sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O ANTICLERICALISMO NAS OBRAS “A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES”, DE EÇA DE QUEIROZ E “NAÇÃO CRIOULA: A CORRESPONDÊNCIA SECRETA DE FRADIQUE MENDES”

Fradique Mendes é um heterônimo literário coletivo de escritores portugueses do final do século XIX. Esse grupo de escritores formado por Eça de Queiroz, Antero de Quental e Jaime Batalha ficou conhecido na historiografia literária portuguesa como a “Geração de 70”. O objetivo do grupo era modernizar o país e tirá-lo do atraso intelectual, social, literário e político em que se encontrava.

Portugal, nessa época, era uma sociedade em crise quanto ao modelo liberal, era um país fortemente agrário, que estava à margem das nações européias já industrializadas, avançando a passos lentos rumo à modernidade. Nesse período ainda havia uma grande promiscuidade institucional entre o Estado português e a Igreja, e para esses escritores a Igreja representava um dos principais entraves a revolução cultural e à modernização que estava sendo proposta. Assim, o sentimento de anticlericalismo tornar-se muito forte entre eles, já que a Igreja era vista como um dos responsáveis por esse atraso.

Quando Eça de Queiroz constrói o seu Fradique Mendes no livro A Correspondência de Fradique Mendes é possível perceber esse sentimento anticlerical muito forte no personagem, já que há no livro uma crítica explícita à Igreja Católica.

No século XX, Fradique ganha uma nova vida através da obra Nação Crioula: A Correspondência Secreta de Fradique Mendes do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Ao tomar emprestado o personagem do livro de Eça, Agualusa realiza uma releitura das sociedades angolanas, brasileiras e portuguesas e também do próprio Fradique – como o próprio subtítulo sugere, há algo que ficou escondido e agora precisa ser dito.

No livro, o escritor angolano subverte o discurso do personagem e uma série de questões que ficaram apagadas ou foram negativizadas no primeiro romance são agora mostradas e/ou positivadas. Porém, mesmo assim, persiste no livro um tom anticlerical.

O objetivo desse artigo, então, é avaliar como se dá esse sentimento anticlerical nas duas obras já citadas, em que medida esse anticlericalismo presente nas obras se aproximam, em que medida se afastam e, principalmente, quais são as causas da emergência desse discurso.

Para tornar a questão mais clara estabeleço uma comparação entre os padres presentes nas obras, já que estes indivíduos podem representam metonimicamente a própria instituição religiosa. São eles: o padre Salgueiro, personagem de Eça e, o padre Nicolau dos Anjos, personagem de Agualusa.

O anticlericalismo em “A Correspondência de Fradique Mendes”, de Eça de Queiroz.

Como ficou dito acima, o período de produção do livro de Eça foi um período de grande instabilidade econômica, política, social e cultural em Portugal. Enquanto a maior parte dos Estados europeus já tinham feito a Revolução Industrial e a separação definitiva entre Estado e Igreja – eventos típicos da modernidade – Portugal ainda era fortemente agrário e a Igreja ainda exercia uma influência muito forte na Monarquia que governava o país.

Portugal também ficou de fora na divisão da África que foi feita pelos países imperialistas na Conferência de Berlim, perdendo o direito sobre antigos monopólios e perdendo também territórios no continente africano. Tudo isso agravou ainda mais a insatisfação social no país e a Monarquia passou a ser questionada pela sua ineficiência, situação que se agravou após o ultimato inglês. A Igreja por conta das suas relações promíscuas com o Estado português terminou por se tornar um catalisador desse descontentamento generalizado.

É nesse clima de descontentamento com o Estado português e com a Igreja que emerge a figura de um Fradique anticlerical. Construído como um modelo de português do século XIX, ele é na verdade um pouco de cada um dos amigos de Eça. Sua caracterização mostra que ele não é qualquer português, é um homem-modelo que discute com propriedade filosofia, arte, política, ciência, religião, culinária, etc, praticamente todo e qualquer assunto. Suas opiniões estão, assim, sempre referendas pelo grande conhecimento que detém e também pelo reconhecimento dos seus pares.

Mas Fradique é também um proto-etnógrafo e como tal um grande curioso sobre a história das sociedades pelas quais passeia e vive, como estudioso da história das religiões, chega a viver com os babistas na Pérsia para observar como nasce e como se funda uma religião. Ele termina por resumir a religião, como mostra os trechos abaixo, ao cerimonial e a liturgia.

“Fradique concluía (como mostra numa carta desse tempo a Guerra Junqueiro) que na religião o que há de real, essencial, necessário e eterno é o cerimonial e a liturgia - e o que há de artificial, de suplementar, de dispensável, de transitório é a teologia e a moral” (QUEIROZ, 113).

“Em todos os climas, em todas as raças, ou divinizando as forças da Natureza, ou divinizando a alma dos mortos, as religiões, amigo meu, consistiram sempre praticamente num conjunto de práticas, pelas quais o homem simples procura alcançar da amizade de Deus os bens supremos as saúde, da força, da paz, da riqueza” (QUEIROZ, 139-140).

Essa caracterização de Fradique, enquanto estudioso e proto-etnógrafo, acrescenta mais um tom de verdade às suas críticas, já que o conhecimento dele é referendado não só por aquilo que ele leu, mas também pelo que ele viveu e experienciou.

Os momentos em que observo uma postura anticlerical mais acentuada estão nas cartas V e XIV. Porém, nesse momento, analisarei apenas a carta V, já que a carta XIV, vai ser discutida a partir do Padre Salgueiro, no próximo tópico.

Na carta V, as críticas estão dirigidas ao povo português e à religião em si, para Fradique a relação do povo com o divino se dá através de formas institucionalizadas historicamente e não através de uma lei moral ou espiritual. Observemos o que ele diz a Guerra Junqueira:

“Só por estes ritos, e não pelo cumprimento moral da lei moral, se propicia a Deus – isto é, se alcançam d´Ele os dons inestimáveis da saúde, da felicidade, da riqueza, da paz. (...) tudo se resume em propiciar Deus por meio de práticas que o cativem. Não há aqui teologia, nem moral. Há o ato do infinitamente fraco querendo agradar ao infinitamente forte. E se V., para purificar este catolicismo, eliminar o padre, a estola, as galhetas e a água benta, todo o rito e toda a liturgia – o católico imediatamente abandonará uma religião que não tem Igreja visível, e que não lhe oferece os meios simples e tangíveis de se comunicar com Deus, de obter d´Ele os bens transcendentes para a alma e os bens sensíveis para o corpo. O catolicismo nesse instante terá acabado, milhões de seres terão perdido o seu Deus. A Igreja é o vaso de que Deus é o perfume. Igreja partida – Deus volatilizado” (QUEIROZ, 142)

Fradique aponta para os jogos de poder que manipulam a religiosidade do povo, mostrando que a superficialidade dessa relação povo-Deus só fortalece o poder temporal da Igreja. Pelo que foi dito acima, sobre as relações promíscuas entre Estado e Igreja, podemos dizer que a crítica a instituição religiosa representa também uma crítica ao Estado português.

“Nem o catolicismo, nem o budismo vão por, este fato, em enorme decadência. Ao contrário! Estão no seu estado natural e normal de religião. Uma religião, quanto mais se materializa, mais se populariza – e, portanto, mas se diviniza. (...) Quero dizer que, quanto mais se desembaraça dos seus elementos intelectuais de teologia, de moral, de humanitarismo, etc., repelindo-os para as suas regiões naturais que são a filosofia, a ética e a poesia, tanto mais coloca o povo face a face com seu Deus, numa união direta e simples, tão fácil de realizar que, por um mero dobrar de joelhos, um mero balbuciar de padres nossos, o homem absoluto que está no Céu vem ao encontro do homem transitório que está na Terra. Ora este é o fato essencialmente divino da religião. E quanto mais se materializa – mais ela na verdade se diviniza” (QUEIROZ, 143)

Fradique fala também da opulência com que vivia o clero em Portugal, há uma ironia muito forte ao dizer que a vivenda em que um grupo de clérigos morou já estava totalmente preparada para a profanidade. Há aí uma denúncia da corrupção dos valores entre os religiosos, Fradique chega a dizer que a casa se espiritualizou mais com a saída dos sacerdotes. Vejamos os trechos:

“De sorte que não houve necessidade de alterar esta vivenda, quando de religiosa passou a secular. Estava já sabiamente preparada para a profanidade – e ávida que nela então se começou a viver não foi diferente da do velho convento, apenas mais bela, porque, livre das contradições do espiritual e do temporal, a sua harmonia se tornou perfeita” (QUEIROZ, 189-190)

“só desde que não pertence a uma ordem espiritual é que esta casa se espiritualizou” (QUEIROZ, 192).

O padre Salgueiro

O padre Salgueiro é um tipo que fisicamente não se diferencia dos outros religiosos, ele é tido como um modelo fiel da classe eclesiástica portuguesa, na sua origem e também na sua maneira de pensar, sentir e agir. Caracterizado dessa forma posso encará-lo como uma metonímia da própria Igreja, assim, as críticas que Fradique dirige a ele são na verdade críticas a toda a instituição. Vejamos como Fradique o define:

“Com efeito, por fora, na casca, padre Salgueiro é o costumado e corrente padre português, gerado na gleba, desbravado e afinado depois pelo seminário, pela frequentação das autoridades e das secretarias, por ligações de confissão e missa com fidalgas que têm capela, e sobretudo por longas residências em Lisboa, nestas casas de hospedes da Baixa, infestada de literatura e política. (...) tudo nele pertence a essa forte plebe agrícola donde saiu, e que ainda hoje em Portugal fornece á Igreja todo o seu pessoal, pelo desejo de se aliar e de se apoiar à única grande instituição humana que realmente compreende e de que não desconfia. Por dentro, porém, como miolo, padre Salgueiro apresenta toda uma estrutura moral deliciosamente pitoresca e nova para quem, como eu, do clero lusitano só entrevira exterioridades (...).” (QUEIROZ, 197-198)

Fradique dessacraliza a vocação sacerdotal ao mostrar como o padre concebe o sacerdócio, para o padre Salgueiro o sacerdócio é uma função civil e não espiritual, ele trabalha como qualquer outro funcionário do governo e entende que presta serviços ao Estado e não ao Céu – ele esqueceu que cumpre uma função espiritual. A descrição desses fatos é marcada pela ironia, o padre esqueceu até mesmo a significação teológica e espiritual do casamento, vejamos:

“Que ele, por continuação de uma obra divina, esteja obrigado a consolar dores, pacificar inimizades, dirigir arrependimentos, ensinar a cultura da bondade, adoçar a dureza dos egoísmos, é para o benemérito padre Salgueiro a mais estranha e incoerente das novidades! (...) outro tanto seria exigir de um verificador da Alfândega que moralizasse e purificasse o comércio. Esse santo empreendimento pertence aos santos. E os santos, na opinião de padre Salgueiro, formam uma casta, uma aristocracia espiritual, com obrigações sobrenaturais que lhes são delegadas e pagas pelo Céu. Muito diferentes se apresentam as obrigações de um pároco! Funcionário eclesiástico, ele só tem a cumprir funções rituais em nome da Igreja, e, portanto, do Estado que a subsidia.” (QUEIROZ, 201).

O padre Salgueiro também é mostrado como alguém que desconhece a própria origem do cristianismo, ele também não se sente ligado ao Papa, mas, apesar disso, é alguém que cumpre fielmente as suas funções (civis), vejamos no livro:

“Padre Salgueiro imagina que o cristianismo se fundou de repente, num dia (decerto um domingo), por milagre flagrante de Jesus Cristo – e desde essa festiva hora tudo para ele se esbate numa treva incerta, onde vagamente reluzem nimbos de santos e tiaras de papas, até pio IX. Não admira, porém, na obra pontificial de Pio IX, nem a infalibilidade, nem o Syllabus – porque se preza de liberal, deseja mais progresso, bendiz os benefícios da instrução” (QUEIROZ, 200).

“Não condena e repele a mulher com cólera, como os Santos Padres – até a venera, se ela é econômica e virtuosa. Mas o regulamento da Igreja proíbe a mulher: ele é um funcionário eclesiástico, e a mulher portanto não entra nas suas funções. É rigidamente casto. Não conheço maior respeitabilidade do que de padre Salgueiro” (QUEIROZ, 202).

