segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

o quarto poder - costa gravas

Costa-Gravas, em “O Quarto Poder” (Mad City, 1997), realiza uma crítica saudosista da imprensa e dá um final redentor para um dos seus personagens, o jornalista Max (Dustin Hoffman).

“O Quarto Poder” começa com Max escondido atrás da sombra de um homem, nada sabemos sobre ele, apenas um homem e um olhar. A câmera revela a direção do olhar do personagem o “Banco Foolhill Federal” e focaliza um homem que se arruma para deixar o lugar. Há um suspense sobre quem está olhando e sobre o que deseja, trata-se de um assalto ao banco? Um seqüestro? Porque o personagem está escondido?

A cena corta e começamos a assistir a montagem de algo que acentua a ambigüidade do que irá acontecer, canos e ferros são encaixados e aquele barulho “clássico” do cinema americano de armas montadas é ouvido mais de uma vez, parece uma operação com armas.  No entanto, a câmera abre e vemos Max, um jornalista e um microfone, na verdade o que estava sendo montando eram câmeras de filmagem e Max está ali para conseguir uma entrevista ao estilo do cineasta americano Michael Moore.

O jornalismo é uma arma? Sim e o filme vai nos mostrar exatamente como funciona esse poder de destruição do jornalismo, da televisão e do evento do “ao vivo”, mesmo que para isso o filme pareça muitas vezes o “making off” de uma cobertura jornalística.

O enredo se desloca para uma ilha de edição que nos mostra Lou, um senhor de idade, pouco conhecemos dele durante todo o filme, mas podemos dizer que é um arquétipo de um jornalismo antigo, um jornalismo supostamente “ético”. Em uma discussão com Max ele diz: “Você não é juiz e não somos o júri”. Lou se constrói como o oposto de Max, um jornalista ético. Mas alguma vez o jornalismo não foi uma arma ou alguma vez ele foi ético?

No final do filme, Max procura o olhar de Lou, parece pedir algum conselho sobre tudo que aconteceu, Lou o responde abaixando a cabeça, fazendo um sinal de negação. É o velho jornalismo reprovando o novo jornalismo, como se anteriormente o jornalismo fosse ético e só agora fosse sensacionalista. Existiu mesmo um passado diferente para o jornalismo ou o que mudou foram os meios de se fazer uma reportagem? O que há de diferente entre o jornalismo de Truman Capote (“A Sangue Frio”) e o jornalismo de Max? Acredito que as formas de se comunicar mudaram, mas não os jogos de interesses, nem as disputas de poder.

Voltando ao enredo, Max é encaminhado por Lou para fazer uma reportagem sobre demissões em um museu, Lou manda junto com ele a estagiária Laurie (Mia Kirshner). Ao chegar no museu Max dá todas as coordenadas a Laurie do que ele deseja mostrar, a reportagem já está concebida antes mesmo que eles tenham contato com qualquer pessoa.

O inesperado ocorre, Sam (John Travolta) - um segurança demitido - entra armado para falar com a diretora do museu, Sra. Banks (Blythe Danner). Ele já havia tentado conversar com a diretora anteriormente, mas ela o pede pra sair, não quer ouvi-lo novamente. Sam caminha em direção a saída, mas depois se volta na direção dela com uma arma. Ele não lhe aponta a arma, pede cinco minutos, quer ser ouvido. Banks acha que tudo não passa de uma brincadeira.

Mas Max ainda está no museu, ele vê tudo e termina por entrar ao vivo, através de um orelhão, na emissora local minutos após o incidente ter começado. E algo que aparentemente seria resolvido rapidamente começa a ganhar proporções cada vez maiores, transformando-se em um grande espetáculo televisivo.

Paul Virilio, em seu livro “A Bomba Informática”, nos fala sobre o advento do “ao vivo”, para ele a partir do “ao vivo” “toda imagem está fadada à ampliação” e acrescenta “O século XX não foi o da imagem como se pensa, mas o da ótica e sobretudo da ilusão de ótica”. Com o “ao vivo” julgamos a partir de uma ótica, um ponto de vista, neste caso do repórter e da emissora, mas é sobretudo uma ótica provisória que desconhece inteiramente os fatos mas que julga e condena de acordo com os seus interesses. É exatamente isso que encontramos no filme de Costa-Gravas a manipulação dos fatos pelos mais diversos motivos, como a promoção pessoal e interesses corporativos.

O “ao vivo” modifica o comportamento dos envolvidos na trama, eles se vêem na televisão e passam a negociar entre si suas imagens e interesses. Max deseja fazer daquele problema particular a retomada da sua carreira. Sra. Banks vê o seu museu sair do anonimato. Sam sabe que com a televisão filmando tudo que está acontecendo ele não poderá voltar atrás e voltar atrás é tudo que ele deseja, mas na televisão ele já havia virado um seqüestrador perigoso.

Um exemplo dessa ótica precária ocorre quando Cliff – o segurança que não foi demitido - é baleado, a imagem mostra um homem saindo do museu após ter recebido um tiro, o disparo que foi acidental é visto na televisão como uma reação do seqüestrador, para os telespectadores televisivos o tiro foi uma tentativa de assassinato.

Max resolve dar voz a Sam, ao colocá-lo em rede nacional procura desfazer os equívocos que as outras emissoras cometem e com isso ganhar mais notoriedade, não por ele ser um “herói”, mas por ser mais um furo de reportagem. Aliás, Max foi o primeiro a condenar Sam já que no primeiro contato que tem com sua televisão, mesmo antes de entrar no ar, ele já fala que Sam é um seqüestrador perigoso.

Sam não sabe como agir, ele não estava ali para seqüestrar ou matar alguém, ele então pede conselhos a Max e nesse momento o repórter fala abertamente sobre o poder que o “ao vivo” tem para condenar um homem, ele mostra a Sam que a opinião pública está contra ele e a única forma que ele tem de sair relativamente ileso da situação é colocar a opinião pública a seu favor. Em um momento do filme Max fala que é necessário que Sam liberte uma criança negra para que ele não seja acusado de racismo por ter baleado um segurança negro. Sam concorda.

Max arma uma entrevista com Sam, para que ele se justifique em cadeia nacional. Enquanto isso Sam acompanha tudo pela televisão de dentro do museu e vai moldando seu comportamento de acordo com o que é mostrado. Max também conversa abertamente sobre o poder do “ao vivo” com o chefe de polícia, ele também passa a ser conhecido nacionalmente e o repórter lhe promete elogios em rede nacional.

O espetáculo está armado, uma multidão se coloca a frente do museu, ambulantes, curiosos, jornalistas, uma infinidade de pessoas querendo fazer daquele momento trágico uma oportunidade para aparecer na televisão ou ganhar algum dinheiro. A esposa de Cliff vende a outra emissora uma entrevista exclusiva com seu marido ainda convalescente no hospital. Todos estão ganhando, exceto Sam. Os heróis começam a se formar em frente às câmeras.

A imprensa chega até a família de Sam, seus amigos e parentes são chamados a participar do fato, estranhos falam de Sam como se fossem íntimos. Max e Sam conseguem com a entrevista reverter a opinião pública sobre o seqüestro e Sam vira o "herói dos injustiçados". Mas os pais das crianças seqüestradas conseguem reverter a opinião pública. Todos ganham com o circo armado pela imprensa, até a comida que será dada para as crianças reféns ganha publicidade.

O final é trágico para Sam, ele entrega as crianças, mas explode dinamites dentro do museu e morre. Max sai ferido da explosão e é carregado por médicos e policiais. Todos querem entrevistá-lo. Ele silencia, sente-se culpado e termina o filme dizendo que a imprensa matou Sam. É a sua redenção.

No Brasil existem muitos casos como o de Sam e Max, podemos pensar em Sandro e mais recentemente em Eloá, e também em Datena, Britto Júnior e tantos outros. É óbvio que o “ao vivo” modificou o comportamento dos envolvidos. Podemos recontar a história de Sandro ou de Eloá a partir do enredo criado por Costa-Gravas.

A imprensa condenou os acusados antes mesmo deles irem a um tribunal. Uma infinidade de jornalistas deu pareceres sociológicos, psiquiátricos, jurídicos sobre os envolvidos. Sandro foi morto por uma população furiosa, pelos policiais ou pela imprensa? Lindemberg moldou seu comportamento à medida que acompanhou o desenrolar do seu caso na televisão, o desfecho poderia ter sido diferente sem o circo televisivo? Desconheço qualquer benefício da atuação televisiva no momento dos crimes, acho que a imprensa está ali para fazer negócio e é isso que o jornalismo sempre fez: dinheiro.

Um comentário:

gabi disse...

O jornalismo não está aí somente por dinheiro. Alguns jornalistas ainda preservam o senso de ética. Não podemos generalizar, a menos que você leia a Veja ou assista à Rede Globo.
Não nos esqueçamos da ditadura. O jornalismo foi uma das principais armas para alertar o povo e combater o regime. Não estamos falando da Folha, que diz que a ditadura não existiu (termo ditabranda.
Mias uma vez, não podemos generalizar, o jornalismo não é feito somente pela Globo ou outros veículos elitizados.