quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

No inferno de Dante

Na Divina Comédia de Dante ainda estou no inferno, mas já me preocupa saber que tipo de gente vive no purgatório ou pior ainda que tipo de gente vive no Paraíso. Serão lugares despovoados? Será terra de animais? Onde estará Deus que não o encontro no inferno?

Por enquanto, rio ao ler sobre os sodomistas. São dois curtos capítulos, porém extremamentes simbólicos por dois motivos: a) em todos os outros cantos do inferno, Dante ouviu relatos dos condenados, exceto no terceiro recinto do Sétimo Círculo. Ou seja, os "crimes" dos sodomitas são os únicos inenarráveis... o que Dante temia para não narrar esse pedacinho aconchegante do inferno?; b) outro ponto curioso é que existe mesmo no inferno um grande armário para os sodomitas. Observem o diálogo entre Dante e Brunetto: "Continuei conversando com Brunetto enquanto caminhava. Pedi que indicasse os mais famosos de seus companheiros; ele atendeu: "Quanto a alguns deles, farei como pedes. A respeito, porém, da maioria, é louvável deixá-los no silêncio...""

Essa tradição do armário pelo jeito é beeeeeeeem antiga.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A LITERATURA GAY DE NELSON LUIS DE CARVALHO

INTRODUÇÃO

O presente artigo traça um olhar sobre o primeiro livro publicado por Nelson Luiz de Carvalho. O Terceiro Travesseiro foi lançado em 1998 e atualmente está na décima terceira edição com mais de duzentas e trinta mil cópias vendidas, além disso, foi adaptado em 2005 para o teatro, ficando quatro meses em cartaz no eixo Rio-São Paulo com a direção de Regiana Antonini.

A categorização dessa obra no ramo da literatura gay atende exclusivamente as denominações mercadológicas, não abarcando nenhuma teoria essencialista sobre uma escrita ou uma estética gay. Ressalta-se porém que o livro trata ainda que superficialmente de temas pouco abordados na literatura brasileira, por exemplo, a homofobia e a saída do armário.

Ainda que tênue as relações entre realidade e ficção, chama atenção na obra de Nelson Luiz de Carvalho – o mesmo ocorre no seu outro livro, Apartamento 41 – o fato dos personagens serem pessoas conhecidas do autor. Sobre O Terceiro Travesseiro, Nelson em entrevista declara a existência de uma continuação da obra ainda não publicada - O Dia Seguinte - em que relata como vivem os personagens atualmente.

Neste artigo, traço um pequeno resumo do enredo para depois levantar alguns pontos que considero importantes na obra. Como instrumento teórico para essa análise utilizo alguns conceitos criados e/ou aprofundados pela teoria queer, por exemplo, heteronormatividade, normalização e narrativa de revelação.

O TERCEIRO TRAVESSEIRO

O livro conta a história do triângulo amoroso formado por três adolescentes brancos e de classe média alta: Marcus, Renato e Beatriz. Marcus e Renato são dois amigos de colégio que se apaixonam e passam a namorar, para concretizar a relação amorosa eles resolvem sair do armário para as respectivas famílias. Nesse momento conflituoso surge Beatriz, uma ex-namorada de Renato que termina se apaixonando por Marcus e acaba engravidando dele. Eles assumem então uma relação sexual e amorosa vivida a três até que Renato morre em um acidente de carro.

O ARMÁRIO

O primeiro ponto da narrativa que chama a atenção é a saída do armário dos personagens Marcus e Renato. Essa, aliás, é uma temática que quase sempre envolve os personagens não heterossexuais, ou seja, a presença desses personagens nas narrativas quase sempre envolve a confissão da sua identidade sexual. Isso é até justificável, já que é a partir dessa confirmação/afirmação que se acirra o choque entre a sociedade heterossexual e os indivíduos não heterossexuais, mas é também tematicamente redutor, já que a presença desses personagens parece sempre reduzida às suas confissões sexuais.

Essa saída do armário não é nunca absoluta e na verdade está bem longe disso, a revelação da homossexualidade dos jovens se restringe ao círculo familiar mais próximo: os pais e os irmãos. Fora da espera privada das famílias o tema é mantido em segredo e os garotos aceitam manter esse fingimento social. Os meninos não querem subverter nenhuma ordem, querem apenas a aceitação dos pais. Suas aspirações não são nem de libertação e nem de resistência e sim de tolerância familiar.

Esses dois personagens passam a viver conformados com a nova situação familiar e a antiga situação pública, em que eles mascaram a relação amorosa. Estranhamente o personagem Marcus, em diálogo direto com o leitor, parece incitar uma saída do armário mais ampla, mas que na verdade ele não realiza e não questiona no seu cotidiano.

“fiquei imaginando quantos caras deviam sentir o que eu sentia. Mas que, por vergonha ou sei lá o quê, preferiam viver uma vida mentirosa, ou pior ainda, uma vida totalmente sem-graça.”[1]

Na verdade, a vida de Marcus e de Renato continua a ser uma “mentira”, já que é necessário manter as aparências nos outros ambientes que não seja o doméstico. Mesmo quando Beatriz passa a morar com os dois e eles passam a viver uma relação a três, para o mundo exterior trata-se sempre de um casal heterossexual que divide o apartamento com um amigo.

HOMOFOBIA

A homofobia também é um assunto que quase nunca é discutido na literatura brasileira, poucos são os livros que abordam diretamente o tema. É através da saída do armário de Marcus e de Renato que a homofobia é abordada no livro.

Na família de Marcus, a notícia é recebida com o choro da mãe e com violência física e verbal pelo pai. Porém, durante a narrativa o pai passa a conviver bem com a homossexualidade do filho, enquanto que a mãe arma constantemente aproximações e jogos de sedução entre o filho e Beatriz, além de apelar para padres e pais de santo para “curá-lo”.

Na família de Renato, a notícia é recebida com mais agressividade. O pai chega a dar uma facada no filho e ele vai parar no hospital. Nesse momento, apesar de ser um tema pouco explorado pela narrativa, vemos os jogos de mascaramento das violências domésticas, em que o próprio violentado assume a culpa da agressão e justifica dessa forma a conduta do agressor.

As famílias que passam a tolerar a relação entre os dois jovens impõem um código de performatividade heterossexual que é aceito pelos dois. Eles não devem em lugar nenhum demonstrar uma relação afetiva que seja diferente da amizade entre dois homens heterossexuais. Na festa de aniversário de Marcus, por exemplo, quando ele vai oferecer o primeiro pedaço do bolo, a mãe desmaia só de imaginar que o primeiro pedaço pode ser dedicado a Renato, fato que chamaria a atenção de outros parentes.

O preconceito no livro, na verdade, não é resolvido e também não é muito problematizado, apesar de ser um dos temas principais da narrativa. Os personagens são simplesmente tolerados desde que se mantenham dentro de um modelo e de uma performatividade heterossexual.

“A ceia de Natal transcorreu quase que normalmente. Percebi que meus pais já se sentiam bem mais à vontade comigo e com o Renato. No fundo, esse alívio vinha do fato de nem eu nem ele darmos bandeira da nossa situação. Realmente nós parecíamos apenas amigos.”[2]

Os personagens também pensam em saídas clichês e românticas caso eles não sejam aceitos pelos pais, porém se conformam com a tolerância familiar.

“Eu prefiro não pensar nisso, Renato, mas se acontecer e você gostar de mim do jeito que eu gosto de você, só teria um jeito, cara, colocar a mochila nas costas e meter o pé na estrada.”[3]

HETERONORMATIVIDADE E NEGAÇÃO DA DIFERENÇA

A afirmação da normalidade dos personagens, ou seja, de uma performatividade heterossexual é uma constante no livro, fato que implica o tempo todo na negação de comportamentos afeminados. Estabelece-se assim uma hierarquia em que comportamentos próximos a um padrão tido culturalmente como masculino são valorizados, enquanto que comportamentos mais afetados são desvalorizados. Vejamos alguns exemplos:

“E tem mais, Renato, nós não somos afeminados e nunca seremos.”[4]

“Sabe, pai, continuo sendo a mesma pessoa, estudo, tenho boa educação, respeito os mais velhos, não fumo, não uso drogas e não sou promíscuo. Sabe, pai, apesar de sentir o que sinto, eu sou homem. Nunca vou me vestir de mulher. Nunca vou querer usar uma calcinha. Eu gosto de ser homem.”[5]

“É interessante como as pessoas fazem juízo errado de caras como eu. Quando se pensa em alguém assim, logo se imagina que o cara gosta de se vestir de mulher, gosta de ‘dar’ e gosta de qualquer homem, e isso, pelo menos para mim, não é verdade.”[6]

Os personagens também vivem dentro de papéis sexuais fixos, em que um realiza a posição de ativo e o outro a posição de passivo. Além disso, eles reproduzem o modelo de uma relação heterossexual monogâmica e na verdade Beatriz só se torna amante de ambos depois que ela engravida. Vejamos:

“Em relação a outros homens, somos religiosamente fiéis um ao outro.”[7]

O livro também é extremamente romântico, nele temos um casal, nesse caso composto por dois homens, que está em choque com a sociedade. Por isso, declarações de amor eterno sobram no livro. Não precisaria ser lembrado, que essa idéia de fidelidade e também de eternidade da relação amorosa foi criada na sociedade e reproduzida na literatura mundial para um casal heterossexual.

