uma valsa.

Enquanto isso, ela foi até a porta e, quando quis me levantar para acompanhá-la, me afastou com um gesto, dizendo:

- Eu vou voltar! – Com isso desapareceu e eu deixei cair as mãos no regaço...

Na manhã seguinte visitei meu amigo Ypsilon. Embora a luz clara do dia iluminasse o quarto, havia quatro velas vermelhas acessas sobre a sua mesa (ele conseguia trabalhar apenas à luz de velas vermelhas), e Ypsilon estava sentado diante delas, com os olhos turvos, enquanto a sua pena perambulava irrequieta sobre o papel.

Apaguei as velas; quando dá última, ele terminou por se aperceber da minha presença.

- Ah, é você – disse.

- Ypsilon – comecei eu, sério -, ponha já essa coisa de lado; venha lanchar comigo; caso contrário, farei tudo que estiver ao meu alcance para que o enfiem no manicômio.

Fixou seus grandes olhos baços em mim.

- A pequena me procurou ontem — continuei. — O que foi que você fez?

Sorriu.

- Não me fale dessa pobre criatura! Estou mais do que farto dessa espécie.

- É claro, naturalmente! — disse eu. — Essas mulheres de carne e osso! São brutais o bastante tanto para comer, beber, amar, como para atravessar a vida com um imenso desperdício de existência real.

- Não me fale delas — interrompeu-me, — Só há uma para mim. Você não vai arrancar-me dela! Ouça! Houve uma vez...

E começou a contar-me uma história, durante a qual olhava de vez em quando para as folhas que estavam à sua frente. Tratava-se de alguma peculiar moçoila, que vivia numa ilha no oceano Índico; chamava-se Türkisa e era a mais graciosa criatura que jamais fora vista por homens ou por deuses. Ypsilon não conseguia achar palavras suficientes para descrever o infinito encanto que dela emanava. Com olhares extáticos explicou-me, finalmente, que, desde que Türkisa lhe erigira seu reino, no coração e na mente, ele próprio não podia sentir o menor interesse por nenhuma outra coisa ou pessoa.

- Quer dizer que você a ama? — perguntei.

- Eu a adoro — disse ele, num tom da mais profunda seriedade. — Mas, ai, ela deve morrer!

Abanei a cabeça, horrorizado.

- E depois, há ainda um príncipe africano — continuou a história e informou pormenores acerca do tal príncipe, que tinha sido tomado de uma funesta paixão por Türkisa.

- Então você está com ciúmes? — perguntei.

- De que adianta? — disse ele, com a voz embargada. — Ela o ama de novo.

- Seu maluco! — gritei. — Acorde, pense que você pode fazer com que o príncipe africano seja devorado por um tigre e que, depois, um poeta alemão de nome Ypsilon pode chegar com uma barca até a costa dessa ilha e...

- Não pode — replicou Ypsilon com a mais profunda convicção.

- Como? Por que não? — exclamei. — Isto está em suas mãos! Você puxa os cordões, é da sua cabeça que saiu este desvario; esta Türkisa existe apenas em sua fantasia!

- Tanto faz! — respondeu ele calmamente. — Tem que ser como é, as coisas se desenrolam, eu não posso mudá-las. Levantei-me bruscamente.

- Você está totalmente louco!

Formou-se em seus lábios um leve sorriso, e ele, calmo, apenas disse:

- Não.

Andei de um lado para o outro pelo quarto e senti que uma intensa agitação tomava conta de mim.

- Eu lhe peço, vá embora! Você me atrapalha! — disse ele.

Fiquei em pé à sua frente, olhei para ele exasperado e repliquei:

- Ao meio-dia voltarei, para perguntar-lhe se quer comer.

Enquanto fechava a porta atrás de mim, vi como Ypsilon voltava a acender suas velas vermelhas. Eu, porém, saí para a luz plena, no meio das pessoas, que andavam pelas ruas com potentes passos cotidianos. Num primeiro instante quase me surpreendi com essa vital exuberância generalizada. Não se compreende a saúde, quando se sai da casa de um louco...

Quando, ao meio-dia, bati à porta de meu amigo Ypsilon, não abriram.

- Volte à noite — disse ele através da porta. - Estou trabalhando, você me atrapalha.

À noite aconteceu-me a mesma coisa. Gritei irônico para dentro:

- Türkisa não morreu ainda? - Ouvi, então, um pro­fundo suspiro. Evidentemente a coitada estava perto do fim. Senti alguma alegria, pois esperava que dessa forma o feitiço seria rompido.

