quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

folheto XLIV - a visagem da moça caetana - pedra do reino - ariano suassuna

ariano suassuna em depoimento para o filme "O Sertão Mundo de Suassuna" diz o seguinte:

"se você olhar bem, alí está todo o núcleo da pedra do reino, tá certo? então, aquilo alí para mim é o capítulo mais importante da pedra do reino. é aquele que se chama "a visagem da moça caetana", porque ele contem uma exposição do centro vital do romance e uma exposição que aí foi talvez.. foi talvez não... foi com certeza involuntária, aquilo é como uma súmula de toda a minha literatura, tudo o que eu procuro com a minha literatura. Quando ela diz assim: "Você está tentando em vão reedificar seus dias, para sempre destroçados", é isso, mais ou menos, o que eu tento na literatura."

segue o trecho do folheto a que suassuna se refere:

"A Sentença já foi proferida. Saia de casa e cruze o Tabuleiro pedregoso. Só lhe pertence o que por você for decifrado. Beba o Fogo na taça de pedra dos Lajedos. Registre as malhas e o pêlo fulvo do jaguar, o pêlo vermelho da Suçuarana, o Cacto com seus frutos estrelados. Anote o Pássaro com sua flecha aurinegra e a Tocha incendiada das macambiras cor de sangue. Salve o que vai perecer: o Efêmero sagrado, as energias desperdiçadas, a luta sem grandeza, o Heróico assassinado em segredo, o que foi marcado de estrelas - tudo aquilo que, depois de salvo e assinalado, será para sempre e exclusivamente seu. Celebre a raça de Reis escusos, com a Coroa pingando sangue: o Cavaleiro em sua Busca errante, a Dama com as mãos ocultas, os Anjos com sua espada, e o Sol malhado do Divino com seu Gavião de ouro. Entre o Sol e os cardos, entre a pedra e a Estrela, você caminha no Inconcebível. Por isso, mesmo sem decifrá-lo, tem que cantar o enigma da Fronteira, a estranha região onde o sangue se queima aos olhos de fogo da Onça-Malhada do Divino. Faça isso, sob pena de morte! Mas sabendo, desde já, que é inútil. Quebre as cordas de prata da Viola: a Prisão já foi decretada! Colocaram grossas barras e correntes ferrujosas na Cadeia. Ergueram o Patíbulo com madeira nova e afiaram o gume do Machado. O Estigma permanece. O silêncio queima o veneno das Serpentes, e, no Campo de sono ensangüentado, arde em brasa o Sonho perdido, tentando em vão reedificar seus Dias, para sempre destroçados".


Um comentário:

Anônimo disse...

Parabéns Helder pelo texto escolhido para postar! Estou preparando minha monografia para concluir o curso de letras e falarei sobre o imaginário fantastico na Literatura. tenho um capitulo somente sobre a visão da morte. se poder me ajudar.... email: sergiofreire13@yahoo.com.br
Valeu!!!