terça-feira, 27 de janeiro de 2009

“Ônibus 174”, “O Quarto Poder” e a Televisão Brasileira

O documentário “Ônibus 174”, de José Padilha, traz poucas conclusões e quase nenhuma unanimidade, a partir do filme podemos recolher depoimentos diversos e divergentes sobre Sandro, sobre a sua atuação no “seqüestro” do ônibus, sobre a atuação da polícia, etc; porém, o único fato que alcança unanimidade no documentário é o poder que a mídia teve de interferir no acontecimento. Se no filme “O Quarto Poder”, de Costa-Gravas, encontramos a sugestão que a imprensa atua como uma máquina de guerra, no documentário de José Padilha, encontramos o funcionamento desse maquinário na vida real.

Logo no começo do documentário, um policial do Bope diz que o acontecimento não passava de um roubo interrompido e que algumas teorias de ação policial dizem que o melhor a fazer nesses casos é facilitar a fuga do indivíduo. Outro policial do Bope aparece para dizer que Sandro era um bandido comum que tinha sido interrompido no seu roubo e, segundo ele, Sandro não queria nada e não formulava pedidos, não tinha o que pedir, ele só queria sair dali sem ter que enfrentar os horrores de uma nova prisão. A situação de Sandro é semelhante ao personagem ficcional criado por Costa-Gravas, assim como aconteceu com Sam, o incidente poderia ter sido resolvido rapidamente, mas a presença da imprensa no desenrolar dos fatos, o “ao vivo”, começa a dar proporções maiores ao ocorrido, criando um grande espetáculo televisivo. A primeira vítima de Sandro a aparecer no documentário diz coisa parecida, segundo ela, a idéia de Sandro era de realizar um assalto e não um seqüestro, para ela, Sandro não tinha a intenção de manter as pessoas seqüestradas e todo aquele acontecimento foi um incidente, ela acrescenta dizendo que Sandro não desejava nem câmeras e nem fotógrafos por perto.

Mas as televisões do Brasil passaram a transmitir as imagens da CET-RIO e logo depois, como afirma um repórter no documentário, as televisões e os jornais em peso compareceram ao local. A partir daí, a tragédia de Sandro, ou melhor, o incidente de Sandro, passou a ser um drama exibido para todo o Brasil e o que era um fato que passaria possivelmente invisível virou um grande circo televisivo. Além disso, a área não foi isolada corretamente pelos policiais e a imprensa se aproveitava disso para recolher “melhores imagens”, “melhores informações”, ou melhor, para invadir o local onde ocorria o crime.

Como diz Paul Virilio: “O século XX não foi o da imagem como se pensa, mas o da ótica e sobretudo da ilusão de ótica”[1]. A partir do “ao vivo” julgamos pela ótica do que nos mostra a imagem televisiva, pelo que sugerem os repórteres, pelas edições que são feitas, etc. Porém, essa ótica que condena é sempre provisória e desconhece inteiramente os fatos, exemplo disso, são os depoimentos das vítimas de Sandro. Segundo elas existia um diálogo paralelo entre vitimas e o seqüestrador que não era mostrado na televisão, uma coisa era o que estava acontecendo para as câmeras e outra era o que estava acontecendo dentro do ônibus. Sandro pedia pra que elas chorassem, para que elas fossem mais dramáticas, para que elas atuassem, para que as pessoas do lado de fora vissem o maior desespero possível e ele conseguisse o que queria (fugir). Sandro chegou a encenar o assassinato de uma das vítimas, esse foi o seu grande erro, porque os repórteres rapidamente o transformaram em um assassino, fato que provocou uma fúria nas pessoas que estavam assistindo o acontecimento no local.

Assim como Sam, com a presença da televisão, Sandro modifica o seu comportamento, segundo um policial do Bope, Sandro passou a ficar preocupado em aparecer e passou a representar diante das câmeras, ele diz ainda que a violência do seqüestrador estava associada diretamente a presença da televisão. Sandro reafirmava agora a sua visibilidade, ele deixa de se esconder e agora discursa, fala do seu passado e fala de vingança. Como diz o sociólogo Luiz Eduardo Soares, no documentário, o Sandro vítima da Candelária agora reaparece como algoz em um novo drama. Sandro passa a atuar para as câmeras, ele abre e fecha janelas, grita, mostra o rosto, dispara. Uma vítima diz que a televisão fez Sandro se sentir poderoso na medida em que ele sabia que estava sendo filmado e passou a desejar ser filmado, a câmera passou a importar pra ele e passou a ser um espaço para ele afirmar a sua existência.

Luiz Fernando Soares explica melhor o que ocorre, segundo ele, Sandro impôs a sua visibilidade à sociedade, ele passou a ser personagem de uma narrativa e redefiniu seu espaço tradicional na sociedade, que lhe dava sempre a posição de subalterno e agora ele transforma-se em protagonista. Através do medo causado na sociedade, Sandro reafirmou a sua existência social, recuperando a sua visibilidade ainda que de forma efêmera.

Em outra ocasião, um policial do Bope afirma que Sandro poderia ter sido executado sem causar dano aos reféns, mas o tiro que seria dado nele iria resultar em meio quilo de massa encefálica sendo projetada nos vidros do ônibus, a polícia não executou essa ação porque as pessoas não poderiam ver essa cena na televisão. Não poderiam ver a violência policial passando na televisão no horário vespertino, o coronel quis preservar a vida do Sandro, por conta de ordens superiores.

A televisão criou um grande espetáculo e esse tipo de narrativa acaba sempre com a morte do bandido. Sandro já havia sido condenado pela imprensa e pelos populares no local. Todos pediam a sua morte, todos queriam linchar Sandro, como diz o sociólogo, todos queriam um pedaço de Sandro como souvenir. O drama de Sandro nos dá uma visão de como atua a nossa televisão no “ao vivo”, através da unilateralidade e principalmente através da espetacularização. Mas enquanto Sam, nosso personagem fictício se arrepende do que fez, nossos jornalistas da vida real, por exemplo, Datena continua a comandar um programa televisivo nos mesmos moldes e o pior ele passou a publicar poesia a partir do ônibus 174.



[1] VIRILIO, Paul. A Bomba Informática.

Nenhum comentário: