quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

bafafá de liana cardoso e bocão

O jornalismo televisivo é feito e pensado para atrair pontos no Ibope, assim os quadros de um programa são exibidos sempre tendo em vista o quadro anterior e o posterior para a construção de sentidos e o gerenciamento de emoções. Por esses motivos a precariedade desse artigo é evidente já que trata-se da retirada de uma parte de um programa para análise, perdendo-se de vista os seus efeitos enquanto um todo.
Assumindo essa precariedade, o objeto de estudo é o quadro “Bafafá”, da jornalista Liana Cardoso, exibido no programa “Se Liga Bocão”, que é apresentado pelo jornalista José Eduardo, o Bocão. Comparativamente utilizo dois episódios do “Bafafá”, o primeiro episódio chama-se apenas “Bafafá”[1] e foi gravado em um bairro pobre da cidade de Salvador, com duas vizinhas que brigam por causa do som alto que vem da casa de uma delas, já o segundo episódio chama-se “Bafafá de Rico”[2] e foi gravado em um bairro nobre da cidade de Salvador com moradores de edifícios luxuosos a beira-mar que aparecem brigando por causa da construção de um teleférico que dá acesso ao mar.
O programa “Se Liga Bocão”, e por conseqüência o quadro “Bafafá”, é taxado pelos próprios apresentadores, repórteres e críticos de TV como um programa popular. Esse é o primeiro equívoco que pretendo corrigir, segundo Vera França, em seu artigo “A Tv, a janela e a rua”, popular “expressa mais propriamente aquilo que vem do povo, que é produzido por ele[3]”, povo nesse sentido equivaleria “às classes baixas, aos pobres e setores mais afastados (tanto do ponto de vista geográfico como de sua prática) dos padrões culturais dominantes”[4].
Seriam Zé Eduardo e Liana Cardoso pessoas do povo? Não, a partir da história pessoal de ambos pode-se dizer que o programa é conduzido por dois jornalistas oriundos da classe média e que hoje pertencem à classe média alta de Salvador. O povo está presente no programa, é verdade, mas não na figura dos que conduzem e dirigem o programa e o quadro, eles aparecem sempre mediados pela câmera, por Liana Cardoso, por Bocão, pela direção e pela edição.
No “Bafafá” [de Pobre], Liana Cardoso assume uma voz calma e um tom paternalista com as vizinhas até que em determinado momento do bate-boca ela desvia do assunto principal (barulho) para tratar de questões pessoais das duas mulheres que desviam do assunto primeiro e não dizem respeito à causa do conflito (uma suposta traição). O quadro que tem apenas dez minutos é recheado de dispositivos que aparecem para acentuar o clima de bate-boca, por exemplo: podemos ouvir “Ueeeeepa” seis vezes; além disso, um boneco torcendo pelo confronto aparece quatro vezes e; nos momentos de maior tensão da reportagem, onde por duas vezes uma das vizinhas ameaça a outra, há sempre a repetição seguida das ameaças, uma delas é repetida quatro vezes seguidas. Esses dispositivos acionados repetidamente levam quase sempre ao riso. No meio da confusão causada pela sua presença, Liana Cardoso sugere parar a reportagem porque um bebê está chorando, mas não o faz. Ao final da reportagem, já no estúdio e longe de todo o ocorrido, Zé Eduardo, o Bocão, aparece para finalizar, ele é mostrado rindo de toda a confusão e termina por imitar de forma caricatural uma das vizinhas.
O episódio quando foi exibido em uma sala de aula de universitários provocou risadas quase unânimes. Do que eles riam? Do que riram Zé Eduardo e Liana Cardoso? Eles riram do outro, do diferente e riram principalmente daquilo que eles não enxergam em si mesmos. Recorro ao Marquês de Sade para explicar as risadas, diz ele:
Existe uma espécie de prazer para o orgulho em rir dos efeitos que não se tem, e estes gozos são tão doces ao homem e particularmente aos imbecis, que é muito raro vê-los renunciar-lhes... Isso provoca, aliás, maldades, frios ditos de espírito, fracos trocadilhos, e para a sociedade, ou seja para uma coleção de seres que o tédio junta e que a estupidez modifica, é tão doce falar duas ou três horas sem nada dizer, tão delicioso brilhar à custa dos outros e anunciar estigmatizando-o um vício que se está muito longe de ter... é uma espécie de elogio que se pronuncia taticamente sobre si mesmo”[5]
Já no “Bafafá de Rico” o comportamento dos repórteres, da edição e da câmera muda, assim como dos telespectadores. Zé Eduardo, abre a reportagem do estúdio em tom de novidade, anunciando um bafafá especial, como se o evento a ser mostrado fosse algo extraordinário, o tom do apresentador parece (re)afirmar a idéia de que rico não bate-boca, diz ele: “Hoje tem bafafá de rico especial” e logo após esse anúncio o tom é de pesar e de tristeza. Liana Cardoso então assume a reportagem, ela já não faz caretas e nem dá risada, entre tantos homens engravatados o tratamento da repórter se torna diferente. Os bate-bocas do episódio são filmados sempre a distância, a câmera parece respeitar a intimidade dos envolvidos - Bocão depois de ver toda a reportagem ainda pede para que Liana identifique os presentes, mas ela não faz isso muito bem. Os microfones também ficam distantes e perdem muitas vezes as discussões e os momentos mais quentes da briga. Alguns dispositivos utilizados no primeiro “Bafafá” para provocar riso não aparecem, por exemplo, o uso do bonequinho que parece torcer pela briga e a repetição seguida de imagens não são recursos utilizados no “Bafafá de Rico”, já o “Ueeeepa” aparece uma única vez.
No primeiro episódio uma das vizinhas relata que a polícia já esteve no local e proibiu o uso de uma das caixas de som, poder que a polícia por si só não possui, já no segundo episódio a polícia aparece comedida, não querendo tomar partido para não ser leviana, segundo as palavras do tenente que estava no local. A briga é logo deixada de lado e Liana se dirige a uma moradora de rua que dormia próximo ao local, para ela está reservada o mesmo tratamento do primeiro Bafafá - a câmera invasiva e um zoom na cara do entrevistado - a moradora esconde o rosto e o câmera insiste em filmá-la, enquanto o microfone é vai sendo colocado quase que na sua boca.
Estranhamente, ao final da reportagem Zé Eduardo não faz imitações e não ri em nenhum momento, assim como Liana Cardoso e assim como os estudantes universitários também não riram quando assistiram. Mas não riram por que? Não riram porque se reconheceram, porque reconheceram seus pares e também porque não foram estimulados pela edição e nem pelos repórteres, já que a era reportagem séria, uma reportagem tipicamente não popular.


[1] http://br.youtube.com/watch?v=yxCcjuLFnpA&feature=channel_page
[2] http://br.youtube.com/watch?v=Y4vVyERzCDo
[3] FRANÇA, Vera. A Tv, a janela e a rua. Pag. 38.
[4] Ibid
[5] SADE, Marquês. O Estratagema do Amor. Disponível em: . Acesso em 22 de janeiro de 2009.

2 comentários:

Jamile disse...

Artigo muito bom, bem analisado,o domínio e assimilação do assunto foram fundamentais para o sucesso dele.Bem escrito. Parabéns!

GILNEY disse...

Parabéns pelo excelente artigo, muito didatico e explicativo.
Mais uma vez, parabens e sucesso.
Gilney Neves