segunda-feira, 24 de novembro de 2008

NAEL: O NARRADOR NO ENTRE-LUGAR E O NOVO CÂNONE LITERÁRIO

Este artigo traça uma perspectiva ou uma chave de leitura sobre Nael, personagem do livro Dois Irmãos, do premiado escritor Milton Hatoum. Primeiro, é preciso dizer que não fiz nenhum tipo de associação entre a vida do autor e os personagens, pois, assim como Hatoum, acredito que “a literatura é movida pela memória”[1] e que “a memória também trai, ela não diz exactamente aquilo que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido”[2]. A memória e, por conseqüência, a literatura entendida como ficcional me retira a necessidade de falar da vida do autor.

É exatamente o lugar que Nael ocupa na narrativa e como essa voz é lida na contemporaneidade o foco desse artigo. Para isso, estabeleço diálogos com alguns textos escritos: inicialmente, o conto "A terceira margem do rio", de Guimarães Rosa; posteriormente, o artigo "O entre-lugar do discurso latino-americano", de Silviano Santiago.

No conto de Rosa, o personagem “pai” é aquele que decide deixar a margem do rio em que vive, lugar em que tem família e casa, para viver na fronteira entre as duas margens. Ele não quer viver nem na margem que sempre viveu nem na outra margem. Decide, então, viver entre as margens - nesse entre-lugar que ninguém nunca viveu.

“Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.”[3]

Mas o pai mesmo abandonando definitivamente a margem que vive, mantém laços com o local, retornando para pegar a comida que o filho-narrador deixa na margem, que ele pega sem precisar sair desse entre-lugar.

“Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora.”[4]

Estabelecer a comparação entre Nael e o pai do conto de Rosa - já que ambos são personagens fronteiriços, habitantes do entre-lugar - e; entre o filho-narrador e Domingas - já que ambos mantêm conexão com os personagens fronteiriços - é dialogar diretamente com os dois textos.

Aliás, é o texto do próprio Hatoum que nos coloca em diálogo com o conto de Rosa, já que em momentos da narrativa de Nael, fala-se de personagens que passaram de uma margem para outra, ou que estão, ainda que temporariamente, no entre-lugar das duas margens.

Por exemplo, Yaqub (personagem que atravessa a margem do rio - Manaus - e vai para a outra margem – São Paulo) e Halim (que nos últimos momentos da sua vida aproxima-se de Nael, principalmente pelo fato dele também ter se tornado um indivíduo no entre-lugar familiar).

“Yaqub e minha mãe juntos, numa canoa, em frente da palafita, o Bar da Margem. Ele olhou a imagem, quieto e pensativo, e procurou com os olhos o lugar da margem em que algum dia fora feliz.”[5]

“Assim eu via o velho Halim: um náufrago agarrado a um tronco, longe das margens do rio, arrastado pela correnteza para o remanso do fim”.[6]

Porém, mais importante do que marcar o que há de comum entre os dois textos, é marcar o que há de diferente neles, como apontou Silviano Santiago no artigo: “O Entre-lugar do discurso latino-americano”[7], essa forma de comparar os dois textos não cria uma hierarquia entre as obras.

“O texto segundo se organiza a partir de uma meditação silenciosa e traiçoeira sobre o primeiro texto, e o leitor, transformado em autor, tenta surpreender o modelo original nas suas limitações, nas suas fraquezas, nas suas lacunas, desarticula-o e o rearticula de acordo com as suas intenções, segundo sua própria direção ideológica, sua visão do tema apresentado de início pelo original”[8]

Assim, a principal diferença entre o conto rosiano e a narrativa de Hatoum, é que enquanto no primeiro a história é contada a partir de um narrador que está em uma das margens – é o filho que conta a história do seu pai; em Dois Irmãos o narrador fala exatamente desse entre-lugar.

“Eu não sabia nada de mim, como vim ao mundo, de onde tinha vindo. A origem: as origens. Meu passado, de alguma forma palpitando na vida dos meus antepassados, nada disso eu sabia. Minha infância, sem nenhum sinal de origem. É como esquecer uma criança dentro de um barco num rio deserto, até que uma das margens a acolhe. Anos depois, desconfiei: um dos gêmeos era meu pai.”[9]

Nael é o narrador que nasce – é um bastardo da família e tem descendência duvidosa, não sabe se seu pai é Yaqub, Omar ou Halim - e se mantém nesse entre-lugar – porque não deseja abandonar a também agregada Domingas, sua mãe e; porque também rejeita a identidade dos seus prováveis pais.

