quarta-feira, 11 de junho de 2008

Meu Amigo Ypsilon, de Arthur Schnitzler - uma análise possível

segue a minha análise para o trabalho de "teoria da narrativa" do conto postado abaixo.

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Para começar a análise do conto, recorro a biografia de Arthur Schntizler, para esclarecer o uso de alguns vocábulos e comportamentos da personagem-narrador que me parecem ter muito a ver com a sua vida profissional.

Schnitzler foi um médico-psicólogo vienense que só abandonou a carreira médica aos trinta e nove anos para dedicar-se completamente à literatura. Depois de ter trabalhado em hospitais psiquiátricos e ter a sua própria clínica.

A atitude do narrador do conto se confunde em muitos aspectos com a figura de um psicanalista – como era Schnitzler, é o narrador que ouve e aconselha Ypsilon tentando salvá-lo da sua loucura, adotando postura parecida também com a corista que se apaixona por Ypsilon, como mostra o trecho abaixo:

“- Você vem de lá? – Com isto, levantei-me e convidei-a a se sentar no divã, para perto do qual puxei uma cadeira.

Logo após ter-se sentado, começou a soluçar fortemente.

- O que há com você, pequena? – perguntei-lhe. – O que há?

Mas ela nada respondeu.

Esperei pacientemente. Depois perguntei de novo, sem qualquer inquietação no tom:

- O que há?”2

É estranho pensar que alguém receba um amigo ou até mesmo um simples conhecido em sua casa e o faça sentar em um divã, que puxe em seguida uma cadeira pra sentar-se junto ao seu convidado e depois o faça perguntas de forma muito tranqüila, sem mudar o tom da voz, mesmo sentindo-se assombrado com a visita. É uma cena que remete diretamente à figura de um psicanalista, por conseqüência remete a Schnitzer.

O narrador utiliza um conjunto de símbolos que também é gerenciado pela psicanálise em suas teorias, por exemplo, a coroa de perpétuas entrelaçadas com louros que ele coloca no túmulo de Ypsilon. Segundo o “Dicionário de Símbolos e Imagens Oníricas”3, a coroa de louros equivale à coroa de espinhos de Cristo. Ypsilon seria, então, um mártir da sua arte.

“Pois, na minha opinião, não houve em nenhum tempo qualquer outro poeta que os merecesse como meu amigo Ypsilon – não por causa de seu gênio, que pudera mostrar-se pouco armado contra todos os ataques da crítica, mas pela forma grandiosa com que valorizava a sua arte”.4

Essa é uma visão romântica que se tem do escritor, aquele que sofre a incompreensão do mundo, que está em desacordo com a realidade. É dessa forma que o narrador vai nos apresentar Ypsilon, porém cheio de ironia corrosiva com essa figura que era o escritor romântico, como ele mesmo diz no parágrafo acima, ele merece os louros não por ser um escritor genial, mas por valorizar excessivamente a sua arte.

Há a mesma ironia na apresentação de Ypsilon quando o narrador diz:

Martin Brand, assim era seu verdadeiro nome. Não deve causar surpresa o fato de que este nome, cuja lembrança tanto venero, não tivesse grandes êxitos a apresentar. Seus poemas, alguns dos quais, aliás, assinalados com um “Y”, foram publicados num pequeno jornal de Salzburg ou de Graz, não sobressaíam demasiadamente e, mesmo junto a mim, a quem o studiosus philologiae – isto é o que o senhor Martin Brand era na vida burguesa – por vezes se dirigia com suas fantasias escritas, ele raramente conseguia encontrar um verdadeiro estímulo ou reconhecimento”.5

Ypsilon também é descrito como alguém que está fora da realidade, o desacordo dele com o mundo é tal que as suas emoções são geradas pela escrita e não por suas experiências de vida. A ironia no trecho abaixo está presente no fato do narrador associar tal comportamento ao dos jovens poetas.

“Mas como a maioria dos jovens poetas, dava pouca importância ao julgamento daqueles que não gostavam de suas escrivinhações; sentia-se tão infinitamente à vontade junto à sua musa, que vagava sempre, invisível, ao seu lado, que até um determinado momento pertenceu aos mais felizes dos homens que jamais encontrei. Contudo por vezes ficava acabrunhado; nunca, porém, por causa de algum fato melindroso, que lhe tivesse ocorrido durante a desprezível vida dia-a-dia, mas apenas quando seu pensamento se ocupava de algum tema realmente triste: ao trabalhar num drama, em que morriam rainhas de coração partido e príncipes, de cabeça também partida, ou ao escrever um conto de fadas, onde uma fada maligna, devido à sua maldade inata, ameaçava destruir a felicidade de duas boas criaturas humanas. Pelo contrario, ele costumava mostrar incontida alegria quando cantava a primavera, ou uma noite de baile, em que uma bela máscara beija os lábios de um estudante de artes, fantasiando de núbio, e diz logo após: ‘Sim, é você, e ninguém há de rouba-lo de mim!’”6

Diante desse fato, o narrador adota novamente uma atitude psicanalítica, lembrando a Ypsilon a necessidade dele não fazer amizades demasiadas estreitas com as suas personagens, aconselhando-o a olhar um pouco a vida que está ao seu redor.

Além disso, o narrador está todo o tempo falando da loucura de Ypsilon e das suas atitudes “amalucadas”.

É também, o narrador, uma figura extremamente culta, ele é, além de tudo, um músico que conhece bem essa arte, variando sua prática artística entre valsas e marchas fúnebres. Vale lembrar que os primeiros e principais psicanalistas vienenses eram figuras cultíssimas, assim como Freud.