“Observando-o dormir de bruços e quase nu naquela imponente cama, me veio a certeza de que, por mais difícil que fosse, eu estaria disposto a enfrentar tudo e todos para poder viver com ele ao meu lado para sempre.”[8]

“Definitivamente, nós nascemos um para o outro. Para mim não existe vida sem ele.”[9]

CONCLUSÔES

Apesar de tratar de temas ligados ao universo não-heterossexual, os personagens estão inseridos dentro de um modelo heteronormativo, tanto na performatividade de gênero dos personagens como na construção das relações amorosas, há uma supervalorização da relação monogâmica e fiel, reproduzindo modelos românticos heterossexuais.

A afirmação da normalidade dos personagens e a conseqüente desvalorização da afetação também cria hierarquias dentro da comunidade gay. Se a literatura de Nelson Luiz de Carvalho é gay, então devemos acrescentar um outro adjetivo, assim, mercadologicamente falaríamos então em uma literatura gay heteronormativa.

BIBLIOGRAFIA

LUIZ DE CARVALHO, Nelson. O Terceiro Travesseiro. São Paulo, Mandarim, 2000.

RANIERI, Gustavo. Entrevista: Nelson Luiz de Carvalho. Disponível em: <http://gonline.uol.com.br/site/arquivos/estatico/gnews/gnews_entrevista_24.htm>. Acesso em: 14 de novembro de 2009.



[1] LUIZ DE CARVALHO, Nelson. O Terceiro Travesseiro. São Paulo, Mandarim, 2000, p. 15.

[2] Ibid. Pág. 34.

[3] Ibid. Pág. 15.

[4] Ibid. Pág. 11.

[5] Ibid. Pág. 21.

[6] Ibid. Pág. 8.

[7] Ibid. Pág. 12.

[8] Ibid. Pág. 14.

[9] Ibid. Pág. 24.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

URGENTE

POLNa próxima terça-feira (12) será um dia muito importante para a população LGBT do Brasil, dia em que irá à votação no Senado a PLC 122/2006.


Você é favorável à aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que torna crime o preconceito contra homossexuais?

Vote em:
http://www.senado.gov.br/agencia/default.aspx?mob=0


PS: Acompanhem depoimentos de deputados e senadores via youtube!!!!

sábado, 31 de outubro de 2009

livros digitais já

a tecnologia de imprimir textos em papel (livros, jornais, revistas, etc) é ultrapassada e deve ser superada. essa afirmação soará bastante apocaliptica para alguns, principalmente para aqueles que trabalham direta ou indiretamente com o texto impresso. não quero dizer com isso que devemos fazer uma caça as bruxas contra as grandes bibliotecas e os pequenos colecionadores. não pensem em fahrenheit 451, ok? longe disso... acho inclusive que lugar de livros impressos é na biblioteca. estou defendendo sim! a popularização e o barateamento de tecnologia que facilite a leitura de livros não impressos (digitais). a impressão de livros e a forma como nós os utilizados enquanto construção da cultura deve ser superada por tecnologias mais limpas e acessíveis.

quando eu digo tecnologia limpa, estou pensando na quantidade de energia que desperdiçamos para imprimir um livro. pensemos no seu ciclo de produção mesmo na sua forma ecologicamente correta: árvores são plantadas, água é gasta para que essas árvores cresçam, fertilizantes químicos são utilizados para melhorar a qualidade do solo, o solo é empobrecido a longo prazo, energia é gasta para transformar a árvore em papel, essa mesma indústria polui a natureza, principalmente rios (temos inúmeros exemplos no Brasil) e, por fim, a maior parte desse papel vira lixo e uma ínfima parte tem uma longevidade maior nas bibliotecas ou é reciclada. e reinicia-se o ciclo de destruição.

ecologicamente e culturalmente essa destruição deve ser superada, pensemos: o escritor ou o jornalista hoje utiliza quase sempre um computador para escrever, porque esse livro precisa necessariamente virar impressão? se tivermos uma tecnologia que não permita alterações no livro e que tenha algum tipo de autenticação e catalogação; se tivermos uma ferramenta mais poderosa que o pdf, teremos superado o problema das alterações nos originais; se tivermos uma tecnologia que facilite o transporte e o armazenamento de inúmeros livros; se essa tecnologia permitir encontrar palavras (o famoso Ctrl + F) e permitir também marcar o texto sem alterá-lo... para quê precisaremos de livros impressos? além de tudo, esse tipo de tecnologia acarretaria necessariamente um barateamento desse bem cultural.

os puristas irão me falar e para isso evocarão até clarice lispector (felicidade clandestina) para falar do prazer do tato com o livro, do cheiro do livro, etc. calma pessoal! eu tenho sido até aqui bastante radical talvez. pensemos: o mp3 destruiu o vinil? acabou com o cd? o vhs acabou com o cinema? o avi destruiu o dvd? não, né? penso que o mesmo possa ser feito com livros impressos: que eles virem bens para colecionadores e que se mantenham acervos de livros impressos em bibliotecas. para as pessoas que precisam do tato e do cheiro do livro (geração que pode ser superada por outras gerações que passem a utilizar o livro basicamente no formato digital) o livro poderia continuar sendo produzido, temos o exemplo, atualmente, das editoras digitais. como elas funcionam? para aqueles que desejam o livro impresso, basta acessar o site e fazer o pedido. o livro, então, é impresso especialmente para aquela pessoa. além disso, poderiamos continuar mantendo o acervo impresso em bibliotecas públicas. porque e para quê isso? sabemos que tecnologias digitais são falíveis e caso (teoria da conspiração) haja alguma pane no sistema? nesse caso, contaríamos ainda com o acervo das bibliotecas públicas. o homem também não esqueceria como produzir livros impressos, né? ainda que se mantenha a impressão de livros para bibliotecas e para colecionadores, o livro digital popularizado através de tecnologias limpas e baratas implicaria em uma destruição menor do meio ambiente e em uma acessibilidade facilitada a alguns cliques do mouse.

os argumentos contra tudo que tenho dito cairão então na sobrevivência do escritor. como iria sobreviver esse escritor? pensemos: no caso de revistas e jornais, a publicidade garante a receita e a sobrevivência desses meios. inclusive, a maior parte dos jornais, hoje, disponibiliza gratuitamente seu conteúdo quase sempre na totalidade no espaço virtual. esses veículos de comunicação não faliram, estão sim passando por uma fase de reestruturação. no caso dos livros de literatura ou técnicos, poderíamos pensar, então, em bolsas de incentivo para escritores. isso já acontece. inúmeros escritores conseguem parar as suas vidas para escreverem livros através de bolsas do governo, sejam pesquisadores ou literatos. ou seja, uma política de incentivos mais valorizada e mais popular manteria ativo os escritores. ok... é isso mesmo... o estado continuará a ser o mecenas, pelo menos por enquanto. o debate está aberto para se pensar outras formas de sobrevivência. esse problema também poderia ser solucionado através da cobrança online do download desses livros, eu não considerei essa possibilidade nesse texto porque acredito que o livro será gratuito, assim como o mp3 e o avi é e deverá continuar a ser.

paro por aqui e continuo esperando novas críticas ao fim dos textos impressos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

você já foi a baía? - 1944


no auge da política de boa vizinhança norte-americana com a américa latina foi lançado no brasil "você já foi a baía?", em 1944, famoso desenho animado em que pato donald passeia por uma américa latina exótica e esquisita como diz a narração do desenho animado ou melhor um passeio "lá no fim do mundo".

sobre a bahia, zé carioca a descreve como uma cidade com ar romântico, música e garotas. no desenho encontramos as imagens clássicas do elevador lacerda, os casarões antigos, as ladeiras, uma floresta exótica ao redor da igreja do bonfim. mas o que mais chama atenção são as baianas de acarajé todas brancas e os malandros músicos, vendedores de frutas ou capoeiristas igualmente brancos. a baía é uma cidade que dança. uma cidade mítica.




quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Bahia que GIl e Caetano não cantaram - Gato Preto

