sábado, 22 de agosto de 2009

Ninete: a trava-madrinha de Tieta do Agreste

NINETE: A TRAVA-MADRINHA DE TIETA DO AGRESTE:
A REPRESENTAÇÃO DA TRAVESTI NINETE NA NOVELA TIETA

Resumo

Este artigo faz parte de uma pesquisa realizada em conjunto pelo grupo de pesquisa CUS (Cultura e Sexualidade), orientado pelo professor-doutor Leandro Colling, que objetiva analisar representações não heterossexuais nas novelas da rede Globo. Neste artigo, analiso a representação da travesti Ninete, interpretada pela também travesti Rogéria, na novela Tieta. A novela apresenta um discurso dúbio que varia entre intolerância e respeito à diferença e recorre à imagem estereotipada da travesti associada à prostituição. Por fim, Ninete, ou melhor, Rogéria é a travesti da família brasileira, por isso, assexuada.

Palavras-chave: Travesti – Representações Identitárias – Novela – Teoria Queer

Introdução

A novela brasileira, principalmente, da rede Globo, é um produto cultural com grande disseminação territorial e de grande impacto social, atingindo e repercutindo nas pessoas independentemente de classe, sexo, cor da pele, idade, credo, etc. Por esses motivos, analisar as representações de grupos ditos minoritários em telenovelas é uma boa forma de enxergar as relações de poder entre identidades culturais dominantes e identidades culturais não-dominantes

Segundo Hall (2000), as identidades devem ser entendidas como construções discursivas que emergem nas relações de poder e são o produto da marcação da diferença e da exclusão. Hall citando Butler acrescenta ainda a idéia de que todas as identidades funcionam por meio da exclusão, por meio da construção discursiva de um exterior constitutivo e da produção de sujeitos abjetos e marginalizados. Nesse contexto, grupos não heterossexuais tendem a ser tomados como abjetos, enquanto grupos heterossexuais são vistos como identidades positivas e privilegiadas.

Então, a pesquisa realizada em conjunto pelo grupo CUS (Cultura e Sexualiade), integrado ao CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura), da Universidade Federal da Bahia, sob a orientação do professor-doutor Leandro Colling, objetiva traçar um panorama geral das representações não heterossexuais nas telenovelas globais, para a partir dos estudos dessas representações propor políticas públicas.

Para LOURO (2004), a visibilidade e a materialidade desses sujeitos parecem significativas por evidenciarem, mais do que outros, o caráter inventado, cultural e instável de todas as identidades.

A partir da revisão e da atualização de outras metodologias de análise, COLLING criou a metodologia Aquenda!, para ser aplicada nesta pesquisa, objetivando uma descrição analítica das personagens não heterossexuais.

O presente artigo, então, trata de analisar a personagem Ninete, presente na telenovela Tieta, de Aguinaldo Silva, e interpretada pela também travesti Rogéria. Como afirma BARBOSA (2008), as práticas travestis denunciam que não há uma simetria dada entre sexo, gênero e sexualidade, mostrando que esta coerência é fabricada para o propósito de uma heterossexualização compulsória do corpo. E acrescenta que ao fazer na prática o gênero, por meio de perfomances repetidas, as travestis se fazem mulher, e colocam em forma de paródia de gênero, o caráter performativo e artificial de gênero. É necessário, deixar claro que a paródia nem sempre é subversiva e sim dependente do contexto.

Além disso, acrescentam PELUCIO & MISKOLCI que as travestis, diferentemente das drags-queens não vivem personagens, ainda que, como aquelas, denunciem (mesmo que sem uma intecionalidade) que o gênero é sempre construção e aprendizado.