Ypsilon é caracterizado como um escritor ultra-romântico, é aquele que não encontra imagem ideal de amor na terra, e, por isso, seu amor só pode ser realizado através dos seus personagens literários. Por esta razão ele rompe com a corista, já que ela torna-se enfadonha quando comparadas às mulheres da sua fantasia literária.

“- Ele deve ter outra, pois hoje proclamou várias vezes: “Você não é mesmo como ela. Não como ela”. E depois, quando o beijei atemorizada, ele me olhou, assim, de alto a baixo, e disse: “Vá embora, você não está vendo que me incomoda?”7

Porém, essa atitude de Ypsilon é ironizada pelo narrador quando ele o caracteriza como um doido e quando ele diz que essas mulheres de carne e osso são enfadonhas para o poeta porque estas comem, bebem e amam. As mulheres das fantasias de Ypsilon são graciosas como nunca vistas antes por homens ou deuses.

- É claro, naturalmente! — disse eu. — Essas mulheres de carne e osso! São brutais o bastante tanto para comer, beber, amar, como para atravessar a vida com um imenso desperdício de existência real”.8

Não há uma compreensão real de Ypsilon, há sempre uma série de adjetivos associados à loucura para julgar o seu comportamento. O narrador chega a sugerir a corista que ela diga a Ypsilon ser uma criatura da sua imaginação, para alcançar o status de perfeição das suas personagens literárias.

Outro símbolo importante, na caracterização do poeta, são as quatro velas vermelhas que ele acende para escrever. Para o mesmo “Dicionário de Símbolos e Imagens Oníricas”, a vela é o símbolo da luz resultante de uma atitude compreensiva, a clareza da mente que se abre para penetrar no inconsciente e o fertilizar. Se a vela está acesa, indica que se está conectado com a força primordial, com a essência de seu ser.

A arte do poeta, assim, é apresentada novamente com a idéia romântica do escritor. Aquele que escreve por inspiração, convulsivamente. Esta idéia encontra reflexo em muitas partes do conto, como por exemplo:

Embora a luz clara do dia iluminasse o quarto, havia quatro velas vermelhas acessas sobre a sua mesa (ele conseguia trabalhar apenas à luz de velas vermelhas), e Ypsilon estava sentado diante delas, com os olhos turvos, enquanto a sua pena perambulava irrequieta sobre o papel”9

Mas o narrador não dá importância alguma a este símbolo e apaga as velas para roubar a atenção do poeta e tirá-lo do estado de transe que ele se coloca ao escrever. A pouca importância do narrador à vela, como símbolo que é, mostra a superioridade do narrador sobre o poeta. É a superioridade de uma cultura racional e científica sobre uma cultura emotiva e romântica.

Ypsilon criou uma personagem (Türkisa) que toma conta dele, do seu coração e da sua mente, mas ela está condenada à morte. A morte da personagem para o narrador significaria a libertação do poeta da prisão criada pelo processo de criação literária, mas não é o que acontece.

“Pensei: agora já passou; o feitiço está desfeito; a terrível fantasia, na qual viveu durante dias a fio, dissipou-se, desvaneceu-se. Sim, senti como se em toda a atmosfera ao nosso redor ocorresse uma mudança.”10

O poeta Ypsilon como representante da geração ultra-romântica age de forma diferente. A imagem ideal de perfeição é a personagem que ele criou, não há nada semelhante na vida real, é assim, que a morte da personagem vai significar a morte do próprio poeta.

O amor do poeta pela sua personagem é tão grande que a aproximação da morte da personagem vai deixando-o cada vez mais doente e esgotado fisicamente. Esse comportamento é constantemente ironizado pelo narrador, é a própria ironia moderna ao autor romântico, representado, nesse caso, por Ypsilon.

“- Você está ridículo, Ypsilon; você está doente.”11

O narrador passa, então, a fazer tentativas para salvar Ypsilon da sua loucura, levando-o para passeios pelo mundo real. Mundo que para o poeta não apresenta nenhuma beleza especial, a luz do mundo real fere seus olhos, ele não reconhece na natureza uma imagem ideal.

A loucura do poeta é invencível às razões do narrador, é uma luta vã a que este se propôs, onde novamente se afirma a superioridade da sabedoria do narrador sobre a loucura do poeta.

“Não conseguia deixar de lado esta idéia fixa e a todas as minhas exortações ele respondia apenas com um aceno negativo da cabeça. Senti que, frente a esta loucura, minha sabedoria tinha chegado ao seu fim.”12

O conto de Schnitzler é uma grande ironia aos poetas românticos, aos seus sonhos deslocados da realidade e ao seu fazer poético baseado na inspiração. Ele é mau poeta porque seus versos são ruins, mas é bom poeta por se capaz de se enamorar dos seus personagens até a loucura, é por essa razão que ele será lembrado.



2 Ibid. p. 33

3 PEREIRA ALVES, Sérgio. Dicionário de Símbolos e Imagens Oníricas. Disponível em .Acesso em 09 de junho de 2008.

4 SCHNITZLER, Arthur. Contos de Amor e Morte: Meu Amigo Ypsilon. São Paulo. Compainha das Letras: 1996. p. 31

5 Ibid. p. 31-32.

6 Ibid. p. 32.

7 Ibid. p. 34.

8 Ibid. p. 35.

9 Ibid. p.35.

10 Ibid p. 42.

11 Ibid. p. 37.

12 Ibid. p.40.

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