GATO PRETO
A BAHIA QUE GIL E CAETANO NÃO CANTARAM


Iludidos, vê só quem chegou
Pode me chamar de Gato Preto, o invasor
Vou mostrar a Bahia que Gil e Caetano nunca cantaram
Bahia regada a sangue real
Que jorra com intensidade em época de Carnaval

Falo do pescador que sai às três da manhã
Pedindo força a Iemanjá e a Iansã
Sai cortando as águas do mar da vida
Querendo pescar uma solução, uma saída

A Bahia da guerreira baiana que chora
Que travou uma luta e perdeu na batalha seu filho pra droga
Bahia do ser que vive de migalhas, esmolas
E água sem cloro no seu rosto jorra

Bahia da queda dos morros, barracas dos Alagados
Bahia do descaso, descamisados, desabrigados
Falo da venda do voto, do voto comprado
ACM domina com chicote na mão e dinheiro do lado

A noite foi fria, só que agora o sol está quente
O Que não esquenta é o coração dessa gente
Que não se revolta contra a ordem predatória
ACM domina com chumbo, moeda e palmatória

Desordem, desgraça, desamor, desemprego,
Descaso, disparate, danos, desespero
O poder baiano é doentio, processo
Quer disperder, manter o povo disperso

Separado, abandonado, longe aniquilado
Mentalmente algemado em cárcere privado
Mantendo o povo no curral tipo gado
Assim, com certeza garante o seu eleitorado

Não falo da beleza, da Barra, Pituba, Pelô
De praias lindas, de Porto Seguro, Ilhéus, Salvador
Da praça Castro Alves, Mercado Modelo, Elevador
Da história de Mãe Menininha, Mãe Dulce e Dona Canô
Não falo da moça bela nas ondas do mar que Caymmi narrou

Relato o sofrimento da escravidão, do negro nagô
Da política perversa que o meu povo escravizou
Lembro da lavadeira, do lavrador
Do Velho Chico e do pescador

Falo da prostituição infantil que aumentou
Da Bahia que o cartão-postal nunca mostrou
A Bahia do mercado informal, do camelô
Essa é a Bahia que Bethânia nunca cantou

Vem conhecer a Bahia, sou um guia diferente
Mostro a verdadeira cara da nossa gente
Vai ver que não é só Carnaval, praia e acarajé
Vai ver o que é não ter alimento e manter-se de pé
Bahia de Todos os Santos? Besteira
Olho meu povo se alimentando de restos de feira

Terra de jagunço, polícia assassina
Quantas mães perderam filhos nessa guerra fria?
Bahia titanic, Bateau Mouche
Educação, política séria não se discute

Vem comigo, calma, eu lhe mostro logo
O lugar que as crianças morreram fabricando fogos
Somos náufragos nesse mar vermelho
E os botes salva-vidas são só para quem tem dinheiro

Olha só a ilusão daquele bobo
Pensa que aqui é só mulher, samba e água de coco
Acredita no que a tevê passa, deve tá louco
Ele não sabe que a maioria aqui passa sufoco

Saudades de Betinho, um grande homem
Não esqueço da campanha contra a fome
Ele dizia: “Onde come um, dois também comem”
Solidariedade, vida, cidadania

Estas rosas morrem logo, se fossem eternas quem diria?
Se florescessem nos corações dos corruptos da Bahia...
Não posso ficar batendo o tambor, se sofreu o nego banto
Terra do meu herói, saudoso Milton Santos

Terra de mortes, crimes encoberto
Terra de riquezas pra poucos, miséria pro resto
Terra de cultura e rico dialeto
Os ignorantes dizem que o linguajar é incorreto

Bahia de coreografia pornográfica
Criança de doze anos excita magnata
Quando ele vê ela rebolando na garrafa
Cenas exibidas aos domingos na tela mágica

Jorge, Gabriela, Cravo e Canela
Ilhéus, becos, buracos, barracos, taperas
Linda, formosa, tão bela
Tiros, policiais, drogas, favela

Espantosa tradição, atos absurdos
Quantas cabeças foram decapitadas em Canudos?
Engenho, seca, senhores, político, coronel
Trabalho escravo infantil em grande escala ou a granel

Turista, pega a câmara, vamos passar no farol
Mas não no Farol da Barra, do trânsito
Preparem-se, a visão é triste, causa espanto
Olhos famintos, pés descalços, pretos e brancos
Numa frase infeliz ouvi dizer que a Bahia é de todos os santos

O cronista a que se chama Gato Preto
Nascido em Ilhéus, no cento do gueto
Pele escura, olhos vermelhos, cabelos crespos
Antepassado africano, descendente negro
Pane, Extremamente salve do gueto
Todos descendentes do mesmo povo preto

A intenção é mostrar a verdadeira cara da minha terra
Sem inverdades, maquiagens, cenas de novelas
Desculpas pelas rimas pobres, poesia rúsica
Mas essa é a Bahia que Gil e Caetano não cantam em suas músicas.

GATO PRETO nasceu em Ilhéus, BA, e pertence à família do grupo de Rap GOG e ao grupo Extremamente, de Cordel Urbano

IN: Literatura Marginal. Talentos da escrita periférica. Organização Ferrez. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

vera verão


Estou escrevendo um trabalho sobre o ator Jorge Lafond ou melhor estou escrevendo um artigo sobre o personagem Bob Bacall interpretado pelo ator na novela Sassaricando. Nas minhas vasculhadas no Google encontrei duas informações que compartilho aqui:

a) Segundo alguns sites, o padre Marcelo Rossi teria causado a morte do ator. Exageros ou não... o fato é que em 10 de novembro de 2002 o ator participou de um quadro "Homens x Mulheres" do progama Domingo Legal. Segundo seu empresário, o padre Marcelo Rossi que seria a próxima atração do programa solicitou a retirada do ator do palco por ele ser homossexual e candomblecista. Lafond foi retirado do palco e uma semana depois passou por uma série de internações, sendo diagnosticado com depressão, crise renal, respiratória, etc... e morreu logo depois. É claro que o padre não matou Lafond até porque se ele fosse morrer vítima de preconceito já teria morrido muito antes... mas é bom sabermos disso, para pensarmos na suposta santidade do padre Marcelo Rossi. É bom que se divulgue esse tipo de comportamento do padre Marcelo Rossi e de tantos outros que nos agridem simbolicamente e fisicamente todos os dias!

b) A outra notícia é que Jorge Lafond teria se oferecido ao Ministério da Saúde para filmar uma campanha de prevenção a AIDS, melhor... uma campanha sobre camisinha. Uma série de grupos organizados (GGB, etc) se colocaram contra por considerar Jorge Lafond um perpetuador de um esteriótipo gay, serviria ele como um modelo do que o gay não é ou não deveria ser. Eu celebro a fexação de Lafond, celebro a sua diferença e sua coragem. Existem milhões de Lafond nas ruas e nos armários de Salvador e do Brasil e prefiro o seu jeito debochado e escroto do que a representação institucional que se pretende criar da comunidade LGBT, coisas do tipo: "somos normais, casamos, somos monogâmicos, podemos adotar, fazemos papai-mamãe, etc"

Por isso tudo, obrigado boneca! Obrigado Lafond!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Mear y Cagar


BASURA Y GÉNERO. MEAR/CAGAR. MASCULINO/FEMENINO
Por Beatriz Preciado

Más acá de las fronteras nacionales, miles de fronteras de género, difusas y tentaculares, segmentan cada metro cuadrado del espacio que nos rodea. Allí donde la arquitectura parece simplemente ponerse al servicio de las necesidades naturales más básicas (dormir, comer, cagar, mear..) sus puertas y ventanas, sus muros y aberturas, regulando el acceso y la mirada, operan silenciosamente como la más discreta y efectiva de las "tecnologías de género."(1)

Así, por ejemplo, los retretes públicos, instituciones burguesas generalizadas en las ciudades europeas a partir del siglo XIX, pensados primero como espacios de gestión de la basura corporal en los espacios urbanos (2) , van a convertirse progresivamente en cabinas de vigilancia del género. No es casual que la nueva disciplina fecal impuesta por la naciente burguesía a finales del siglo XIX sea contemporánea del establecimiento de nuevos códigos conyugales y domésticos que exigen la redefinición espacial de los géneros y que serán cómplices de la normalización de la heterosexualidad y la patologización de la homosexualidad. En el siglo XX, los retretes se vuelven auténticas células públicas de inspección en las que se evalúa la adecuación de cada cuerpo con los códigos vigentes de la masculinidad y la feminidad.

En la puerta de cada retrete, como único signo, una interpelación de género: masculino o femenino, damas o caballeros, sombrero o pamela, bigote o florecilla, como si hubiera que entrar al baño a rehacerse el género más que ha deshacerse de la orina y de la mierda. No se nos pregunta si vamos a cagar o a mear, si tenemos o no diarrea, nadie se interesa ni por el color ni por la talla de la mierda. Lo único que importa es el GÉNERO.