Também na manhã seguinte bati cedo à porta de Ypsilon. Não ouvi nenhum "Pode entrar", mas a maçaneta cedeu e vi meu amigo, pálido e consumido, sentado diante de sua escrivaninha.

- Ypsilon! — exclamei.

- Olhou-me com olhos mortiços.

- O que há com você? — perguntei.

- Ela está morrendo — sussurrou.

- Deus seja louvado! — repliquei.

O seu olhar ficou sombrio, não entendia mais essa alegria.

- Venha, Ypsilon - disse eu e senti que um calafrio angustiante me atravessava o coração. - Venha!

- Não posso – respondeu, mostrando o papel escrito e depois a sua própria cabeça.

- Você está ridículo, Ypsilon; você está doente.

- Depressa, depressa, está chegando ao fim — disse ele, como que para si próprio, apertando a mão contra a cabeça.

- Mas isto não é necessário — disse eu e lhe tirei as mãos da testa, segurando-as nas minhas.

Ele tornou a olhar para o meu rosto, sorrindo melancolicamente.

- Não é necessário, você diz? ... Você não pode entender!

- É verdade, Ypsilon! Eu o entendo muito bem. Você está extenuado; os seus nervos estão enfermos por causa desse estímulo excessivamente violento, ao qual se entrega a sua fantasia selvagem... Um pouco de ar fresco e saudável deste mundo vivo e real, e tudo será apagado.

Fui até a janela e a abri de um tranco.

- Está sentindo? Percebe como o vento da manhã re­mexe travesso as folhas sobre a sua escrivaninha, como os raios do sol brilham atrevidos sobre a sua cabeça cansada e sobre o chão empoeirado? Percebe como este mundo multicolorido mergulha no abençoado azul do céu?

Ele seguiu o meu olhar para fora da janela. Teve de pestanejar, a luz lhe doía. Virei-me em sua direção e o ergui da cadeira, o que ele deixou fazer indolente.

Temendo atiçá-lo, calei e o guiei neste estado de inconsciente passividade até a escadaria. Ele estremeceu mas apenas um instante, depois me acompanhou com passos arrasta­dos pela escada e deixou que eu lhe desse o braço na rua, sem contradizer-me. Só então me atrevi a falar novamente.

- O que há agora, Ypsilon? — perguntei. — Este ar não lhe faz bem?

Mas ele nada replicou e quando eu tentava, de vez em quando, iniciar um diálogo, não obtinha nenhuma resposta.

Nosso passeio nos levou ao longo dos jardins das casas de subúrbio e as flores matutinas cheiravam maravilhosamente. Os brotos mais novos das árvores temperavam nossa respira­cão. O peito elevava-se com mais força, o passo tornava-se mais leve e seguro. Ypsilon, porém, continuava a perambular como por uma paisagem morta. Detivemo-nos numa confeitaria e Ypsilon tomou o seu café, assim como eu. Queria me parecer que ele acordava para uma vida real. Após um gole, abanou a cabeça e passou as mãos pelos olhos.

- Por que não fazemos um passeio pelo campo? — propus. — O tempo está bom.

- Oh, sim! — disse ele e fiquei muito contente com esta sua primeira palavra.

Entramos num carro e fomos em direção ao Bosque de Viena. De início Ypsilon estava sentado imóvel ao meu lado; só quando chegamos ao campo e as árvores da estrada nos cobriam com sua sombra, ele olhou ao seu redor parecendo surpreso, como se quisesse voltar a si. Finalmente sorriu.

— Não é bonito aqui? — perguntei.

Olhou-me novamente, sorrindo, como se quisesse dizer: "Seu tolo, você realmente acha que isto vai me ajudar?".

Continuei a falar o que me vinha à mente, a essa altura realmente oprimida, e falava da grandiosa, da reconciliante solidão da floresta, pela qual estávamos indo...

Ele fechou os olhos e franziu a testa. Depois abanou a cabeça. Tive a sensação de que queria dizer: "Nem você vai melhorar as coisas!".

Assim, mantive-me o tempo todo falando com ele, sem, que Ypsilon abrisse a boca uma vez sequer.

Numa pousada tranqüila pedimos um almoço. Em torno de nós, a floresta sussurrava com vozes misteriosas e o vento passava pelas copas das árvores.