Análise

Dados gerais do produto

Título: Tieta

Direção Geral: Paulo Ubiratan

Direção: Reynaldo Boury, Ricardo Waddington e Luís Fernando Carvalho

Autores: Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares

Elenco principal: Betty Faria (Tieta), José Mayer (Osnar), Joana Fomm (Perpétua), Reginaldo Faria (Ascânio), Lídia Brondi (Leonora), Yoná Magalhães (Tonha), Arlete Salles (Carmosina), Cássio Gabus Mendes (Ricardo), Ary Fontoura (Coronel Artur da Tapitanga), Paulo Betti (Timóteo), Elisa (Tássia Camargo).

Elenco mais diretamente ligado com a temática homossexual: Rogéria (Ninete/Valdemar), Betty Faria (Tieta), Lídia Brondi (Leonora), Paulo Betti (Timóteo) e Yoná Magalhães (Tonha).
Tempo de exibição: Primeira exibição: 14 de agosto de 1989 a 31 de março de 1990. No total, foram 196 capítulos, exibidos sempre às 20h. Cada capítulo tinha uma duração de aproximadamente 45 minutos. A novela foi reprisada no programa Vale a pena ver de novo, entre os dias 19 de setembro de 1994 a 07 de abril de 1995, sempre às 14:20h, em 145 capítulos. Foi também exibida no México, Peru, Chile, Guatemala, Portugal, República Dominicana, Uruguai e outros países.

Resumo do enredo e algumas considerações
Tieta é a segunda novela das oito a ser exibida após o fim da censura e também é a segunda novela em números no Ibope, segundo ranking contabilizado e divulgado por Aguinaldo Silva no seu blog , com os dados do Ibope. A novela é inspirada no romance Tieta do Agreste, de Jorge Amado, que foi publicado em 1977.

A estrutura formal de uma telenovela se caracteriza por ser uma narrativa formada por múltiplas histórias paralelas, por isso empreender o resumo desse tipo de narrativa é algo que demanda um poder de síntese impossível de se realizar em poucas páginas. Então, trarei ao resumo apenas os aspectos mais relevantes da personagem que dá título ao romance e à telenovela.

Tieta do Agreste (Betty Farias) nasceu na pacata cidade de Santana do Agreste, onde vive com o pai, o avarento Zé Esteves (Sebastião Vasconcelos), com a jovem madrasta Tonha (Yoná Magalhães), com a invejosa irmã Perpétua (Joana Fomm) e com a irmã caçula e ainda bebê Elisa (interpretada quando adulta por Tássia Camargo).

Santana do Agreste é uma cidade conservadora do interior baiano, cortada por um rio que leva ao Mangue Seco, região habitada principalmente por pescadores e pastores que é habitualmente utilizada como pastagem de cabras. A cidade é descrita muitas vezes, pelos próprios personagens que vivem no local, como o fiofó do mundo ou como o lugar onde o Judas perdeu as botas. Isso porque não existem boas estradas para a região, somente uma estrada de barro e de dunas liga Santana do Agreste à vizinha Esplanada e, somente um ônibus realiza esse trajeto, ou melhor, somente a marinete de Jairo (Elias Gleizer) faz a ligação entre Santana do Agreste e o resto do Brasil (Esplanada). Além da dificuldade de acesso, a cidade não possui energia elétrica, fato que a isola ainda mais do restante do Brasil.

Tieta é uma adolescente liberal demais para os padrões da pequena cidade, ela é pastora de cabras e costuma circular sempre pela região do Mangue Seco, onde se deita com alguns homens e é desejada por tantos outros. Até que um dia, seu pai, Zé Esteves, com a ajuda de Perpétua, sua irmã, a surpreende na cama com um homem. Era demais para a moral do velho, a sua atitude, então, foi escorraçá-la da cidade. Puxada pelos cabelos e sob muitos gritos, Tieta é colocada na marinete do Jairo com uma única ordem, levá-la para bem longe. Poucas pessoas a ajudaram, somente Tonha, que se agarrou à enteada, impedindo as cajadadas de Zé Esteves, assim como Dona Milú (Miriam Pires) e Carmosina (Arlete Salles), que apartaram a briga e entregaram todo o dinheiro que tinham em mãos para a amiga.

