terça-feira, 2 de dezembro de 2008

dois irmãos - milton hatoum

Este artigo traça uma perspectiva ou uma chave de leitura para Nael, personagem do livro Dois Irmãos, do premiado escritor Milton Hatoum. Analisar o lugar que este personagem ocupa na narrativa é o foco desse artigo.

Para isso recorro ao conto A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa. Nele encontramos a história de um pai que manda construir uma canoa para deixar a casa em que vive com mulher e filhos, passando a viver entre as margens de um rio. O pai ao abandonar a margem que sempre viveu deixa para trás a identidade que sempre carregou. O trecho abaixo esclarece que papel social e familiar ele sempre ocupou.

“Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação.”[1]

Ao abandonar a casa ele passa a viver em um espaço novo, um espaço antes não-habitado, um terceiro espaço onde não existem papéis sociais e familiares definidos para ele. Esse viver entre as margens pode ser descrito como um entre-lugar geográfico (já que passa a viver entre as margens de um rio) e também cultural (já que abandona a sua antiga identidade).

Homi Bhabha concebe o entre-lugar como um terceiro espaço, um lugar híbrido que permite a emersão de outras posições, ou seja, a constituição de novos sujeitos. Esse terceiro espaço desloca antigas identidades e a hibridização cultural, própria desse entre-lugar, termina por originar algo diferente.

Porém, no conto de Rosa, a história é contada pelo filho que vê o pai deixar a casa e que o alimenta a distância, sem deixar sua margem de segurança e o seu papel social definido. Mas por ser o narrador um personagem que vê o outro à distância, nada mais sabemos sobre o pai, apenas que deixou sua antiga identidade para trás.


Essa é a principal diferença entre os dois textos, o fato do personagem deslocado – Nael – de Hatoum, ao contrário do pai de Rosa, ter voz. É ele que nos conta a história do livro, ao revelar a vida da família que narra e a sua própria vida ele nos mostra o papel social que lhe foi destinado e como ele subverte esse lugar.

É o próprio texto de Hatoum que abre a possibilidade para uma comparação com o conto de Rosa. Há uma intertextualidade clara entre eles, já que ambos falam de personagens que passaram de uma margem para outra ou que estão, ainda que temporariamente, em um entre-lugar geográfico e cultural.

Por exemplo, Yaqub (é um personagem que deixa a margem do rio que vive – Manaus – e vai para uma outra margem – São Paulo) e Halim (que nos últimos momentos da sua vida aproxima-se de Nael, principalmente por ele também ter se tornado um indivíduo marginalizado pela família).

“Yaqub e minha mãe juntos, numa canoa, em frente da palafita, o Bar da Margem. Ele olhou a imagem, quieto e pensativo, e procurou com os olhos o lugar da margem em que algum dia fora feliz.”[2]

“Assim eu via o velho Halim: um náufrago agarrado a um tronco, longe das margens do rio, arrastado pela correnteza para o remanso do fim”.[3]

Pelo fato do livro ser narrado desse entre-lugar geográfico e cultural temos uma perspectiva de dentro, e não mais uma visão externa desse terceiro espaço, como acontece no conto de Rosa.

Nael habita muitos entre-lugares. Ele é um agregado familiar de descendência duvidosa, filho de uma índia criada por freiras com um dos homens da família que ele narra. Culturalmente ele não pertence a nenhuma dessas matrizes: não é índio e nem emigrante. Vejamos como ele mesmo se define em relação às suas origens:

“Eu não sabia nada de mim, como vim ao mundo, de onde tinha vindo. A origem: as origens. Meu passado, de alguma forma palpitando na vida dos meus antepassados, nada disso eu sabia. Minha infância, sem nenhum sinal de origem. É como esquecer uma criança dentro de um barco num rio deserto, até que uma das margens a acolhe. Anos depois, desconfiei: um dos gêmeos era meu pai.”[4]

Sua posição familiar também é ambígua, ele não é nem um membro da família e nem um desconhecido. A convivência dele com a família pode ser resumida com o trecho abaixo:

“Podia freqüentar o interior da casa, sentar no sofá cinzento e nas cadeiras de palha da sala. Era raro eu sentar à mesa com os donos da casa, mas podia comer a comida deles, beber tudo, eles não se importavam.”[5]

Nael vive dentro do mesmo espaço familiar, mas habita junto com sua mãe Domingas o quarto dos fundos, distante da casa, como ele diz no trecho abaixo:

“Durante o tempo que a contemplei, no vaivém da rede, rememorei as noites que dormimos abraçados no mesmo quartinho que fedia a barata.”[6]

Nessa posição híbrida que ele ocupa ele é quase um escravo e quase um homem livre. Ele serve a todos os caprichos de Zana.

“Quando não estava na escola, trabalhava em casa, ajudava na faxina, limpava o quintal, ensacava as folhas secas e consertava a cerca dos fundos. Saía a qualquer hora para fazer compras, tentava poupar minha mãe, que também não parava um minuto. Era um corre-corre sem fim. Zana inventava mil tarefas por dia, não podia ver um cisco, um inseto nas paredes, no assoalho, nos móveis. (...) Além disso, havia os vizinhos. Eram uns folgadoes, pediam a Zana que eu lhes fizesse um favorzinho (...). Nunca davam dinheiro para o transporte, às vezes nem agradeciam.”

O fato de Nael ser um agregado familiar e habitante desse entre-lugar potencializa um olhar crítico sobre o que narra, já que ele não se encontra em uma posição fixa nem naturalizada.

Nael termina por subverter o papel social subalterno que lhe havia sido destinado ao torna-se professor do Liceu e também por ter se distanciado de todos que sobreviveram da família, como mostram o trecho abaixo:

“Mas bem antes de sua morte [Zana], há uns cinco ou seis anos, a vontade de me distanciar dos dois irmãos foi muito mais forte do que estas lembranças.”[7]

Ele rompe também pelo fato de ter sido ele o responsável pela narrativa da história da família, ele é o narrador que em busca de sua paternidade vive o desmonoramento familiar, mas só sobrevive por romper com as identidades que lhe foram destinadas. Como ele mesmo diz na penúltima página do livro:

“Desde a partida de Zana eu havia deixado ao furor do sol e da chuva o pouco que restara das árvores e trepadeiras. Zelar por essa natureza significava uma submissão ao passado, a um tempo que morria dentro de mim.”[8]

Nael prefere, assim, uma identidade nova que surge desse entre-lugar, a partir da ressignificação da sua história, do seu cotidiano e da sua subjetividade.

[1] ROSA, Guimarães. A terceira margem do rio. Disponível em: . Acesso em 16 de novembro de 2008.
[2] HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Compainha das Letras, 2008. pág. 86.
[3] Ibid. Pg. 137.
[4] HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Compainha das Letras, 2008. pág. 54.
[5] Ibid. pág. 60.
[6] Ibid. pág. 182.
[7] Ibid. pág. 196.
[8] Ibid. pág. 197.

Um comentário:

Tatiana disse...

Uh, que chique! Se vc não tivesse avisado, eu não ia achar que o da foto era vc... Vc tem o livro do Dahmer?
Agora que já sei que vc é um leitor compulsivo, vou colocar mais livros (rs).
bjs