Animei meu amigo a se servir dos pratos que haviam sido trazidos, o que fez afinal. Após alguns bocados, porém, deixou garfo e faca de lado, olhou-me diretamente no rosto e disse:

- Você é um bom homem, mas nem você vai melhorar as coisas!

Ai! Ele já me dissera o mesmo com sua expressão magoada e triste.

- Não, talvez eu não vá melhorar as coisas — repliquei —, mas elas vão ficar boas, se você for sensato. Bem que o entendo — continuei — não me falta sensibilidade para seu gênio irritável e doentio de poeta e você nem seria um poeta, se não estivesse enamorado de sua Türkisa.


- E como ela morre, preciso me sentir miserável — ele me interrompeu, olhando-me estremecido.


Não conseguia deixar de lado esta idéia fixa e a todas as minhas exortações ele respondia apenas com um aceno negativo da cabeça. Senti que, frente a esta loucura, minha sabedoria tinha chegado ao seu fim.


Ficamos sentados bastante tempo, depois passeamos novamente pelo bosque. Foi um dia espantoso. Como se passou para mim? Eu mesmo quase não sei mais; tão longas, tão graves pesaram as horas sobre mim.


O sol já estava longe, no oeste, quando voltamos a nos sentar no carro. Os cavalos, bem descansados, trotavam com prazerosa pressa pelo bosque.


Tínhamos já percorrido um trecho do caminho, quando percebi que meu amigo estava ficando inquieto.


O sol começava a sumir e o crepúsculo espalhava-se lentamente pelas campinas...


- Mais depressa! — disse ele em voz baixa...


Íamos bastante rápido e, como já era possível perceber as primeiras casas da cidade no final da estrada, parecia que chegaríamos antes da escuridão; mas as sombras vespertinas enganavam.


- Rápido, rápido! — gritou Ypsilon, tão alto, que o co­cheiro ouviu e atiçou os seus cavalos...


- O que há com você? — perguntei.


- Para casa! — murmurou. — Preciso chegar ao fim.


A sua respiração acelerou-se; tinha uma expressão agitada; de tempos em tempos ficava sentado imóvel, depois voltava a soltar um lamentável suspiro. Havia um farfalhar nas castanheiras ao longo do caminho e uma brisa fresca se levantou... Senti alguns calafrios...


- Para casa, para casa! — gritou Ypsilon, alto, mas como se soluçasse.


- Deixe disso — acalmei-o —, chegaremos logo. O você quer em casa?... Você não deve trabalhar mais.


Ele me olhou, totalmente surpreso.


- Mas preciso — disse.


Agora passávamos por entre os primeiros lampiões do subúrbio. Ypsilon estava cada vez mais inquieto. Mexia com as mãos de um lado para o outro, e os seus olhos vagueavam; respirava como quem ardesse em febre...


Respirava com tanta sofreguidão que o cocheiro se voltou e o observou assombrado. Depois açoitou os cavalos, e com grande velocidade rolamos sobre o calçamento ruidoso em direção à residência de meu amigo. Uma ou outra vez, ainda, eu o chamei.


— Ypsilon! Ypsilon!


Mas ele não me ouvia mais; sua mente parecia estar presa a um trabalho inquietantemente apressado, e me vi acometido de um estado d'alma cada vez mais sombrio.


Diante de mim apareceu, quando passamos pelas ruelas mal iluminadas, uma imagem que não mais queria me deixar... Via a princesa Türkisa deitada no esquife, feito todo de cristal, e diante dela estava meu infeliz poeta, com olhos do­lentes, isentos de lágrimas.


Nesse momento detivemo-nos diante da casa; Ypsilon saltou do carro e correu escada acima. Quando cheguei no alto, já estava sentado à sua escrivaninha, com as quatro velas vermelhas acesas, e não me ouviu quando entrei.


Tinha acabado de começar a escrever. Tudo tinha afundado ao seu redor. A moribunda Türkisa o enfeitiçava em seu círculo.


Deitei-me no divã e resolvi ficar lá, pois estava seriamente apreensivo.


Sua pena apressava-se sobre o papel, a janela estava aberta, as chamas das velas tremiam. As folhas soltas de sua história misturavam-se sobre a mesa. A expressão de seu rosto se tornava mais perturbada a cada instante; mesmo assim, estava com uma palidez mortal.