Tomemos, por ejemplo, los baños del aeropuerto George Pompidou de Paris, sumidero de desechos orgánicos internacionales en medio de un circuito de flujos de globalización del capital. Entremos en los baños de señoras. Una ley no escrita autoriza a las visitantes casuales del retrete a inspeccionar el género de cada nuevo cuerpo que decide cruzar el umbral. Una pequeña multitud de mujeres femeninas, que a menudo comparten uno o varios espejos y lavamanos, actúan como inspectoras anónimas del género femenino controlando el acceso de los nuevos visitantes a varios compartimentos privados en cada uno de los cuales se esconde, entre decoro e inmundicia, un inodoro. Aquí, el control público de la feminidad heterosexual se ejerce primero mediante la mirada, y sólo en caso de duda mediante la palabra. Cualquier ambigüedad de género (pelo excesivamente corto, falta maquillaje, una pelusilla que sombrea en forma de bigote, paso demasiado afirmativo…) exigirá un interrogatorio del usuario potencial que se verá obligado a justificar la coherencia de su elección de retrete: "Eh, usted. Se ha equivocado de baño, los de caballeros están a la derecha." Un cúmulo de signos del género del otro baño exigirá irremediablemente el abandono del espacio mono‐género so pena de sanción verbal o física. En último término, siempre es posible alertar a la autoridad pública (a menudo una representación masculina del gobierno estatal) para desalojar el cuerpo tránsfugo (poco importa que se trate de un hombre o de una mujer masculina).

Si, superando este examen del género, logramos acceder a una de las cabinas, nos encontraremos entonces en una habitación de 1x1,50 m2 que intenta reproducir en miniatura la privacidad de un váter doméstico. La feminidad se produce precisamente por la sustracción de toda función fisiológica de la mirada pública. Sin embargo, la cabina proporciona una privacidad únicamente visual. Es así como la domesticidad extiende sus tentáculos y penetra el espacio público. Como hace notar Judith Halberstam "el baño es una representación, o una parodia, del orden doméstico fuera de la casa, en el mundo exterior" (3).

Cada cuerpo encerrado en una cápsula evacuatoria de paredes opacas que lo protegen de mostrar su cuerpo en desnudez, de exponer a la vista pública la forma y el color de sus deyecciones, comparte sin embargo el sonido de los chorros de lluvia dorada y el olor de las mierdas que se deslizan en los sanitarios contiguos. Libre. Ocupado. Una vez cerrada la puerta, un inodoro blanco de entre 40 y 50 centímetros de alto, como si se tratara de un taburete de cerámica perforado que conecta nuestro cuerpo defecante a una invisible cloaca universal (en la que se mezclan los desechos de señoras y caballeros), nos invita a sentarnos tanto para cagar como para mear. El váter femenino reúne así dos funciones diferenciadas tanto por su consistencia (sólido/líquido), como por su punto anatómico de evacuación (conducto urinario/ano), bajo una misma postura y un mismo gesto: femenino=sentado. Al salir de la cabina reservada a la excreción, el espejo, reverberación del ojo público, invita al retoque de la imagen femenina bajo la mirada reguladora de otras mujeres.

Crucemos el pasillo y vayamos ahora al baño de caballeros. Clavados a la pared, a una altura de entre 80 y 90 centímetros del suelo, uno o varios urinarios se agrupan en un espacio, a menudo destinado igualmente a los lavabos, accesible a la mirada pública. Dentro de este espacio, una pieza cerrada, separada categóricamente de la mirada pública por una puerta con cerrojo, da acceso a un inodoro semejante al que amuebla los baños de señoras. A partir de principios del siglo XX, la única ley arquitectónica común a toda construcción de baños de caballeros es esta separación de funciones: mear‐de pie‐urinario/cagar‐sentado‐inodoro. Dicho de otro modo, la producción eficaz de la masculinidad heterosexual depende de la separación imperativa de genitalidad y analidad. Podríamos pensar que la arquitectura construye barreras cuasi naturales respondiendo a una diferencia esencial de funciones entre hombres y mujeres. En realidad, la arquitectura funciona como una verdadera prótesis de género que produce y fija las diferencias entre tales funciones biológicas. El urinario, como una protuberancia arquitectónica que crece desde la pared y se ajusta al cuerpo, actúa como una prótesis de la masculinidad facilitando la postura vertical para mear sin recibir salpicaduras. Mear de pie públicamente es una de las performances constitutivas de la masculinidad heterosexual moderna. De este modo, el discreto urinario no es tanto un instrumento de higiene como una tecnología de género que participa a la producción de la masculinidad en el espacio público. Por ello, los urinarios no están enclaustrados en cabinas opacas, sino en espacios abiertos a la mirada colectiva, puesto que mear‐de‐pie‐entre‐tíos es una actividad cultural que genera vínculos de sociabilidad compartidos por todos aquellos, que al hacerlo públicamente, son reconocidos como hombres.

Dos lógicas opuestas dominan los baños de señoras y caballeros. Mientras el baño de señoras es la reproducción de un espacio doméstico en medio del espacio público, los baños de caballeros son un pliegue del espacio público en el que se intensifican las leyes de visibilidad y posición erecta que tradicionalmente definían el espacio público como espacio de masculinidad.

Mientras el baño de señoras opera como un mini‐panópticon en el que las mujeres vigilan colectivamente su grado de feminidad heterosexual en el que todo avance sexual resulta una agresión masculina, el baño de caballeros aparece como un terreno propicio para la experimentación sexual. En nuestro paisaje urbano, el baño de caballeros, resto cuasi‐arqueológico de una época de masculinismo mítico en el que el espacio público era privilegio de los hombres, resulta ser, junto con los clubes automovilísticos, deportivos o de caza, y ciertos burdeles, uno de los reductos públicos en el que los hombres pueden librarse a juegos de complicidad sexual bajo la apariencia de rituales de masculinidad.

Pero precisamente porque los baños son escenarios normativos de producción de la masculinidad, pueden funcionar también como un teatro de ansiedad heterosexual. En este contexto, la división espacial de funciones genitales y anales protege contra una posible tentación homosexual, o más bien la condena al ámbito de la privacidad. A diferencia del urinario, en los baños de caballeros, el inodoro, símbolo de feminidad abjecta/sentada, preserva los momentos de defecación de sólidos (momentos de apertura anal) de la mirada pública. Como sugiere Lee Edelman (4), el ano masculino, orificio potencialmente abierto a la penetración, debe abrirse solamente en espacios cerrados y protegidos de la mirada de otros hombres, porque de otro modo podría suscitar una invitación homosexual.

No vamos a los baños a evacuar sino a hacer nuestras necesidades de género. No vamos a mear sino a reafirmar los códigos de la masculinidad y la feminidad en el espacio público. Por eso, escapar al régimen de género de los baños públicos es desafiar la segregación sexual que la moderna arquitectura urinaria nos impone desde hace al menos dos siglos,: público/privado, visible/invisible, decente/obsceno, hombre/mujer, pene/vagina, de‐pie/sentado, ocupado/libre…

Una arquitectura que fabrica los géneros mientras, bajo pretexto de higiene pública, dice ocuparse simplemente de la gestión de nuestras basuras orgánicas. BASURA>GÉNERO. Infalible economía productiva que transforma la basura en género. No nos engañemos: en la máquina capital‐heterosexual no se desperdicia nada. Al contrario, cada momento de expulsión de un desecho orgánico sirve como ocasión para reproducir el género. Las inofensivas máquinas que comen nuestra mierda son en realidad normativas prótesis de género.

(1). Utilizo aquí la expresión de Teresa De Lauretis para definir el conjunto de instituciones y técnicas, desde el cine hasta el derecho pasando por los baños públicos, que producen la verdad de la masculinidad y la feminidad. Ver: Teresa De Lauretis, Technologies of Gender, Bloomington, Indiana University Press, 1989.

(2).Ver: Dominique Laporte, Histoire de la Merde, Christian Bourgois Éditeur, Paris, 1978; y Alain Corbin, Le Miasme et la Jonquille, Flammarion, Paris, 1982.

(3). Judith Halberstam, "Techno‐homo: on bathrooms, butches, and sex with furniture," in Jenifer Terry and Melodie Calvert Eds., Processed Lives. Gender and Technology in the Everyday Life, Routledge, London and New York, 1997, p.185.

(4). Ver: Lee Edelman, "Men's Room" en Joel Sanders, Ed. Stud. Architectures of Masculinity, New York, Princeton Architectural Press, 1996, pp.152‐161.


fonte: http://espaciogayesquel.blogspot.com/2008/02/basura-y-genero-mearcagar.html

terça-feira, 29 de setembro de 2009

sassaricando

Em 1988, a Globo exibe às 19h a telenovela Sassaricando. Por conta de um trabalho que estou fazendo, tenho assistido a telenovela. Assistido e me assustado. Os discursos homofóbicos e sexistas povoam a novela de Silvio de Abreu.

Tem publicitário que precisa arranjar um homem para uma campanha de cuecas e vai até a praia para achar uma bunda ideal para o trabalho. O discurso machista então impregna toda as cenas, se materializando em piadinhas, ou em frases do tipo: "O que minha mãe iria pensar de mim se me visse procurando bunda de homem?". Ou quando o publicitário escolhe uma bunda mas depois descobre que é uma mulher o seu amigo diz: "Ainda bem... já tava achando que você estava entusiasmado demais". E dá-lhe discurso do abjeto na continuação da cena.

Em outra cena, o personagem de Paulo Autran para conquistar a personagem de Irene Ravache vai se matricular na escola FEMINA. Uma escola que ensina às mulheres coisas como: boas maneiras a mesa, corte e costura, etiqueta, maquiagem, penteado, cozinha, etc. Entra, então, o discurso da secretária do local que nega a matrícula pra ele: "O que se ensina aqui não interessa pra homem."

Na trama, os papéis femininos estão bem divididos de acordo com a classe social: existem as mulheres golpistas (caça-marido) e as mulheres que trabalham porque precisam.... direto do túnel do tempo!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

caos soteropolitano

depois de 1h30 no trajeto garibaldi-garibaldi (aproximadamente 2km) dentro de um ônibus lotado decidi descer e andar mais 1h pra chegar em casa... resultado do trajeto 10 pintadas e 16 peitadas e um quase banho de lama de um land rover.

ainda existe aquela lei da faixa exclusiva de ônibus? se existe virou lenda... a transalvador (responsável pelo trânsito em salvador) depois que virou uma fábrica de produzir multas... agora só investe no bafômetro... é o que dá mais lucro atualmente.

mesmo assim, tá na hora de pensarmos em rodizio de carros em salvador... pq a parte da população que só anda de carro está entupindo essa cidade.... se 70% das pessoas andam de ônibus diariamente... o que tem demais esses outros 30% andarem de ônibus 1 vez por semana?

sábado, 22 de agosto de 2009

Ninete: a trava-madrinha de Tieta do Agreste

NINETE: A TRAVA-MADRINHA DE TIETA DO AGRESTE:
A REPRESENTAÇÃO DA TRAVESTI NINETE NA NOVELA TIETA

Resumo

Este artigo faz parte de uma pesquisa realizada em conjunto pelo grupo de pesquisa CUS (Cultura e Sexualidade), orientado pelo professor-doutor Leandro Colling, que objetiva analisar representações não heterossexuais nas novelas da rede Globo. Neste artigo, analiso a representação da travesti Ninete, interpretada pela também travesti Rogéria, na novela Tieta. A novela apresenta um discurso dúbio que varia entre intolerância e respeito à diferença e recorre à imagem estereotipada da travesti associada à prostituição. Por fim, Ninete, ou melhor, Rogéria é a travesti da família brasileira, por isso, assexuada.

Palavras-chave: Travesti – Representações Identitárias – Novela – Teoria Queer

Introdução

A novela brasileira, principalmente, da rede Globo, é um produto cultural com grande disseminação territorial e de grande impacto social, atingindo e repercutindo nas pessoas independentemente de classe, sexo, cor da pele, idade, credo, etc. Por esses motivos, analisar as representações de grupos ditos minoritários em telenovelas é uma boa forma de enxergar as relações de poder entre identidades culturais dominantes e identidades culturais não-dominantes

Segundo Hall (2000), as identidades devem ser entendidas como construções discursivas que emergem nas relações de poder e são o produto da marcação da diferença e da exclusão. Hall citando Butler acrescenta ainda a idéia de que todas as identidades funcionam por meio da exclusão, por meio da construção discursiva de um exterior constitutivo e da produção de sujeitos abjetos e marginalizados. Nesse contexto, grupos não heterossexuais tendem a ser tomados como abjetos, enquanto grupos heterossexuais são vistos como identidades positivas e privilegiadas.

Então, a pesquisa realizada em conjunto pelo grupo CUS (Cultura e Sexualiade), integrado ao CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura), da Universidade Federal da Bahia, sob a orientação do professor-doutor Leandro Colling, objetiva traçar um panorama geral das representações não heterossexuais nas telenovelas globais, para a partir dos estudos dessas representações propor políticas públicas.

Para LOURO (2004), a visibilidade e a materialidade desses sujeitos parecem significativas por evidenciarem, mais do que outros, o caráter inventado, cultural e instável de todas as identidades.

A partir da revisão e da atualização de outras metodologias de análise, COLLING criou a metodologia Aquenda!, para ser aplicada nesta pesquisa, objetivando uma descrição analítica das personagens não heterossexuais.

O presente artigo, então, trata de analisar a personagem Ninete, presente na telenovela Tieta, de Aguinaldo Silva, e interpretada pela também travesti Rogéria. Como afirma BARBOSA (2008), as práticas travestis denunciam que não há uma simetria dada entre sexo, gênero e sexualidade, mostrando que esta coerência é fabricada para o propósito de uma heterossexualização compulsória do corpo. E acrescenta que ao fazer na prática o gênero, por meio de perfomances repetidas, as travestis se fazem mulher, e colocam em forma de paródia de gênero, o caráter performativo e artificial de gênero. É necessário, deixar claro que a paródia nem sempre é subversiva e sim dependente do contexto.

Além disso, acrescentam PELUCIO & MISKOLCI que as travestis, diferentemente das drags-queens não vivem personagens, ainda que, como aquelas, denunciem (mesmo que sem uma intecionalidade) que o gênero é sempre construção e aprendizado.

Análise

Dados gerais do produto

Título: Tieta

Direção Geral: Paulo Ubiratan

Direção: Reynaldo Boury, Ricardo Waddington e Luís Fernando Carvalho

Autores: Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares

Elenco principal: Betty Faria (Tieta), José Mayer (Osnar), Joana Fomm (Perpétua), Reginaldo Faria (Ascânio), Lídia Brondi (Leonora), Yoná Magalhães (Tonha), Arlete Salles (Carmosina), Cássio Gabus Mendes (Ricardo), Ary Fontoura (Coronel Artur da Tapitanga), Paulo Betti (Timóteo), Elisa (Tássia Camargo).

Elenco mais diretamente ligado com a temática homossexual: Rogéria (Ninete/Valdemar), Betty Faria (Tieta), Lídia Brondi (Leonora), Paulo Betti (Timóteo) e Yoná Magalhães (Tonha).
Tempo de exibição: Primeira exibição: 14 de agosto de 1989 a 31 de março de 1990. No total, foram 196 capítulos, exibidos sempre às 20h. Cada capítulo tinha uma duração de aproximadamente 45 minutos. A novela foi reprisada no programa Vale a pena ver de novo, entre os dias 19 de setembro de 1994 a 07 de abril de 1995, sempre às 14:20h, em 145 capítulos. Foi também exibida no México, Peru, Chile, Guatemala, Portugal, República Dominicana, Uruguai e outros países.

Resumo do enredo e algumas considerações
Tieta é a segunda novela das oito a ser exibida após o fim da censura e também é a segunda novela em números no Ibope, segundo ranking contabilizado e divulgado por Aguinaldo Silva no seu blog , com os dados do Ibope. A novela é inspirada no romance Tieta do Agreste, de Jorge Amado, que foi publicado em 1977.

A estrutura formal de uma telenovela se caracteriza por ser uma narrativa formada por múltiplas histórias paralelas, por isso empreender o resumo desse tipo de narrativa é algo que demanda um poder de síntese impossível de se realizar em poucas páginas. Então, trarei ao resumo apenas os aspectos mais relevantes da personagem que dá título ao romance e à telenovela.

Tieta do Agreste (Betty Farias) nasceu na pacata cidade de Santana do Agreste, onde vive com o pai, o avarento Zé Esteves (Sebastião Vasconcelos), com a jovem madrasta Tonha (Yoná Magalhães), com a invejosa irmã Perpétua (Joana Fomm) e com a irmã caçula e ainda bebê Elisa (interpretada quando adulta por Tássia Camargo).