“Nael preferirá uma “terceira margem”, optando por não seguir os passos de nenhum dos dois. Nem aquele que permaneceu grande parte de sua vida presente demais nem o outro que se mudou para São Paulo, e cujas histórias ele escutou ao longo de sua infância.”[10]

Assim, Nael está no entre-lugar, entre a família e fora desta, entre a família emigrante e a mãe índia, entre Yaqub e Omar, entre ser quase escravo e homem-livre, entre ser branco ou índio, o que lhe coloca sempre em uma posição ambígua. O fato de ser o narrador um agregado potencializa um olhar mais crítico sobre o que narra, já que ele não se encontra em uma posição nem fixa e nem naturalizada.

“Mas muita coisa do que aconteceu eu mesmo vi, porque enxerguei de fora aquele pequeno mundo. Sim, de fora e às vezes distante. Mas fui o observador desse jogo e presenciei muitas cartadas, até o lance final.”[11]

Nael é o narrador que em busca de sua origem vive o desmonoramento da família, mas dado a sua condição, ele também questiona a sua própria capacidade de transmitir a história, já que nem todas as vozes da família lhe são dadas conhecer.

“Yaqub quase nada revelava sobre sua vida no sul do Líbano. (...) No entanto, havia acontecido alguma coisa naquele tempo de pastor. Talvez Halim soubesse, mas ninguém, nem mesmo Zana, arrancou do filho o segredo. Não, de Yaqub não saía nada.”[12]

A forma de narrar de Nael oscila entre a testemunha de fatos e o narrador-personagem, já que em alguns momentos ele está envolvido nos conflitos e tensões do romance.

“Os narradores de todos os meus livros não têm um lugar muito certo, seu lugar social e simbólico é frágil, estranho na narrativa.”[13]

Nael narra a partir do que vê e ouve como agregado da família, ele é um sobrevivente da autofagia familiar criada por Milton Hatoum, é necessário que ele sobreviva para que possa contar a história, mas ele só sobrevive porque está entre as margens – no entre-lugar.

“Na verdade, para Zana eu só existia como rastro dos filhos dela.”[14]

Além disso, ele pode ser caracterizado como um narrador tipicamente contemporâneo pelas discussões sobre a memória – que não aspira mais à totalidade das grandes narrativas, mas que é construída “a partir de um discurso fragmentado, calcado nas lacunas e nas instabilidades tanto do sujeito como do seu meio social”[15] - e sobre a construção do próprio livro - metalinguagem. Aliás, muitas vezes, as vozes dos personagens se parecem com as vozes dos estudos culturais.

“Talvez por esquecimento, ele omitiu algumas cenas esquisitas, mas a memória inventa, mesmo quando quer ser fiel ao passado. (...) Omissões, lacunas, esquecimento. O desejo de esquecer. Mas eu me lembro, sempre tive sede de lembranças, de um passado desconhecido, jogado sei lá em que praia de rio.”[16]

“Ele me fazia revelações em dias esparsos, aos pedaços, “como retalhos de um tecido”. Ouvi esses “retalhos”, e o tecido, que era visto e forte, foi se desfibrando até esgaçar”[17]

Pode-se dizer que os estudos culturais ao deshierarquizar narrativas, ao desestabilizar o cânone e ao historicizar obras e escritores, possibilitou a emergência e, mesmo sem desejar, a canonização pela crítica desse tipo de texto, em que os narradores simbolizam não mais as elites culturais, mas as minorias. O relato de Nael é a memória de uma minoria e é a voz dessas minorias que possibilitam a descon


[1] BORGES, Julio. Milton Hatoum. Disponível em: . Acesso em 16 de novembro de 2008.

[2] Ibid.

[3] ROSA, Guimarães. A Terceira Margem do Rio. Disponível em: . Acesso em 16 de novembro de 2008.

[4] Ibid.

[5] HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Compainha das Letras, 2008. pág. 86.

[6] Ibid. pág. 137.

[7] SANTIAGO, Silviano. O Entre-Lugar do Discurso Latino-americano. Disponível em: . Acesso em 16 de novembro de 2008.

[8] Ibid.

[9] HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Compainha das Letras, 2008. pág. 54.

[10] BIRMAN, Daniela. Entre-narrar: Relatos da Fronteira em Milton Hatoum. Disponível em: . Acesso em 16 de novembro de 2008.

[11] HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Compainha das Letras, 2008. pág. 23.

[12] Ibid. pág. 30.

[13] MIRANDA, Carlos Eduardo. Um tempo sem heróis. Disponível em: . Acesso em 16 de novembro de 2008.

[14] HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Compainha das Letras, 2008. pág. 28.

[15] CALDEIRA, Tatiana. REDE DE HISTÓRIAS: IDENTIDADE (s) E MEMÓRIA (s) NO ROMANCE DOIS IRMÃOS, DE MILTON HATOUM. Disponível em: . Acesso em 17 de novembro de 2008.

[16] HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Compainha das Letras, 2008. pág. 67.

[17] Ibid. pág. 39.

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