De repente tive a nítida sensação de que Türkisa morria. Escrevia mais lentamente, enquanto respirava com dificuldade e fitava com olhos esgazeados as linhas diante de si. Depois, pois, deixou cair a pena das mãos, sua cabeça caiu-lhe sobre o peito e começou a chorar amargamente, de romper o coração. Senti-me melhor, mais aliviado. Pensei: agora já passou; o feitiço está desfeito; a terrível fantasia, na qual viveu durante dias a fio, dissipou-se, desvaneceu-se. Sim, senti como se em toda a atmosfera ao nosso redor ocorresse uma mudança. Maus espíritos fugiam pela janela — e as chamas vermelhas no aposento brilhavam mais calmas e claras. Também as folhas na mesa não mais se mexiam; a paz havia retornado. E meu pobre amigo chorava, chorava cada vez mais silenciosamente.


Aos poucos adormeci no divã...


Deve ter passado bastante tempo, porque, quando acordei, as velas tinham quase se consumido.


Ypsilon, porém, continuava sentado, com a cabeça baixa.


Aproximei-me dele. Olhou para mim com um olhar pleno, totalmente apaziguado.


- Vá dormir — disse-lhe.


Respondeu e sua voz soava firme e moderada:


- Vá você e não se preocupe com nada mais.


- Ora, Ypsilon — exclamei alegremente comovido —, tudo acabou!


- Tudo acabou — disse ele e me beijou a testa.


- Permita-me, então — falei —, passar o resto da noite no sofá do seu quarto, Ypsilon.


- À vontade — respondeu com um olhar amável.


Ficou-me olhando, enquanto me estendia no leito. E quando lhe disse: "Para a cama, então!", acenou sorrindo para mim. Senti que seu olhar ainda pousava sobre mim, quando comecei a adormecer.


Uma aragem quente penetrava no quarto; uma das velas apagou-se; as outras continuavam a bruxulear, com luz cal­ma. Via tudo isso num semi-sonho e depois adormeci completamente.


Amanhecia quando acordei. Ypsilon não estava mais no quarto.


Ainda não pensava em nada e me levantei, para ir até a mesa, onde via um bilhete dobrado, na luz do amanhecer.


Antes de abri-lo, fui até o leito de meu amigo. Não tinha sido desfeito.


Estremeci e, antes de mais nada, por um desses jogos que n perplexidade faz conosco em momentos como aquele, pro­curei pelas velas. Não mais estavam sobre a mesa, jaziam com os castiçais num canto, ao lado do aquecedor. Olhei pelas folhas, e estavam espalhadas, como antes.


Então abri o bilhete. Nele estava escrito:


"Türkisa está morta! Tudo acabou!".


Bati os dentes. Onde estava ele, onde é que ele estava?


Apressei-me em direção ao vestíbulo — vazio! Abri a porta de um tranco, passei para a escadaria — estava escura. Voltei, acendi uma das velas que jaziam no canto do quarto e voltei à escadaria. Lá embaixo havia algo preto deitado! Passei a luz por sobre a balaustrada, para ver melhor. Uma gota de cera vermelha caiu; corri com a luz escada abaixo — aí jazia o seu cadáver diante de mim.


Depois vieram, provavelmente despertados pela minha correria pela escada, outras pessoas e viram o corpo.


- O que é? — perguntavam. Alguns gritaram.


Senti-me obrigado a dar uma explicação.


- Estava louco — disse.


Alguém tirou a vela da minha mão; devia estar tremendo.


Li a última narrativa de meu amigo Y; é um completo fracasso; há muito pouco talento nela.


Certamente este é um final sombrio para minha história; faz parte, contudo, da integridade de meu relato.


Não obstante, Y foi um verdadeiro poeta, sim, um grande poeta! Pois qual não deve ser a fantasia que consegue fazer nascer por encanto um ser pelo qual o mágico ele próprio se enamora até a loucura. Tão enamorado que não mais pode continuar a viver, quando a criatura encantada, por outros jogos da fantasia, volta a submergir no nada.


A musa às vezes tem caprichos... O instrumento de um deles foi meu amigo Y. Enlouqueceu e morreu.


Ora, poucos o conheceram em vida... as suas obras não hão de lhe conferir a imortalidade. A sua loucura, porém, fará com que mais de um o considere amável: aqueles cujo interesse é despertado pelas tristes brincadeiras com as quais a natureza por vezes se compraz.


Fantasia caprichosa, dourada! Aproxima-te de um de nós, lisonjeira, com fragrante amizade, e o transformas no mais feliz dos loucos, o poeta; como um inimigo atacas o outro e o transformas no mais lamentável dos poetas: o louco.

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