sexta-feira, 18 de julho de 2008

A IDÉIA DE BAIANIDADE NO LIVRO “OS DIAS DO MEDO” DE ARIOVALDO MATOS

A idéia de baianidade é construída utilizando-se de um repertório limitado e arbitrário de elementos estéticos e representativos da cultura afro-baiana, que são selecionados, amplificados, reproduzidos e reimaginados com a finalidade de construir a imagem da Bahia.

O Prof. Dr. Alberto Albergaria resume a duas correntes os estudos sobre Bahia e baianidade[1]. A primeira corrente é a dos baianólogos Cid Teixeira e Ordep Serra – pode-se encaixar nessa corrente, também, Antônio Risério – para estes existiria um modo de viver particular do baiano (um ethos baiano) constituído endogenamente durante mais de quatrocentos anos de sincretismo religioso e mestiçagem afro-luso-tupi; a outra corrente, mais recente, constituído por Ari Lima e Roque Pinto, acredita que a idéia de baianidade não passa de um mito constitutivo de identidade, sendo construída de fora para dentro (em oposição ao Rio de Janeiro e a São Paulo) e de cima para baixo.

Para esta nova corrente a idéia de baianidade surge quando o Rio se torna metrópole, capital do Brasil em 1763; nesse período, em oposição, a Bahia vai se constituindo no lugar da representação do passado, da tradição, da negritude, das raízes, etc.

“A Bahia era e é uma terra de velharias, de pessoas abelhudas, gentes pobres e feias, sem movimento, sem atrativos. Agora que conheço quase todos os países civilizados, afirmo: o Rio é uma maravilha”[2]

A Bahia, como o lugar da tradição e da história aparece bem descrito em:

“Antes que existíssemos aqui, os que aqui, neste largo histórico, em comunhão agora estamos, existia a Bahia, e a ela, senhores, à nossa Bahia, todos nos curvemos, em reverência ao passado e em luta para a construção do futuro”[3]

Porém, no início do século XX, a metrópole brasileira, se desloca para São Paulo, onde se cria também um discurso de baianidade. A oposição Rio de Janeiro x Bahia, torna-se, também, uma oposição São Paulo x Bahia.

Segundo o Prof. Dr. Roberto Albergaria, nessa oposição fortalecida por volta de 1930, São Paulo representa a razão, a civilização, a discrição, a indústria, o futuro, o trabalho; e a Bahia representa o místico, as raízes, o passado, a preguiça, a exuberância, a cordialidade.

A oposição São Paulo x Bahia está bem marcada no livro “Os Dias do Medo” de Ariovaldo Matos. No trecho abaixo, encontramos a dicotomia entre riqueza x pobreza:

“Não em São Paulo, terra em que já existiam indústrias, mas aqui, na Bahia paupérrima (...) na próspera cidade de São Paulo? não, não, não! Aqui, eu trabalharia aqui, nesta paupérrima Bahia”[4]

Em outro trecho, em que a ação se passa, aproximadamente, em 1920, podemos destacar a oposição desenvolvimento x decadência:

“aumentava o número de lojas que vendiam sapatos e assemelhados produzidos em São Paulo e mesmo no Rio Grande do Sul, a preços concorrentes (melhor a qualidade), senão inferiores, aos dos produtos localmente manufaturados. Vivia-se a involução industrial baiana”.[5]

Porém, esta dicotomia não deixa de ser julgada pelos dois narradores do livro, eles criticam a concentração de dinheiro na região sudeste, dizendo que essa concentração forma uma nova classe, o proletariado, que poderia ser perigoso para o país – era o medo do comunismo.

Ainda, segundo o Prof. Dr. Roberto Albergaria, no inicio dos anos 30, com a entrada da rádio nacional, o tema da Bahia se torna cada vez mais forte, principalmente, através das canções de Caymmi e Ary Barroso. Surge o discurso de uma Bahia mítica que seria um concentrado do Brasil.

Caymmi e Jorge Amado criam através do cancioneiro e da literatura, já no ínicio dos anos 30, a imagem de uma Bahia mística, instituindo uma série de imagens que passaram a ser representativas da baianidade. Essas imagens são também reforçadas por outros artistas como Carybe e Pierre Verger.