Santana do Agreste é uma cidade conservadora do interior baiano, cortada por um rio que leva ao Mangue Seco, região habitada principalmente por pescadores e pastores que é habitualmente utilizada como pastagem de cabras. A cidade é descrita muitas vezes, pelos próprios personagens que vivem no local, como o fiofó do mundo ou como o lugar onde o Judas perdeu as botas. Isso porque não existem boas estradas para a região, somente uma estrada de barro e de dunas liga Santana do Agreste à vizinha Esplanada e, somente um ônibus realiza esse trajeto, ou melhor, somente a marinete de Jairo (Elias Gleizer) faz a ligação entre Santana do Agreste e o resto do Brasil (Esplanada). Além da dificuldade de acesso, a cidade não possui energia elétrica, fato que a isola ainda mais do restante do Brasil.

Tieta é uma adolescente liberal demais para os padrões da pequena cidade, ela é pastora de cabras e costuma circular sempre pela região do Mangue Seco, onde se deita com alguns homens e é desejada por tantos outros. Até que um dia, seu pai, Zé Esteves, com a ajuda de Perpétua, sua irmã, a surpreende na cama com um homem. Era demais para a moral do velho, a sua atitude, então, foi escorraçá-la da cidade. Puxada pelos cabelos e sob muitos gritos, Tieta é colocada na marinete do Jairo com uma única ordem, levá-la para bem longe. Poucas pessoas a ajudaram, somente Tonha, que se agarrou à enteada, impedindo as cajadadas de Zé Esteves, assim como Dona Milú (Miriam Pires) e Carmosina (Arlete Salles), que apartaram a briga e entregaram todo o dinheiro que tinham em mãos para a amiga.

Tieta vai para São Paulo e depois de passar por todo tipo de privação consegue ficar rica. É nesse período de grandes privações que ela conhece Ninete (Rogéria). As duas eram prostitutas em São Paulo, mas Ninete, mais antiga no ramo, ajuda a Tieta e praticamente a adota. Até que por uma grande sorte do destino, Tieta torna-se rica e dona de um bordel no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Ela decide então se vingar da cidade que a humilhou e a expulsou.

Durante dez anos, ela envia dinheiro para a família regularmente. Os parentes passam a pedir cada vez mais dinheiro e, para isso, inventam filhos que morreram, sobrinhos que estudam em escolas pagas, etc. Tieta alimenta a ganância dos parentes a distancia até que vinte cinco anos depois ela volta para cumprir seu plano de vingança.

Na sua volta, todos que condenavam seus hábitos passam a admirá-la, principalmente, por ter se tornado uma mulher rica. Tieta muda os hábitos da cidade, ela traz luz para Santana do Agreste graças aos seus contatos com homens influentes e passa a distribuir presentes, principalmente eletrodomésticos, para quase todos os moradores. Mas Tieta também está preocupada em ajudar algumas pessoas, por exemplo, a madrasta Tonha, a irmã Elisa (Tássia Camargo) e a amiga Carmosina.

Para ajudar Elisa, ela resolve investir no negócio do marido da irmã, para isso manda Timóteo (Paulo Betti) a São Paulo. Na cidade grande, ele é recepcionado pela personagem Ninete, a fada madrinha de Tieta do Agreste, ela é responsável pelos negócios de Tieta, mas também por “refinar” os amigos dela. É ela que vai apresentar, em São Paulo, novas oportunidades de negócio para o acanhado comércio de Timóteo.

Ninete é uma espécie de procuradora, ou melhor, uma espécie de faz tudo, conselheira amorosa, conselheira financeira, conselheira de etiqueta, ela resolve todos os problemas de Tieta, desde problemas na bolsa de valores até surras em inimigos da amiga.
Para Tonha, Tieta manda vir de São Paulo a sua fada madrinha Ninete, ela vem para trazer notícias dos negócios de Tieta e também para também levar Tonha para São Paulo, que se constrói em oposição a Santana do Agreste como a civilização.

Para Carmosina, Tieta manda vir o prestamista Gladstone (Paulo José), uma espécie de vendedor ambulante, e paga pra ele tirar a virgindade da amiga. Gladstone termina fazendo mais do que isso, ele se apaixona e engravida Carmô. Quando esta descobre que o amante foi pago para estar com ela, eles brigam e se separam, mas após o nascimento da filha voltam a ficar juntos.

Em Santana do Agreste, Tieta se envolve sexualmente com o sobrinho Cardo (Cássio Gabus Mendes) e com Osnar (José Mayer).

Arturzinho da Tapitanga/Mirkos Stephano (Marcos Paulo), filho do Coronel Artur da Tapitanga (Ary Fontoura), retorna à cidade com planos de instalar uma fábrica no Mangue Seco que irá poluir toda a região. Enquanto ele vai tramando a destruição da cidade, Tieta começa a desistir do seu plano de vingança. Quando os dois personagens abrem o jogo um pro outro sobre o que estão fazendo ali, Tieta decide lutar contra Arturzinho, lutar para que a cidade não seja destruída. Mas Arturzinho faz muitos inimigos em Santana do Agreste e termina sendo assassinado por ordem do próprio pai, o coronel da Tapitanga.

Perpétua revela o segredo de Tieta para todo mundo (é rica não porque se casou com um homem que lhe deixou uma fortuna após morrer, e sim por ter um bordel em São Paulo), mas ela não tem como provar. No final, Tieta acaba voltando para São Paulo e depois uma tempestade de arreia aterra toda a cidade.

Aspectos fixos dos personagens homossexuais: “Posição do personagem no enredo: se é principal, coadjuvante, se faz ponta, figuração, citada ou recorrida.” (Moreno, 2001, p.167).
Ninete é a personagem mais aguardada da novela, enquanto Tieta foi comentada em dezessete capítulos até o seu aparecimento já adulta em Santana do Agreste, Ninete foi falada durante vinte e cinco capítulos, ou seja, por mais de um mês os personagens da novela comentaram sobre a misteriosa Ninete e tiveram que aguardar em clima de suspense a sua chegada a Santana do Agreste.

No primeiro diálogo sobre a personagem, já fica subentendido que o mistério dela tem algo a ver com a sua sexualidade. É Tieta que confusa tenta explicar o mistério sobre Ninete, ainda nesse capítulo ela diz para Elisa: E tenho... um procurador que é uma procuradora... uma pessoa da maior qualidade que se chama Ninete.

Para todos os telespectadores já estava claro a confusão, isto porque a participação da travesti Rogéria já era divulgada na mídia nessa época. Porém, para os personagens da trama, o mistério só foi esclarecido vinte e oito capítulos depois.

A personagem Ninete é coadjuvante, ela aparece sempre ligada a Tieta, resolvendo os problemas que esta não pode resolver, é a trava-madrinha do agreste. Ela é falada durante vinte e cinco capítulos, depois aparece em somente quatro e após a sua despedida ela aparece apenas como citação.

“Contexto social do personagem: a que classe ele pertence” (Moreno, 2001, p.167):
Como a maioria das representações de travestis no Brasil, Ninete é uma personagem ligada ao mundo da prostituição. Ela conheceu Tieta fazendo vida, depois, com o enriquecimento de Tieta, passa a cuidar do bordel da amiga e a administrar outros negócios. Sua classe social não é bem definida, mas diria que varia entre classe média alta e classe alta.

Cor:
Parda.

Profissão:
Ex-prostituta, ela passa a trabalhar como uma espécie de braço direito de Tieta, resolvendo todos os seus problemas, desde surras em inimigos até negociações com políticos para trazer luz elétrica para Santana do Agreste.

Aspectos da linguagem utilizada e da composição geral do personagem:

Tipos de gestualidade:
1) estereotipada, com gestual explícito que caracteriza de forma debochada e desrespeitosa à personagem homossexual;
2) gestualidade típica de alguns sujeitos queer, especialmente os adeptos de um comportamento/estética camp;
3) não estereotipada (gestual considerado “normal” e “natural”, sem indicação de homossexualidade, inscrito dentro de um comportamento heterossexual);
Ninete é uma personagem claramente queer, por isso se encaixa no grupo 2. “Queer é tudo isso: é estranho, raro, esquisito. (...) Queer é um corpo estranho, que incomoda, perturba, provoca e fascina.” (Louro, 2004, Págs. 7-8). Sua estética é camp, seus trejeitos lembram as grandes divas do cinema clássico de Hollywood: sua boca está sempre fazendo biquinho e os ombros estão sempre encolhidos. Sua chegada em Santana do Agreste é escandalosa: o carro pára na praça da cidade, o motorista abre a porta, Ninete estende a mão, há um close na mão da personagem, os homens da cidade se entreolham, o motorista lhe dá a mão e ela desce.

Sua performatividade de gênero está tão fora do padrão bipolar homem x mulher que imediatamente após a sua chegada em Santana do Agreste todos começam a comentar que há algo estranho em Ninete. Por exemplo, o diálogo abaixo entre Osnar (José Mayer) e Amintas (Roberto Bonfim):
Osnar: O que é que tu acha... hein?
Amintas: Homi... tem alguma coisa errada com essa dona que eu não sei o que é.
O: Mas eu aposto que tu vai descobrir... não vai?
A: Oxe... ou eu não me chamo Amintas.

“Subgestualidade: compreende o vestuário, maquiagem e adereços utilizados/usados pela personagem” (Moreno, 2001, p. 167):
Ninete é uma diva, por isso as primeiras palavras que fala são em francês, ela pede para ir ao toalete, dá gritinhos e depois fala que está Mooooorta. Suas roupas são esvoaçantes e geralmente monocromáticas, ela chega toda de rosa à cidade. Seus brincos e óculos são grandes, seu cabelo loiríssimo está sempre bem armado, suas unhas são grandes e vermelhas, sua boca carnuda está sempre com batom bastante vermelho. Pode-se dizer que a sua roupa favorece o tom camp da personagem.

Análise de seqüências: “É um recurso para detalhar mais as ações de um filme (em nosso caso a telenovela ou as peças) e explicitar o seu conteúdo de forma minuciosa, como diante de uma lente de aumento.” (Moreno, 2001, p. 168):

Analiso duas seqüências da novela que considero muito importantes para definir o papel de Ninete dentro da trama de Aguinaldo Silva.

Primeiro, como de praxe em grande parte das novelas que trazem personagens não heterossexuais, podemos afirmar que a personagem Ninete faz parte de uma narrativa de revelação. Confirmo essa hipótese com duas cenas.

Segundo Colling, em seu artigo Personagens homossexuais nas telenovelas..., a narrativa de revelação é a única história que pode ser contada por personagens não heterossexuais, ou seja, a presença dos homossexuais nas historias apenas envolvia a suspeita de suas orientações, que é revelada somente próximo ou no final das tramas . Assim, o discurso de revelação implica sempre em uma confissão da identidade sexual/de gênero. Esclareço apenas que a revelação/confissão de Ninete dá-se logo no terceiro capítulo em que ela aparece, devida a curta participação da personagem na novela. Como disse acima, a personagem aparece em apenas quatro capítulos, ainda que seja citada em muitos outros.

Depois tento com outras duas cenas mostrar o caráter de trava-madrinha de Ninete, são notáveis as mudanças realizadas por ela em Tonha. Esta, depois de ter vivido um período com Ninete em São Paulo, passa a imitar seus trejeitos. Ninete é sinônimo de elegância não só para Tonha, mas também para outras mulheres da cidade.

Primeira Seqüência
No capítulo 40, após o retorno de Timóteo de São Paulo, Elisa, sua mulher, vai perguntar a Tieta informações sobre Ninete. Ela diz ao marido que Tieta havia afirmado ter um procurador e não uma procuradora e, com ciúmes, vai até a irmã para confirmar a veracidade da história de Timóteo.

Elisa: Tu falou de uma tal de Ninete... que mulher é essa?
Timóteo: Ninete é a procuradora de Tieta... ela que foi me esperar quando desembarquei em São Paulo.
E: Peraí... seu Timotéo... Tieta sempre disse que tinha um procurador.
T: É... sim... claro... mas quando eu cheguei em São Paulo.. imagine... o procurador... era mulher.
E: Ah... então eu vou perguntar para Tieta... pra ver se o senhor tá mentindo... num sabe?
Elisa encontra Tieta.
Tieta: Pois o seu marido não está mentindo não.
Elisa: Mas tu não disse que tinha um procurador?
Tieta: E tenho... um procurador que é uma procuradora... uma pessoa da maior qualidade que se chama Ninete.
Elisa: Vixe Maria... e ainda mais com esse nome de Ninete.
Tieta: E se tu está pensando que Ninete andou dando atrás do seu marido tá muito enganada... pode ir tirando o cavalinho da chuva que Ninete não é dessas coisas... e agora anda vá.
Logo após a saída de Elisa, entra em cena Leonora (Lídia Brondi).
Leonora: Mãezinha... não era melhor você ter contado logo de uma vez?
Tieta: Tu tá louca? Elisa não ia aceitar... ia ser ainda pior.

Na seqüência acima, podemos visualizar o velho debate da sexualidade que cerca personagens não heterossexuais. As especulações sobre o que Ninete tem de “estranho” atingem a quase todos os personagens, principalmente os homens. É quando Amintas tenta descobrir o que Ninete tem de diferente, dando em cima dela, que Ninete revela que também é homem.

A travesti realiza no corpo e na performatividade a negociação permanente entre dois sexos naturalizados e tidos como “normais”, o masculino e o feminino. Por isso, em situações limites para afastar ou constranger um agressor, pode-se assumir o papel do homem, como acontece com a personagem Ninete ao ser agredida por Amintas.
Amintas: Olhe... mas eu posso ser muito mais que um simples guia turístico... num sabe? Se a senhora tiver interessada.
Ninete: Eu não estou nada interessada cavalheiro.
A: A senhora já ouviu falar na praia de Mangue Seco... já?
N: O senhor está sendo muito inconveniente... sabe?
A: Oxe... mas eu to fazendo o possível pra lhe agradar.
N: Até agora tem feito o possível para me desagradar profundamente.
A: Me digê... é.. tem alguma coisa que eu possa fazer pra senhora mudar de ideia?
N: O senhor não se enxerga não? Está me incomodando cavalheiro.
A: Oxe... mas olhe...eu posso incomodar muito mais.
N: Pois afaste-se de mim um quilômetro.
Ninete dá as costas para Amintas. Ele insinua para os amigos que vai pegar na bunda dela. Os outros homens o apóiam, exceto Timóteo. Amintas, então, pega na bunda de Ninete.
N: SEU CAFAJESTE.
Ninete dá um murro na cara de Amintas que cai pra trás, longe do lugar em que estava. Os homens o ajudam a se levantar.
A: Oxe... mas o que que foi isso moça? A senhora enlouqueceu é?
Ninete coloca as mãos na cintura.
N: MOÇA COISA NENHUMA CARA... TÁ VENDO ALGUMA SENHORA AQUI NA SUA FRENTE? FIQUE SABENDO QUE MEU NOME É VALDEMAR.

Segunda Seqüência
Nesta seqüência, temos o diálogo entre Tieta e Tonha, as duas conversam sobre as experiências de Tonha em São Paulo.
Tieta: Tonha... tu deu esbregue no homem?
Tonha: Dei sim... eu disse o que ele queria ouvir e o que ele não queria tomem... e foi ai que Ninete chegou... e Ninete tava lá o tempo todo... viu Tieta? Tava lá me espiando de longe... me protegendo sem eu saber.. Ninete tava me ensinando uma lição muito dura... mas era tudo que eu precisava aprender pra ter um pouco de confiança em mim... Dispois a gente foi pra casa.
Ti: Ninete é completamente alucinada Tonha... olha... mas se tu quer saber... eu teria feito o mesmo... viu?
To: Depois disso... ela falou que eu podia vortar se eu quisesse... mas eu não queria... não precisava mais... queria vortar sim... mas depois de fazer tudo que eu tinha que fazer lá... num é?
Ti: Então... valeu a pena.
To: Tu vai dizer..
Tonha se afasta de Tieta e começa a andar como Ninete.
Ti: Deixa eu ver...
Tonha desfila para Tieta.
To: Peito erguido... olhar no horizonte e lá vamos nós... e vorteia... Tieta tu tava coberta de razão... esse mundo é muito maior do que Santana do Agreste... e eu tô nova ainda... oh... sabe o que é que Ninete falou? Que donde a gente ia o povo olhava pra mim com os olhos embuticados...
As duas caem na gargalhada.
Ti: Então... tu tá feliz.
To: Tô... mas também tô com medo... não sei o que vai ser da minha vida Tieta... mas de uma coisa eu tenho certeza... bestalhona do jeito que eu era nunca mais... viu? Obrigada... obrigada..
As personagens se abraçam.

Fica bastante claro, pelo visto acima, como Ninete atua para transformar a vida das pessoas e também como Tonha passa a se espelhar em Ninete, passando a ser um modelo de comportamento para a madrasta de Tieta, inclusive gestualmente. Mas a transformação de Tonha não é só gestual, é também na forma de falar, de se vestir e de se maquiar – é toda a performance da personagem.
Desde o dia que voltou, Tonha parece dividir o mesmo figurino com Ninete. Além de tudo isso, Ninete dá uma aula sobre bolsa de valores para Tonha.
Tonha: Ninete... aquela santa criatura... quando ela me mostrou as ações que tu me deu... ela me falou sobre investimento... ela me deu foi aula sobre bolsa de valor e ela disse... a vida pra essa gente é um jogo.
Tieta: É isso é verdade...

Características gerais da personalidade do personagem: criminoso, violento, psicopata, saudável, calmo etc.:
A personagem é mostrada como uma mulher de negócios, mesmo trabalhando como a gerente de uma casa de prostituição. Sempre que Tieta pede alguma satisfação a Ninete, ela entrega toda a contabilidade em pastas de forma muito organizada. Mas ela também costuma resolver alguns negócios de Tieta de forma duvidosa, por exemplo, conseguir retirar Leonora da cadeia e arquivar o processo criminal dela, mandar espancar o ex-namorado de Leonora para lhe dar uma lição, convencer políticos a levarem energia elétrica a Santana do Agreste, providenciar o histórico da Brastânio, empresa que pretende se instalar em Mangue Seco. Não fica claro nessas suas ações, a forma com que a personagem resolve esse tipo de problema de Tieta.
Porém, considero a personagem calma, elegante, culta e eficiente. Como podemos ver no diálogo entre Ninete e Tieta:
Ninete: Ora Tieta... faz favor.. dê uma olhada aqui no modelito.. dá uma olhada e veja.. sou ou não sou uma lady?
Tieta: Tu é uma lady... tu é uma lady quando tu quer... mas quando fica desvairada.
Ninete: É só quando me provocam... aí eu realmente fico uma fera... mas fique descansada porque aqui em Santa do Agreste... em matéria de classe a rainha da Inglaterra perde pra mim.. tá?

Aspectos sobre a sexualidade do personagem

Personagem se apresenta (assume verbalmente) como: gay, lésbica, travesti, transformista, transexual, transgênero, intersexo, bissexual:
Como Rogéria, que interpreta a personagem Ninete, costuma dizer, ela é a travesti da família brasileira. Então, como se é de esperar, Ninete em determinado momento da trama fala que é homem, em outros, fala que é mulher, mas não existe nenhuma idéia sobre quais são suas preferências sexuais, muito pelo contrário, o único momento em que ela foi assediada, no caso por um homem, ela deu-lhe um murro e ainda disse que era homem também. Não há em toda a trama sugestão alguma sobre as preferências sexuais de Ninete, ela é assexuada.

Em que ponto da narrativa fica claro que o personagem é homossexual?
No terceiro capítulo em que a personagem aparece de fato, sem ser apenas citada, fica claro que a personagem não é heterossexual. Mas não há uma verbalização de quais são as preferências sexuais da personagem, ainda que ela se apresente ora como mulher ora como homem, ela é construída como uma personagem assexuada.

Como se dá a performatividade de gênero? Que normas ou conjunto de normas o personagem reitera e/ou reforça?
Ninete habita o entre-lugar das perfomatividades de gênero, recusa papéis fixos e assume a transição. Primeiro, Tieta a apresenta para a cidade inteira como mulher (Ninete), depois, no bar, quando é agredida ela se apresenta como homem (Valdemar). Ninete repete parodicamente, porque exagerada, porque irônica, porque camp, os padrões binários estereotipadas: macho e fêmea, mas não é subversiva; quando mulher é frágil, dócil, fala mansamente, faz biquinhos, ombros encolhidos, jogadas de cabelo; quando homem é forte, agressivo, fala grosso, parte pra cima. Porém, para ser aceita pelo público, Aguinaldo Silva criou uma personagem assexuada.

Logo após se revelar homem no bar da cidade, depois da briga, já na casa de Tieta, ela conversa com Leonora.
Ninete: Não... você sabe que eu não gosto de escândalos... eu sempre procurei fazer uma mulher fina... lady... mas quando me provocam.. você sabe que eu viro uma lavadeira... não é?
(...)
Leonora: Me diga uma coisa... e depois do soco o que foi que aconteceu?
Ninete: Absolutamente nada... joguei o cabelo e saí linda e maravilhosa pisando naquele salto maria porreta... eu estava majestosa.

Resumo conclusivo e redutor sobre a representação dos homossexuais na sociedade:
Resultado 1: forte carga de estereótipos e outras características que contribuem para a reduplicação dos preconceitos e da homofobia;
Resultado 2: caracteriza os personagens com alguns elementos da comunidade queer, constrói um tratamento humanístico e contribui para o combate aos preconceitos e a homofobia;
Resultado 3: caracteriza os personagens homossexuais dentro de um modelo heteronormativo que contribui para a reduplicação dos preconceitos e da homofobia;
Resultado 4: caracteriza os personagens homossexuais dentro de um modelo heteronormativo, mas constrói um tratamento humanístico e contribui para o combate aos preconceitos e a homofobia;
Resultado 5: indica uma representação dúbia e produz dúvida sobre o tratamento dado.

A construção da personagem aproxima-se muito do resultado dois, mas não se realiza por completo. Ninete é uma personagem camp tratada de forma humana por alguns personagens da novela, como Tieta, Carmosina, Dona Milú, Tonha, Comandante Dário (Flávio Galvão) e até pelo padre Mariano (Cláudio Correia e Castro), porém, sempre dentro de um tom de respeito e tolerância à diferença.

O padre Mariano, um padre liberal, por exemplo, chega a dizer que não vê problema em Ninete ser assim, já que ela não estaria fazendo nada mais do que seguir os impulsos da sua natureza, mas, em compensação, se opõe a presença de Ninete, vestida de mulher, na sua igreja. Vale lembrar que o padre aceita a presença de todas as outras pessoas na igreja, inclusive chegou a rezar uma missa pelo restabelecimento de Zuleika Cinderela (Maria Helena Dias), cafetina da cidade, contrariando toda a comunidade de beatas da sua igreja.

Dona Milú, que continua a ver Ninete como uma pessoa distinta e fina, diz que pra ela não faz diferença porque na idade dela não dá pra se espantar mais com nada. Ricardo, que primeiro condena Ninete por contrariar as leis de Deus e depois, convencido por Tieta, passa a defendê-la, muda de posição apenas porque ele também tem seus pecados (a relação amorosa/sexual com a tia), ele recolhe as suas pedras pra não receber uma pedrada maior. Tieta diz que não vê problemas em Ninete ser assim e justifica a sua amizade com ela, pelo fato de ter sido Ninete a tirá-la da sarjeta. Carmosina aceita Ninete por ter sido ela a ajudar Tieta. Comandante Dário não vê problema também, para ele cada um se veste como quer e ninguém têm nada a ver com isso.
Mas todos esses discursos são muito insossos, pautados exclusivamente por uma tolerância particular que não desconstrói e que não problematiza para os outros o preconceito, são apenas discursos de tolerância, motivados muitas vezes por questões particulares.

Enquanto isso, o discurso da intolerância tem um apelo muito mais forte para o telespectador, já que apela para as leis de Deus, para a idéia de um sexo natural, para a proteção da instituição familiar. Além de tudo, esse é o discurso que foi mais repetido na novela, o discurso do abjeto. Perpétua que é a vilã da novela, mas também é carismática e engraçada, encabeça o discurso moralizador e começa a preparar uma marcha das mulheres da cidade para expulsar Ninete de Santana do Agreste.

E o pior é que a permanência de Ninete na cidade só é assegurada por Tieta porque ela faz uma chantagem com Perpétua, dizendo que caso esta continue com a idéia de expulsar Ninete, ela seria obrigada a contar pra toda a cidade o que Perpétua guarda dentro da caixa-branca (o pinto do marido falecido), fato que também a desmoralizaria.

Esse é o discurso que Tieta faz sobre Ninete: Mas também... cada um tem o direito de ter a sua doideira... cada pervertido também tem o direito de ter a sua perversão... quem sou eu pra criticar os outros... mas se tu pensa que eu não vou usar o que eu descobri... tu tá muito enganada... contra as tuas safadezas qualquer arma vale.

Além disso, piadas homofóbicas podem ser encontradas na novela, ainda que não sejam relacionadas a Ninete, mas a outros personagens, por exemplo, quando encontram as calças dos homens roubados pela mulher de branco, Osnar faz o seguinte comentário: Essa aqui com jeito de calça de baitola deve ser do engenheiro. Em seguida, todos os homens riem.
Por isso, acredito que o tratamento dado à personagem é dúbio e não ajuda a combater a homofobia, ou seja, resultado número 5.

Conclusão: um parecer
Ninete é uma representação ainda estereotipada da travesti porque recorre à idéia que liga a travesti sempre à prostituição, ainda que a personagem seja culta, bem relacionada e fina, como dizem algumas personagens. O tratamento dado à personagem, por autores e diretores, também é dúbio, porque fala de uma tolerância, sem problematizar a diferença e pior, reforça o discurso da intolerância por não problematizar os apelos da proteção à instituição familiar, por não problematizar as leis de Deus e a idéia de um sexo natural.


Referências Bibliográficas

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