quarta-feira, 18 de junho de 2008

a idéia de baianidade no livro "os dias do medo" de ariovaldo matos

A idéia de baianidade é construída utilizando-se de um repertório limitado e arbitrário de elementos estéticos e representativos da cultura afro baiana que são selecionados, amplificados, reproduzidos e reimaginados com a finalidade de construir a imagem da Bahia.

O Prof. Dr. Alberto Albergaria resume a duas correntes os estudos sobre Bahia e baianidade[1]. A primeira corrente é a dos baianólogos Cid Teixeira e Ordep Serra – pode-se encaixar nessa corrente Antônio Risério – para estes existiria um modo de viver particular do baiano (um ethos baiano) constituído endogenamente durante mais de quatrocentos anos de sincretismo religioso e mestiçagem afro-luso-tupi; a outra corrente, mais recente, constituído por Ari Lima e Roque Pinto, acredita que a idéia de baianidade não passa de um mito constitutivo de identidade, sendo construída de fora para dentro (em oposição ao Rio de Janeiro e a São Paulo) e de cima para baixo.

Para esta nova corrente a idéia de baianidade surge quando o Rio se torna metrópole, capital do Brasil em 1763; nesse período, em oposição, a Bahia vai se constituindo no lugar da representação do passado, da tradição, da negritude, das raízes, etc. Porém, no início do século XX, a metrópole brasileira, se desloca para São Paulo, onde se cria também um discurso de baianidade. A oposição Rio de Janeiro x Bahia, torna-se também, uma oposição São Paulo x Bahia.

Nessa oposição fortalecida por volta de 1930, São Paulo representa a razão, a civilização, a discrição, a indústria, o futuro, o trabalho; a Bahia representa o místico, as raízes, o passado, a preguiça, a exuberância, a cordialidade.

A oposição São Paulo x Bahia está bem marcada no livro “Os Dias do Medo” de Ariovaldo Matos. No trecho abaixo, encontramos a oposição riqueza x pobreza:

“Não em São Paulo, terra em que já existiam indústrias, mas aqui, na Bahia paupérrima (...) na próspera cidade de São Paulo? não, não, não! Aqui, eu trabalharia aqui, nesta paupérrima Bahia”[2]

Em outro trecho, em que a ação se passa, aproximadamente, em 1920, podemos destacar a oposição desenvolvimento x decadência:

“aumentava o número de lojas que vendiam sapatos e assemelhados produzidos em São Paulo e mesmo no Rio Grande do Sul, a preços concorrentes (melhor a qualidade), senão inferiores, aos dos produtos localmente manufaturados. Vivia-se a involução industrial baiana”.[3]

Porém, esta oposição não deixa de ser criticada pelos dois narradores dos livros, eles criticam a concentração de dinheiro na região sudeste, dizendo que essa concentração forma uma nova classe, o proletariado, que poderia ser perigoso para o país – era o medo do comunismo.

Ainda, segundo o Prof. Dr. Roberto Albergaria, no inicio dos anos 30, com a entrada da rádio nacional, o tema da Bahia se torna cada vez mais forte, principalmente, através das canções de Caymmi e Ari Barroso. Surge o discurso de uma Bahia mítica que seria um concentrado do Brasil.

Caymmi e Jorge Amado criam através do cancioneiro e da literatura, já no ínicio dos anos 30, a imagem de uma Bahia mística, instituindo uma série de imagens que passaram a ser representativas da Bahia. Essas imagens são também reforçadas por outros artistas como Carybe e Pierre Verger.

Presente na obra desses artistas passam a ser símbolos da baianidade: a sensualidade da mulher baiana, geralmente mulata; a cidade praieira e festeira; a musicalidade; o sincretismo religioso; a boa convivência multirracial e a miscigenação; o sincretismo religioso; a malandragem; a capoeira; a permissividade religiosa e sexual; o carnaval e as festas populares; o candomblé; o acarajé e as baianas; o povo simples e hospitaleiro; a alegria do povo baiano; etc.[4]

Roque Pinto[5] resume essas idéias dizendo que houve a construção e disseminação da idéia de uma cultura baiana “genuína” e idiossincrática, isto é, da construção de uma Bahia estereotipada – mítica, atemporal, praieira, festeira, etc.