Presente na obra desses artistas passam a ser símbolos da baianidade: a sensualidade da mulher baiana, geralmente mulata; a cidade praieira e festeira; a musicalidade; o sincretismo religioso; a boa convivência multirracial e a miscigenação; a malandragem; a capoeira; a permissividade religiosa e sexual; o carnaval e as festas populares; o candomblé; o acarajé e as baianas; o povo simples e hospitaleiro; a alegria do povo baiano; etc.[6]

Roque Pinto[7] resume essas idéias dizendo que houve a construção e disseminação da idéia de uma cultura baiana “genuína” e idiossincrática, isto é, da construção de uma Bahia estereotipada – mítica, atemporal, praieira, festeira, etc.

O carnaval baiano aparece no livro de Ariovaldo Matos mais de cinco vezes, inclusive a idéia de que o ano na Bahia só começa efetivamente depois do carnaval.

Destaco duas passagens do texto como exemplo. Na primeira passagem, a mudança das personagens da Pituba para o centro de Salvador só pode ser realizado após o carnaval; na segunda passagem, o carnaval é o momento do desbunde, da permissividade sexual, havendo, inclusive, uma sugestão de homossexualidade entre as personagens Abelardo e Cris.

“Uma ou duas semanas depois do Carnaval (naquela época chamava-se, tais festejos, de entrudo), o sr. Giuseppe, mamãe e eu fomos residir em Santo Antônio Além-do-Carmo.”[8]

“Querida, não é verdade que eu e Cris nos tenhamos esbaldados no Carnaval, como você afirma. Devo dizer que Cris se excedeu nas bebidas e me vi envolvido em situações desagradáveis, algumas perigosas à minha integridade física. Situações deploráveis porque Cris, surpreendentemente, é capaz de ser violento, agressivo, provocador.”[9]

Além do carnaval e de outras festas populares presentes no livro, como as festas juninas, qualquer coisa, na Bahia, parece ser motivo para se criar uma festa. No livro, por exemplo, o enterro de uma cobra vira um grande carnaval.

“Numa das notas adicionais conta o finado a impressão causada ao menino Petrucci pelo fato de a jibóia ter sido enterrada em meio a uma mistura de missa pagã e carnaval.”[10]

A Bahia representada como uma cidade praieira, uma cidade de pescadores, também encontra ressonância no livro; a Pituba aparece como uma grande colônia de pescadores.

“Morávamos na Pituba, o mar na porta, uma casa de remediados, a única telha-vã naquelas redondezas. As outras, disseminadas ao longo da praia, cobertas com palhas de coqueiros, eram habitadas por pescadores. Tio Leonardo, íntimo de Deus, dos peixes, dos homens, quem sabe amigo até dos fanáticos cavalos-marinhos” [11]

Assim como Itapuã é representada como o lugar de lavadeiras.

“Itapuã, então, o sol ainda a pino, era cedo para as lavadeiras dos córregos nas imediações do Farol, certo viriam mais tarde, logo amainasse a quentura (...) atribuí-me a obrigação de esperar as lavadeiras”[12]

Essas duas imagens são muito fortes em livros de Jorge Amado, como Capitães de Areia, Mar Morto e Jubiabá; assim como, no segundo LP de Dorival Caymmi com Carmem Miranda, lançado em 1939, que tem canções como “Rainha do Mar” e “Promessa de Pescador”. Essas imagens foram repetidamente associadas à Bahia e ganharam força com as telenovelas globais, como Gabriela e Tieta.

A sensualidade e a beleza da mulher negra baiana, também, estão presentes no texto, elas são descritas pela potência e ameaça sexual que representam:

“não obstante, fosse Rosenda fêmea desde as pontas dos pés, uma negra muito apetitosa e ciente desse favor”[13]

“ela estava triste e sua tristeza fez-me repara-la melhor, uma negra sem os chamados “traços brancos”, negra bela porque negra, robusta mas extremamente feminina”[14]

“Ela respondia, desenvolta, satanicamente bela”[15]

O mito da boa convivência racial também se apresenta no texto, a figura do poeta Cruz e Souza é invocada duas vezes, para dizer que não há diferença de tratamento entre brancos e negros.

“Isto de João Candido se preto ou não ser preto é questão de somenos. Do senhor mesmo, professor, ouvi louvores à poesia do Dr. Cruz e Souza, que é preto.”[16]

Algumas vezes, características associadas à baianidade são tratadas com ironia no texto, a personagem-narrador, Tônio, ao se referir a morte da sua mãe, que ele odeia e ao mesmo tempo deseja sexualmente, atribui a morte à preguiça.