O sacerdócio era uma formação tradicional em Portugal, os padres eram tidos como propagadores da fé e da civilização, mas mensageiro da fé é uma função que o padre Salgueiro não reconhece como sendo dele, ou seja, ou a Igreja em Portugal não pensa mais dessa forma ou, pelo menos, não se comporta mais dessa forma.

Com a ironia típica de Eça o padre é descrito como alguém preocupado exclusivamente com o seu sucesso profissional, para isso ele maneja bem eleições – ao gosto dos seus superiores – e também lhes presta todo o tipo de favores. Fradique resume a empreitada do padre Salgueiro para o sucesso profissional da seguinte forma:

“As suas ocupações, segundo observei, consistem muito logicamente, como empregado (além das horas dadas aos deveres litúrgicos), em procurar melhoria de emprego. Pertence por isso a um partido político – em Lisboa, três noites por semana, toma chá em casa do seu chefe, levando rebuçados às senhoras. Maneja habilmente eleições. Faz serviços e recados, complexos e indescritos, a todos os diretores-gerais da Secretaria dos Negócios Eclesiásticos” (QUEIROZ, 202).

Fradique acha ironicamente que a nomeação desse pároco para cônego é justa, já que ele é um cumpridor exemplar das suas funções. Porém, ele é um cumpridor exemplar das suas funções junto ao Estado português e não a Jesus ou à Igreja na sua forma tradicional.

“Ouço que vai ser nomeado cônego. Larguissimamente o merece. Jesus não possui melhor amanuense” (QUEIROZ, 203).

Fradique ao mostrar o total descompasso entre as funções ditas como religiosas e as funções que a Igreja exercia naquele momento, ao mostrar a promiscuidade entre os assuntos de fé e os assuntos de Estado, faz uma crítica feroz à organização da Igreja e da própria sociedade portuguesa. A Igreja perdeu o seu sentido, representando apenas um entrave à modernização portuguesa.

O anticlericalismo em “Nação Crioula: A Correspondência Secreta de Fradique Mendes”, de José Eduardo Agualusa

Agualusa ao recuperar o personagem Fradique Mendes, busca fazer uma revisão da história de Angola, do Brasil e de Portugal, revalorizando e ressignificando raízes culturais angolanas e brasileiras que foram apagadas ou negativizadas pelo Fradique de Eça. Para isso, ele desloca a visão européia do personagem para uma visão mais angolana e mais brasileira.

No prefácio do livro, Hermano Vianna revela as motivações que levaram Agualusa a escrever o livro, diz ele:

“Agualusa me contou que entre os motivos que levaram-no a escrever Nação Crioula estava o desejo de repensar a grande e intensa relação entre Angola e o Brasil, incluindo aí a importância dessa relação para a constante recriação das identidades culturais brasileiras e angolanas contemporâneas” (AGUALUSA, 08).

A história ganha, assim, um novo olhar, uma nova formação de sentido, baseada, agora, nas realidades angolanas e brasileiras. Fradique, assim, emerge da necessidade de ser revisitar o passado colonial angolano. Iara Franco Rodrigues, na sua dissertação de mestrado A (Re)Construção da Identidade Nacional em A Correspondência...., resume bem a questão. Diz ela:

“Agualusa busca, por meio da ficção, romper com as barreiras do colonialismo e preencher as fissuras pela possibilidade de autodescoberta de uma nação capaz de revisar a sua história”. (FRANCO RODRIGUES, 57).

Visibilizando apenas o anticlericalismo no livro, encontramos uma carta enviada a Eça de Queiroz em que Fradique ironiza o papel da igreja em África e rechaça a idéia tradicional de que a Igreja estava ali para levar fé e a própria civilidade, diz ele:

“Os nossos políticos gostam de dizer que estamos em África para civilizar os selvagens e propagar a mensagem de Cristo - tretas! Foi o impulso biológico da propagação da raça que empurrou as caravelas portuguesas” (AGUALUSA, 133)

A crítica à Igreja e mesmo a Deus, na obra de Agualusa, é muito mais dura que na obra de Eça. Em um diálogo entre Victorino Vaz de Caminha e Fradique Mendes, narrado por Ana Olímpia, os dois personagens fazem duras críticas à idéia de Deus. Para Victorino, Deus é a verdadeira escravidão, assim narra Ana:

“O meu marido, trocista, explicou-lhe que ao enviar Africanos para o Brasil estava secretamente a preparar a revolução: <

“<<(...) Quanto à morte de Deus estou tentado a concordar consigo. Satanás, o primeiro livre pensador, incitou o homem a desobedecer a Deus e a comer o fruto da ciência, e dessa forma mostrou-nos o caminho da libertação. O problema é que a liberdade total assusta o Homem. Não significa outra coisa a fábula de Deus e do Diabo.>>” (142)

Percebemos nesses dois parágrafos como o autor ressignifica a questão religiosa: Victorino ao atribuir à idéia de Deus a verdadeira escravidão inverte a lógica européia e negativiza a idéia do cristianismo como fonte propagadora de civilidade e; de forma contrária ele positiviza os africanos que não estão (ainda) subjugados a essa idéia européia. Victorino atribui uma marca negativa ao discurso cristão, revertendo a posição em que ele tradicionalmente é/foi lido, como representante de idéias humanistas e do processo civilizatório europeu.

O padre Nicolau dos Anjos

Inicialmente o padre Nicolau dos Anjos não é alvo de críticas, já que ele é um padre que apesar de seguir a tradição cristã européia está mergulhado na vida cultural e religiosa angolana. Nicolau dos Anjos, nas palavras do próprio Fradique, é um dos homens mais interessantes e mais virtuosos de Angola.

O padre Nicolau, então, não serve para criticar a instituição, já que ele não se comporta como desejava a Igreja. Apesar dele se achar ligado ao Papa, ele se distancia das orientações católicas por não ser um padre moderno, Nicolau, na verdade, ainda está ligado às velhas tradições místicas do cristianismo. Agualusa na crítica que dirige à Igreja recupera e aprofunda a ironia de Eça, vejamos:

“Nicolau dos Anjos partiu para o Vaticano a mando do próprio Papa. Sua Santidade terá ouvido falar dos muitos prodígios que, com tanta imprudência, anda cometendo pelos sertões de Angola o nosso comum amigo, e ficou inquieto e enfadado. Isto não me contou o infeliz Nicolau, é claro, mas foi o que pude concluir dos seus silêncios e meias-palavras. O velho Pio IX sabe que vivemos no século da luz, da ciência, do cepticismo, e que a Igreja, para ser moderna, deve romper com o Milagre, com o seu remoto passado de catacumbas e magia. A Igreja, para ser contemporânea, não pode permitir que em seu nome andem feiticeiros a ressuscitar defuntos, a devolver a vista aos cegos, a multiplicar paezinhos ou a transformar a água em quissângua fresca; estas coisas podiam fazer-se há dois mil anos atrás, e eram admiradas, mas hoje atentam contra a seriedade e o bom nome das instituições – ninguém imagina, por exemplo, a Rainha Victória a passear descalça e devota sobre as águas do Tamisa!

Nicolau dos Anjos vai pois ao Vaticano porque Sua Santidade o quer menos virtuoso, e menos digno do afecto do seu povo. Sua Santidade desejaria que ele se mantivesse longe do mundo, e Benguela ainda é demasiado perto (talvez o mande para Pernambuco!)” (QUEIROZ, 112-113).”

Há no trecho acima todo um jogo de inversão positivo / negativo, que serve para reler a história da Igreja Católica em África. O padre Nicolau é positivado por estar ligado às origens cristãs, entretanto é visto negativamente pela Igreja. Já a Igreja é negativizada por punir alguém que vive próximo das suas origens e da mesma forma é negativizada por ter se distanciado das suas idéias originais.

Padre Nicolau dos Anjos está próximo de Jesus, ele é milagreiro e, por isso, é conhecido e respeitado em toda a Angola, e por essa mesma razão, ele torna-se perigoso para o Vaticano e por isso é preciso silenciá-lo. É Fradique que nos conta um dos milagres do padre:

“Mais tarde escutei a um pombeiro o confuso relato de uma caçada ao hipopótamo. Segundo percebi um dos caçadores, ferido no estômago pelo disparo acidental da própria arma, ficou estendido no capim, morto ou à espera da morte. Quem apareceu, porém, foi Nicolau dos Anjos: <>, disse passando a mão direito pelo corpo do infeliz, <>. Obedecendo à ordem (é realmente difícil não obedecer a uma ordem do padre) o caçador levantou-se e tomou o caminho da cidade, onde chegou já vivo” (QUEIROZ, 32).

Somente Victorino dirige críticas ao padre Nicolau e ainda o enxerga como representante da Igreja, dessa forma ele dirige ao padre as críticas que tem à instituição, Victorino como bom leitor de Proudhon e Bakunin não podia pensar diferente, ele diz:

“O padre e Victorino odiavam-se respeitosamente. Eu explico-me: Nicolau odiava Victorino porque este passava o tempo a fazer troça da Igreja, lia Proudhon e Baudelaire, jurava que ainda havia de enforcar o último padre com as tripas do último burguês. Por outro lado, admirava-lhe a coragem, a firmeza de carácter, o facto de sempre se colocar ao lado dos Angolenses, negros e mestiços, quando havia algum confronto com os Portugueses. Victorino, em contrapartida, odiava o padre pelo simples facto de usar batina, e ainda mais o odiava por ser bonapartista, reaccionário, inimigo declarado da corrente naturalista na literatura. Ao mesmo tempo prezava nele o amor ao próximo, o desprendimento pelas coisas terrenas, o fervor com que se dedicava à educação do povo” (QUEIROZ, 148).

Considerações Finais

As duas obras analisadas discutem o papel da Igreja na sociedade, mas enquanto o Fradique de Eça discute a importância dessa instituição na sociedade portuguesa, o Fradique de Agualusa discute a importância na sociedade angolana, temos, então, um deslocamento geográfico ao olhar para a Igreja e para a sua atuação.

O Fradique de Eça discute principalmente a promiscuidade das relações entre Igreja e Estado, é contra essa relação que Fradique vai dirigir as suas principais críticas. Já o Fradique de Agualusa discute principalmente a atuação da Igreja em África, atribuindo-lhe um sentido negativo ao associar à idéia de Deus a escravidão do homem.

O discurso anticlerical de Eça emerge da necessidade de se modernizar Portugal e a Igreja é vista como um entrave à modernidade, já o discurso anticlerical de Agualusa emerge da necessidade de se revisitar o passado colonial de Angola, atribuindo-lhe um novo sentido, não mais europeu e sim africano.

Enquanto o Fradique de Eça critica a opulência da Igreja e o distanciamento dessa com o povo português, o Fradique de Agualusa aproxima a igreja – na figura do padre Nicolau – da vida cotidiana angola, não lhe atribuindo um sentido negativo, ao contrário, o padre Nicolau é alguém que defende os interesses dos angolanos.

O padre Salgueiro recebe críticas como se ele próprio fosse a Igreja, Eça nos mostra o distanciamento do padre e, conseqüentemente, da Igreja das questões espirituais e a aproximação da instituição religiosa com questões exclusivamente políticas.

Enquanto o padre Salgueiro desconhece a origem do cristianismo e se distancia cada vez mais dele, o padre Nicolau atua como se fosse o próprio Jesus, realizando milagres e defendendo o povo angolano.

Por fim, no livro de Eça o padre Salgueiro receberá uma promoção – será nomeado cônego – justamente por ter se afastado do cristianismo originário, enquanto isso, no livro de Agualusa, o padre Nicolau é silenciado exatamente por se aproximar desse cristianismo originário, um cristianismo místico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUALUSA, José Eduardo. Nação Crioula: A Correspondência Secreta de Fradique Mendes. Rio de Janeiro: Geyphus, 2008.

QUEIROZ, Eça. A Correspondência de Fradique Mendes. Porto Alegre: L&PM, 2008.

FRANCO RODRIGUES, Iara Regina. A (Re)Construção da Identidade Nacional em A Correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queirós, e Nação Crioula: A Correspondência Secreta de Fradique Mendes. Disponível em: < sequence="1">. Acesso em 22 de novembro de 2008.

GOMES THIMÓTEO, Maria Natália. Fradique Mendes e o Ideário da “Geração de 70”. Disponível em: <>. Acesso em: 20 de novembro de 2008.

SOARES FONSECA, Maria Nazareth. Fradique Mendes nas rotas do Atlântico Negro. Disponível em: . Acesso em 20 de novembro de 2008.

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