O carnaval baiano aparece no livro de Ariovaldo Matos mais de cinco vezes, inclusive a idéia de que o ano na Bahia só começa efetivamente depois do carnaval.

Destaco duas passagens do texto como exemplo, na primeira passagem, a mudança das personagens da Pituba para o centro de Salvador, só pode ser realizado após o carnaval; na segunda passagem, o carnaval é o momento do desbunde, da permissividade sexual, havendo inclusive uma sugestão de homossexualidade entre as personagens Abelardo e Cris.

“Uma ou duas semanas depois do Carnaval (naquela época chamava-se, tais festejos, de entrudo), o sr. Giuseppe, mamãe e eu fomos residir em Santo Antônio Além-do-Carmo.”[6]

“Querida, não é verdade que eu e Cris nos tenhamos esbaldados no Carnaval, como você afirma. Devo dizer que Cris se excedeu nas bebidas e mi envolvido em situações desagradáveis, algumas perigosas à minha integridade física. Situações deploráveis porque Cris, surpreendentemente, é capaz de ser violento, agressivo, provocador.”[7]

A Bahia representada como uma cidade praieira, uma cidade de pescadores, também encontra ressonância no livro, a Pituba aparece como uma grande colônia de pescadores.

“Morávamos na Pituba, o mar na porta, uma casa de remediados, a única telha-vã naquelas redondezas. As outras, disseminadas ao longo da praia, cobertas com palhas de coqueiros, eram habitadas por pescadores. Tio Leonardo, íntimo de Deus, dos peixes, dos homens, quem sabe amigo até dos fanáticos cavalos-marinhos” [8]

Assim como, Itapuã é representada como o lugar de lavadeiras.

“Itapuã, então, o sol ainda a pino, era cedo para as lavadeiras dos córregos nas imediações do Farol, certo viriam mais tarde, logo amainasse a quentura (...) atribuí-me a obrigação de esperar as lavadeiras”[9]

Essas duas imagens são muito fortes em livros de Jorge Amado, como Capitães de Areia, Mar Morto e Jubiabá; assim como, no segundo LP de Dorival Caymmi com Carmem Miranda, lançado em 1939, que tem canções como “Rainha do Mar” e “Promessa de Pescador”. Foram imagens repetidamente associadas à Bahia que ganharam força com as telenovelas, como Gabriela e Tieta.

A sensualidade e a beleza da mulher negra baiana também está presente no texto, elas são descritas pela potência e ameaça sexual que representam:

“não obstante, fosse Rosenda fêmea desde as pontas dos pés, uma negra muito apetitosa e ciente desse favor”[10]

“ela estava triste e sua tristeza fez-me repara-la melhor, uma negra sem os chamados “traços brancos”, negra bela porque negra, robusta mas extremamente feminina”[11]

“a moça Mariana apareceu lá em casa, olhos amendoados, seiso fartos, nádegas condizentes com o perfil”[12]

O mito da boa convivência racial também se apresenta no texto, a figura do poeta Cruz e Souza é invocada duas vezes, para dizer que não há diferença de tratamento entre brancos e negros.

“Isto de João Candido se preto ou não ser preto é questão de somenos. Do senhor mesmo, professor, ouvi louvores à poesia do Dr. Cruz e Souza, que é preto.”[13]

Algumas vezes, características associadas à baianidade são tratadas com ironia no texto, a personagem-narrador, Tônio, ao se referir a morte da sua mãe, que ele odeia e ao mesmo tempo deseja sexualmente, atribui a morte à preguiça.

“avisei a Anália sobre o acontecido e ela perguntou sobre a causa da morte, respondi Morreu de preguiça, Anália riu (elas se destestavam)”[14]

Comidas tipicamente baianas também se encontram no texto, como por exemplo o caruru.