“avisei a Anália sobre o acontecido e ela perguntou sobre a causa da morte, respondi Morreu de preguiça, Anália riu (elas se destestavam)”[17]

Comidas tipicamente baianas também se encontram no texto, como, por exemplo, o caruru.

“não sairia para rezar uma hora daquelas, o jantar próximo, cada vez mais convidativo o odor do caruru que Anália preparava”

A religiosidade surge, principalmente, quando o Sr. Giuseppe adoece. Há repetidamente presente a idéia de um milagre e a necessidade de se rezar para que isso aconteça. Porém, essa promessa de cura pela fé é hostilizada por Tônio.

“A fé remove montanhas. Não removeu picas nenhumas!”[18]

Mas além da religiosidade há o sincretismo religioso, à personagem Abelardo cabe todos os anos, entre janeiro e fevereiro, fazer uma espécie de oferenda ao mar.

“devo, igualmente, todos os anos, em janeiro e fevereiro, comprar jangada já bastante usada, atapetá-la com flores as mais alegres, provê-la com garrafões de vinho tinto, de sempre mais caros salames e queijos populares calabreses, e fazer com que uma lancha a reboque, vazia de gente tal jangada, até os começos do oceano Norte baiano. E ali abandoná-la ao sabor e aos caprichos das águas, “bem onde – ele explicou – as ondas não fraquejam e não morrem”[19]

Dentro da tradição literária baiana, o mar aparece, no livro, ora como um símbolo de liberdade, ora como o grande ventre do mundo, o útero.

“Sabe como eu gostaria de morrer? Assim, o sol chegando, um arco-íris, me transportando, levemente para o grande útero oceânico”[20]

A Bahia é representada edênicamente, como se o seu clima, por si só, fosse capaz de curar o enfermo, porém, essa idealização da Bahia é logo ironizada, também, por Tônio.

“acreditava, o bobão, que o clima de Salvador poderia devolver alguns movimentos ao Sr. Giuseppe. De onde tirou essa teoria maluca eu não sei.”[21]

Outra característica associada à baianidade é a malandragem. O político Tônio Petrucci é um típico malandro, ele reage a uma provocação com violência por saber ser grande as pessoas que irão apartar a possível briga.

“devia reagir contra o principal frenético, fiado na proteção de Abelardo e na possivelmente numerosa turma do “deixa disso”, sempre benemérita. Assim, forrado de boas expectativas, cumpria-me contundir, com resposta máscula o moleque aparteante, dando prova da coragem conferida de prestígio”[22]

“- Exijo que me larguem! Não largaram, perfeito.”[23]

Outra malandragem é feita pela personagem Abelardo, obrigado por testamento a fazer o livro sobre a vida do senador, a partir das anotações pessoais deste, ele resolve não publicar o nome de pessoas que possam ser necessárias futuramente para ele.

“Os cortes aos quais me vi obrigado – episódios e trechos outros que, somados, se alongam por mais de trezentas laudas pessimamente datilografadas – devem-se a conveniências hodiernas. E eu as reputo da maior relevância, eis que (esta expressão é dele, eis que) se relacionam, envolvendo-as em meio a injustiças ou desajeitos, com numerosas personalidades. Preocupam-me, em particular, senhoras e senhores que me honram com amizade e respeito. Não raras dessas pessoas podem me ser úteis e eu a elas”[24]

Armando Bião[25] faz uma associação entre a forma de falar do baiano e a baianidade, para ele há um imaginário brasileiro – expresso em piadas, telenovelas, canções, etc – de que o baiano fala cantando, fala de forma dengosa, essa baianidade refletida na comunicação se dá principalmente pelo uso de diminutivos.

Essa linguagem típica baiana aparece uma única vez no livro de Ariovaldo, no diálogo entre Tônio e uma empregada, Odete:

“Se deite, bichinha. Agora não doutor. De noite você vem? Não sei, doutor. (...) Você engravidou bichinha? Não, doutor.”[26]

Tônio é a personagem principal do livro, pois são as memórias dele que estão sendo recontadas a partir dos seus escritos com a ajuda de Aberlado e Marluce; ele parece ser sempre o personagem mais lúcido do livro.

Como político ele sabe da importância de se usar esse discurso de baianidade para angariar votos, e é isso que o interessa, votos! Assim, Tônio utiliza de jargões da baianidade: a idéia da Bahia como terra mater, terra da grandeza, de um povo heróico, citando uma série de personas que marcaram a vida cultural e política da Bahia, como Castro Alves e Ruy Barbosa.

“Sim, a Bahia antes de tudo e todos a Bahia, e todos e tudo unidos no examinar a fundo sua queixas, seus reclamos, pressentindo suas aspirações de terra mater do Brasil (...) Tática mantida – Bahia, grandeza, Ruy, glorioso futuro, Castro Alves, etc”[27]

Mas a idéia de baianidade aparece ironizada através do discurso de um político que o usa para conseguir se eleger - essa foi uma postura adotada, inclusive, pelo carlismo.

“Afirmo e reafirmo que eu, Tônio Petrucci, senador Antônio Petrucci, consegui iludi-los dezenas e dezenas de anos (...) Meu mérito – porque há mérito em ter sido um canalha bem sucedido – constituiu em ter compreendido vocês e agir de acordo com tal compreensão”[28]

Há, ainda no livro, uma série de representações da cidade de Salvador, ora os locais são descritos pela sua representatividade histórica: descrição das ladeiras da Bahia, dos bondes que ligavam Brotas à Baixa dos Sapateiros, da praça Castro Alves – lugar de concentração do povo e de passado histórico, do Taboão, do Santo Antônio Além-do-Carmo, do Bonfim – como o lugar da religiosidade baiana; ora os lugares são descritos pela presença do mar e do pescador, do Rio Vermelho, Pituba e Itapuã.

O Chega-Negro, local tradicional e histórico de desembarque de escravos, está presente no livro:

“”Perto do trecho já conhecido como Chega Nego, alguns meninos divertiam-se”[29]

Mas Salvador é, também, descrita como uma cidade do mundo, onde tudo chegou e chega de fora.

“a Bahia é uma cidade do mundo. Excluída a paisagem, basicamente ela nos chegou de fora, coisas e gentes se amalgamando, portugueses, negros da África, árabes, turcos”[30]

E, por fim, o negro é representado no livro de duas formas, ora ele é o bagunceiro – é um negro o responsável pela bagunça em um comício, ora ele é o amigo-fiel e servo do branco.



[1] ALBERGARIA, Roberto. Bahia, Bahia, que lugar é este?. Disponível em: http://www.sbpccultural.ufba.br/identid/semana1/alberga.html>. Acesso em: 11 de junho de 2008.

[2] MATOS, Ariovaldo. Os Dias do Medo. Livraria Cultura Editora: São Paulo, 1979. p. 16.

[3] Ibid. p. 13.

[4] Ibid. p. 81.

[5] Ibid. p. 117.

[6] CRUZ, Gutemberg. A Baianidade é mito?. Disponível em: . Acesso em: 10 de junho de 2008.

[7] PINTO, Roque. A Bahia reimaginada: como transformar um velho entreposto comercial em um novíssimo produtor de tradições. Disponível em: Acesso em: 10 de junho de 2008.

[8] MATOS, Ariovaldo. Os Dias do Medo. Livraria Cultura Editora: São Paulo, 1979, p. 54.

[9] Ibid. p. 108.

[10] Ibid. p. 36.

[11] Ibid. p. 21.

[12] Ibid. p. 31.

[13] Ibid. p. 48.

[14] Ibid. p. 77.

[15] Ibid. p. 26.

[16] Ibid. p. 81.

[17] Ibid. p. 136.

[18] Ibid. p. 97.

[19] Ibid. p. 9.

[20] Ibid. p. 24.

[21] Ibid. p. 97.

[22] Ibid. p. 13-14.

[23] Ibid. p. 14.

[24] Ibid. p. 7.

[25] BIÃO, Armando. Matrizes estéticas: o espetáculo da baianidade. Comunicação apresentada ao Ciclo de Palestras do GIPE-CIT, 1998/1999), Disponível em: . Acesso em 10 de junho de 2008.

[26] MATOS, Ariovaldo. Os Dias do Medo. Livraria Cultura Editora: São Paulo, 1979, p. 176.

[27] Ibid. p. 13.

[28] Ibid. p. 134.

[29] Ibid. p. 30.

[30] Ibid. p. 22.

Nenhum comentário: