quarta-feira, 8 de outubro de 2008

a correspondência de fradique mendes - eça de queiroz

"a correspondência de fradique mendes", de eça de queiroz, foi publicada em 1901. parece muito tempo... afinal, são mais de cem anos, porém a obra é jovem e cheia de frescor. 

no livro há uma crítica feroz às instituições portuguesas do final do século XIX. para ilustrar o quanto o livro ainda nos serve como crítica coloco abaixo trehos de uma carta em que fradique comenta sobre o papel do jornal impresso. basta trocar jornal por mídia ou televisão para notar como as coisas continuam iguais às criticadas no livro.
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ano que vem é livro de vestibular na 2a fase da ufba!
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"[...] como foi incontestavelmente a Imprensa, que, com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de tudo afirmar, de tudo julgar, mais enraizou no nosso tempo o funesto hábito dos juízos ligeiros [...] É com impressões fluídas que formamos as nossas maciças conclusões. [...] Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do facto, do homem, da obra, que perpassou num relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um carácter: por um carácter avaliamos um povo. [...]
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E quem nos tem enraizado estes hábitos de desoladora leviandade? O jornal — o jornal, que oferece cada manhã, desde a crónica até aos anúncios, uma massa espumante de juízos ligeiros, improvisados na véspera, à meia-noite, entre o silvar do gás e o fervilhar das chalaças, por excelentes rapazes que rompem pela Redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo o chapéu, decidem com dois rabiscos da pena sobretodas as coisas da Terra e do Céu. Quer se trate duma revolução do Estado, da solidez dum Banco, duma Mágica, ou dum descarrilamento, o rabisco da pena, com um traço, esparrinha e julga. Nenhum estudo, nenhum documento, nenhuma certeza. [...]
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O jornal é com efeito o fole incansável que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chama. De todos os tempos é ela, a vaidade do homem! [...] O motor ofegante do pensamento e da conduta. Nestes estados de civilização, ruidosos e ocos, tudo deriva da vaidade, tudo tende à vaidade. E a forma nova da vaidade para o civilizado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa comentada no jornal! Vir no jornal! eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! Nos regimes aristocráticos o esforço era obter, senão já o favor, ao menos o sorriso do Príncipe. Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as acções—mesmo as boas. Mesmo as boas, meu Bento! «O nosso generoso amigo Z...» só manda os cem mil-réis à Creche, para que a gazeta exalte os cem mil-réis de Z..., nosso amigo generoso. Nem é mesmo necessário que as sete linhas contenham muito mel e muito incenso: basta que ponham o nome em evidência, bem negro, nessa tinta cujo brilho é mais apetecido que o velho nimbo de ouro do tempo das Santidades. E não há classe que não ande devorada por esta fome mórbida do reclamo. [...] E é por essa gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os Políticos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na extravagância estética, e os Sábios alardeiam teorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os géneros, surge a horda ululante dos charlatães... [...] Para aparecerem no jornal, há assassinos que assassinam. Até o velho instinto da conservaçãocede ao novo instinto da notoriedade- e existe tal maganão, que ante um funeral convertido em apoteose pela abundância das coroas, dos coches e dos prantos oratórios, lambe os beiços, pensativo, e deseja ser o morto." (carta XV)
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salve a ironia e o sarcasmo de eça de queiroz!

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