“não sairia para rezar uma hora daquelas, o jantar próximo, cada vez mais convidativo o odor do caruru que Anália preparava”

A religiosidade também está presente, surgindo principalmente quando dá doença do Sr. Giuseppe, há repetidamente presente a idéia de um milagre e a necessidade de se rezar para que isso aconteça. Porém, essa promessa de cura pela fé é hostilizada por Tônio.

“A fé remove montanhas. Não removeu picas nenhumas!”[15]

Mas além da religiosidade, a Bahia é representada edênicamente, como se o seu clima, por si só, fosse capaz de curar o enfermo, porém, essa idealização da Bahia é logo ironizada, também por Tônio.

“acreditava, o bobão, que o clima de Salvador poderia devolver alguns movimentos ao Sr. Giuseppe. De onde tirou essa teoria maluca eu não sei.”[16]

Armando Bião[17] faz uma associação entre a forma de falar do baiano e a baianidade, para ele há um imaginário brasileiro – expresso em piadas, telenovelas, canções, etc – de que o baiano fala alto e cantando, fala de forma dengosa, essa baianidade refletida na comunicação se dá principalmente pelo uso de diminutivos.

Essa linguagem típica baiana aparece uma única vez no livro de Ariovaldo, no diálogo entre Tônio e uma empregada, Odete:

“Se deite, bichinha. Agora não doutor. De noite você vem? Não sei, doutor. (...) Você engravidou bichinha? Não, doutor.”[18]

Tônio é a personagem principal do livro, são as memórias dele que estão sendo recontadas a partir dos seus escritos e com a ajuda de Aberlado e Marluce, ele parece ser o personagem mais lúcido do livro.

Como político ele sabe da importância de se usar esse discurso de baianidade para angariar votos, e é isso que o interessa, votos! Assim, o discurso da baianidade aparece ironizado através do discurso de um político que o usa para conseguir se eleger - essa foi uma postura adotada inclusive pelo carlismo.

“Afirmo e reafirmo que eu, Tônio Petrucci, senador Antônio Petrucci, consegui iludi-los dezenas e dezenas de anos (...) Meu mérito – porque há mérito em ter sido um canalha bem sucedido – constituiu em ter compreendido vocês e agir de acordo com tal compreensão”[19]



[1] ALBERGARIA, Roberto. Bahia, Bahia, que lugar é este?. Disponível em: http://www.sbpccultural.ufba.br/identid/semana1/alberga.html>. Acesso em: 11 de junho de 2008.

[2] MATOS, Ariovaldo. Os Dias do Medo. Livraria Cultura Editora: São Paulo, 1979. p. 81

[3] Ibid. p. 117.

[4] CRUZ, Gutemberg. A Baianidade é mito?. Disponível em: . Acesso em: 10 de junho de 2008.

[5] PINTO, Roque. A Bahia reimaginada: como transformar um velho entreposto comercial em um novíssimo produtor de tradições. Disponível em: Acesso em: 10 de junho de 2008.

[6] MATOS, Ariovaldo. Os Dias do Medo. Livraria Cultura Editora: São Paulo, 1979, p. 54.

[7] Ibid. p. 108.

[8] Ibid. p. 21.

[9] Ibid. p. 31.

[10] Ibid. p. 48.

[11] Ibid. p. 77.

[12] Ibid. p. 89.

[13] Ibid. p. 81.

[14] Ibid. p. 136.

[15] Ibid. p. 97.

[16] Ibid. p. 97.

[17] BIÃO, Armando. Matrizes estéticas: o espetáculo da baianidade. Comunicação apresentada ao Ciclo de Palestras do GIPE-CIT, 1998/1999), Disponível em: . Acesso em 10 de junho de 2008.

[18] MATOS, Ariovaldo. Os Dias do Medo. Livraria Cultura Editora: São Paulo, 1979, p. 176.

[19] Ibid. p. 134.

Um comentário:

fred disse...

Muito bom, Thiago.
Abraços