Tieta vai para São Paulo e depois de passar por todo tipo de privação consegue ficar rica. É nesse período de grandes privações que ela conhece Ninete (Rogéria). As duas eram prostitutas em São Paulo, mas Ninete, mais antiga no ramo, ajuda a Tieta e praticamente a adota. Até que por uma grande sorte do destino, Tieta torna-se rica e dona de um bordel no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Ela decide então se vingar da cidade que a humilhou e a expulsou.

Durante dez anos, ela envia dinheiro para a família regularmente. Os parentes passam a pedir cada vez mais dinheiro e, para isso, inventam filhos que morreram, sobrinhos que estudam em escolas pagas, etc. Tieta alimenta a ganância dos parentes a distancia até que vinte cinco anos depois ela volta para cumprir seu plano de vingança.

Na sua volta, todos que condenavam seus hábitos passam a admirá-la, principalmente, por ter se tornado uma mulher rica. Tieta muda os hábitos da cidade, ela traz luz para Santana do Agreste graças aos seus contatos com homens influentes e passa a distribuir presentes, principalmente eletrodomésticos, para quase todos os moradores. Mas Tieta também está preocupada em ajudar algumas pessoas, por exemplo, a madrasta Tonha, a irmã Elisa (Tássia Camargo) e a amiga Carmosina.

Para ajudar Elisa, ela resolve investir no negócio do marido da irmã, para isso manda Timóteo (Paulo Betti) a São Paulo. Na cidade grande, ele é recepcionado pela personagem Ninete, a fada madrinha de Tieta do Agreste, ela é responsável pelos negócios de Tieta, mas também por “refinar” os amigos dela. É ela que vai apresentar, em São Paulo, novas oportunidades de negócio para o acanhado comércio de Timóteo.

Ninete é uma espécie de procuradora, ou melhor, uma espécie de faz tudo, conselheira amorosa, conselheira financeira, conselheira de etiqueta, ela resolve todos os problemas de Tieta, desde problemas na bolsa de valores até surras em inimigos da amiga.
Para Tonha, Tieta manda vir de São Paulo a sua fada madrinha Ninete, ela vem para trazer notícias dos negócios de Tieta e também para também levar Tonha para São Paulo, que se constrói em oposição a Santana do Agreste como a civilização.

Para Carmosina, Tieta manda vir o prestamista Gladstone (Paulo José), uma espécie de vendedor ambulante, e paga pra ele tirar a virgindade da amiga. Gladstone termina fazendo mais do que isso, ele se apaixona e engravida Carmô. Quando esta descobre que o amante foi pago para estar com ela, eles brigam e se separam, mas após o nascimento da filha voltam a ficar juntos.

Em Santana do Agreste, Tieta se envolve sexualmente com o sobrinho Cardo (Cássio Gabus Mendes) e com Osnar (José Mayer).

Arturzinho da Tapitanga/Mirkos Stephano (Marcos Paulo), filho do Coronel Artur da Tapitanga (Ary Fontoura), retorna à cidade com planos de instalar uma fábrica no Mangue Seco que irá poluir toda a região. Enquanto ele vai tramando a destruição da cidade, Tieta começa a desistir do seu plano de vingança. Quando os dois personagens abrem o jogo um pro outro sobre o que estão fazendo ali, Tieta decide lutar contra Arturzinho, lutar para que a cidade não seja destruída. Mas Arturzinho faz muitos inimigos em Santana do Agreste e termina sendo assassinado por ordem do próprio pai, o coronel da Tapitanga.

Perpétua revela o segredo de Tieta para todo mundo (é rica não porque se casou com um homem que lhe deixou uma fortuna após morrer, e sim por ter um bordel em São Paulo), mas ela não tem como provar. No final, Tieta acaba voltando para São Paulo e depois uma tempestade de arreia aterra toda a cidade.

Aspectos fixos dos personagens homossexuais: “Posição do personagem no enredo: se é principal, coadjuvante, se faz ponta, figuração, citada ou recorrida.” (Moreno, 2001, p.167).
Ninete é a personagem mais aguardada da novela, enquanto Tieta foi comentada em dezessete capítulos até o seu aparecimento já adulta em Santana do Agreste, Ninete foi falada durante vinte e cinco capítulos, ou seja, por mais de um mês os personagens da novela comentaram sobre a misteriosa Ninete e tiveram que aguardar em clima de suspense a sua chegada a Santana do Agreste.

No primeiro diálogo sobre a personagem, já fica subentendido que o mistério dela tem algo a ver com a sua sexualidade. É Tieta que confusa tenta explicar o mistério sobre Ninete, ainda nesse capítulo ela diz para Elisa: E tenho... um procurador que é uma procuradora... uma pessoa da maior qualidade que se chama Ninete.

Para todos os telespectadores já estava claro a confusão, isto porque a participação da travesti Rogéria já era divulgada na mídia nessa época. Porém, para os personagens da trama, o mistério só foi esclarecido vinte e oito capítulos depois.

A personagem Ninete é coadjuvante, ela aparece sempre ligada a Tieta, resolvendo os problemas que esta não pode resolver, é a trava-madrinha do agreste. Ela é falada durante vinte e cinco capítulos, depois aparece em somente quatro e após a sua despedida ela aparece apenas como citação.

“Contexto social do personagem: a que classe ele pertence” (Moreno, 2001, p.167):
Como a maioria das representações de travestis no Brasil, Ninete é uma personagem ligada ao mundo da prostituição. Ela conheceu Tieta fazendo vida, depois, com o enriquecimento de Tieta, passa a cuidar do bordel da amiga e a administrar outros negócios. Sua classe social não é bem definida, mas diria que varia entre classe média alta e classe alta.

Cor:
Parda.

Profissão:
Ex-prostituta, ela passa a trabalhar como uma espécie de braço direito de Tieta, resolvendo todos os seus problemas, desde surras em inimigos até negociações com políticos para trazer luz elétrica para Santana do Agreste.

Aspectos da linguagem utilizada e da composição geral do personagem:

Tipos de gestualidade:
1) estereotipada, com gestual explícito que caracteriza de forma debochada e desrespeitosa à personagem homossexual;
2) gestualidade típica de alguns sujeitos queer, especialmente os adeptos de um comportamento/estética camp;
3) não estereotipada (gestual considerado “normal” e “natural”, sem indicação de homossexualidade, inscrito dentro de um comportamento heterossexual);
Ninete é uma personagem claramente queer, por isso se encaixa no grupo 2. “Queer é tudo isso: é estranho, raro, esquisito. (...) Queer é um corpo estranho, que incomoda, perturba, provoca e fascina.” (Louro, 2004, Págs. 7-8). Sua estética é camp, seus trejeitos lembram as grandes divas do cinema clássico de Hollywood: sua boca está sempre fazendo biquinho e os ombros estão sempre encolhidos. Sua chegada em Santana do Agreste é escandalosa: o carro pára na praça da cidade, o motorista abre a porta, Ninete estende a mão, há um close na mão da personagem, os homens da cidade se entreolham, o motorista lhe dá a mão e ela desce.

Sua performatividade de gênero está tão fora do padrão bipolar homem x mulher que imediatamente após a sua chegada em Santana do Agreste todos começam a comentar que há algo estranho em Ninete. Por exemplo, o diálogo abaixo entre Osnar (José Mayer) e Amintas (Roberto Bonfim):
Osnar: O que é que tu acha... hein?
Amintas: Homi... tem alguma coisa errada com essa dona que eu não sei o que é.
O: Mas eu aposto que tu vai descobrir... não vai?
A: Oxe... ou eu não me chamo Amintas.

“Subgestualidade: compreende o vestuário, maquiagem e adereços utilizados/usados pela personagem” (Moreno, 2001, p. 167):
Ninete é uma diva, por isso as primeiras palavras que fala são em francês, ela pede para ir ao toalete, dá gritinhos e depois fala que está Mooooorta. Suas roupas são esvoaçantes e geralmente monocromáticas, ela chega toda de rosa à cidade. Seus brincos e óculos são grandes, seu cabelo loiríssimo está sempre bem armado, suas unhas são grandes e vermelhas, sua boca carnuda está sempre com batom bastante vermelho. Pode-se dizer que a sua roupa favorece o tom camp da personagem.

Análise de seqüências: “É um recurso para detalhar mais as ações de um filme (em nosso caso a telenovela ou as peças) e explicitar o seu conteúdo de forma minuciosa, como diante de uma lente de aumento.” (Moreno, 2001, p. 168):

Analiso duas seqüências da novela que considero muito importantes para definir o papel de Ninete dentro da trama de Aguinaldo Silva.

Primeiro, como de praxe em grande parte das novelas que trazem personagens não heterossexuais, podemos afirmar que a personagem Ninete faz parte de uma narrativa de revelação. Confirmo essa hipótese com duas cenas.

Segundo Colling, em seu artigo Personagens homossexuais nas telenovelas..., a narrativa de revelação é a única história que pode ser contada por personagens não heterossexuais, ou seja, a presença dos homossexuais nas historias apenas envolvia a suspeita de suas orientações, que é revelada somente próximo ou no final das tramas . Assim, o discurso de revelação implica sempre em uma confissão da identidade sexual/de gênero. Esclareço apenas que a revelação/confissão de Ninete dá-se logo no terceiro capítulo em que ela aparece, devida a curta participação da personagem na novela. Como disse acima, a personagem aparece em apenas quatro capítulos, ainda que seja citada em muitos outros.

Depois tento com outras duas cenas mostrar o caráter de trava-madrinha de Ninete, são notáveis as mudanças realizadas por ela em Tonha. Esta, depois de ter vivido um período com Ninete em São Paulo, passa a imitar seus trejeitos. Ninete é sinônimo de elegância não só para Tonha, mas também para outras mulheres da cidade.

Primeira Seqüência
No capítulo 40, após o retorno de Timóteo de São Paulo, Elisa, sua mulher, vai perguntar a Tieta informações sobre Ninete. Ela diz ao marido que Tieta havia afirmado ter um procurador e não uma procuradora e, com ciúmes, vai até a irmã para confirmar a veracidade da história de Timóteo.

Elisa: Tu falou de uma tal de Ninete... que mulher é essa?
Timóteo: Ninete é a procuradora de Tieta... ela que foi me esperar quando desembarquei em São Paulo.
E: Peraí... seu Timotéo... Tieta sempre disse que tinha um procurador.
T: É... sim... claro... mas quando eu cheguei em São Paulo.. imagine... o procurador... era mulher.
E: Ah... então eu vou perguntar para Tieta... pra ver se o senhor tá mentindo... num sabe?
Elisa encontra Tieta.
Tieta: Pois o seu marido não está mentindo não.
Elisa: Mas tu não disse que tinha um procurador?
Tieta: E tenho... um procurador que é uma procuradora... uma pessoa da maior qualidade que se chama Ninete.
Elisa: Vixe Maria... e ainda mais com esse nome de Ninete.
Tieta: E se tu está pensando que Ninete andou dando atrás do seu marido tá muito enganada... pode ir tirando o cavalinho da chuva que Ninete não é dessas coisas... e agora anda vá.
Logo após a saída de Elisa, entra em cena Leonora (Lídia Brondi).
Leonora: Mãezinha... não era melhor você ter contado logo de uma vez?
Tieta: Tu tá louca? Elisa não ia aceitar... ia ser ainda pior.

Na seqüência acima, podemos visualizar o velho debate da sexualidade que cerca personagens não heterossexuais. As especulações sobre o que Ninete tem de “estranho” atingem a quase todos os personagens, principalmente os homens. É quando Amintas tenta descobrir o que Ninete tem de diferente, dando em cima dela, que Ninete revela que também é homem.

A travesti realiza no corpo e na performatividade a negociação permanente entre dois sexos naturalizados e tidos como “normais”, o masculino e o feminino. Por isso, em situações limites para afastar ou constranger um agressor, pode-se assumir o papel do homem, como acontece com a personagem Ninete ao ser agredida por Amintas.
Amintas: Olhe... mas eu posso ser muito mais que um simples guia turístico... num sabe? Se a senhora tiver interessada.
Ninete: Eu não estou nada interessada cavalheiro.
A: A senhora já ouviu falar na praia de Mangue Seco... já?
N: O senhor está sendo muito inconveniente... sabe?
A: Oxe... mas eu to fazendo o possível pra lhe agradar.
N: Até agora tem feito o possível para me desagradar profundamente.
A: Me digê... é.. tem alguma coisa que eu possa fazer pra senhora mudar de ideia?
N: O senhor não se enxerga não? Está me incomodando cavalheiro.
A: Oxe... mas olhe...eu posso incomodar muito mais.
N: Pois afaste-se de mim um quilômetro.
Ninete dá as costas para Amintas. Ele insinua para os amigos que vai pegar na bunda dela. Os outros homens o apóiam, exceto Timóteo. Amintas, então, pega na bunda de Ninete.
N: SEU CAFAJESTE.
Ninete dá um murro na cara de Amintas que cai pra trás, longe do lugar em que estava. Os homens o ajudam a se levantar.
A: Oxe... mas o que que foi isso moça? A senhora enlouqueceu é?
Ninete coloca as mãos na cintura.
N: MOÇA COISA NENHUMA CARA... TÁ VENDO ALGUMA SENHORA AQUI NA SUA FRENTE? FIQUE SABENDO QUE MEU NOME É VALDEMAR.

Segunda Seqüência
Nesta seqüência, temos o diálogo entre Tieta e Tonha, as duas conversam sobre as experiências de Tonha em São Paulo.
Tieta: Tonha... tu deu esbregue no homem?
Tonha: Dei sim... eu disse o que ele queria ouvir e o que ele não queria tomem... e foi ai que Ninete chegou... e Ninete tava lá o tempo todo... viu Tieta? Tava lá me espiando de longe... me protegendo sem eu saber.. Ninete tava me ensinando uma lição muito dura... mas era tudo que eu precisava aprender pra ter um pouco de confiança em mim... Dispois a gente foi pra casa.
Ti: Ninete é completamente alucinada Tonha... olha... mas se tu quer saber... eu teria feito o mesmo... viu?
To: Depois disso... ela falou que eu podia vortar se eu quisesse... mas eu não queria... não precisava mais... queria vortar sim... mas depois de fazer tudo que eu tinha que fazer lá... num é?
Ti: Então... valeu a pena.
To: Tu vai dizer..
Tonha se afasta de Tieta e começa a andar como Ninete.
Ti: Deixa eu ver...
Tonha desfila para Tieta.
To: Peito erguido... olhar no horizonte e lá vamos nós... e vorteia... Tieta tu tava coberta de razão... esse mundo é muito maior do que Santana do Agreste... e eu tô nova ainda... oh... sabe o que é que Ninete falou? Que donde a gente ia o povo olhava pra mim com os olhos embuticados...
As duas caem na gargalhada.
Ti: Então... tu tá feliz.
To: Tô... mas também tô com medo... não sei o que vai ser da minha vida Tieta... mas de uma coisa eu tenho certeza... bestalhona do jeito que eu era nunca mais... viu? Obrigada... obrigada..
As personagens se abraçam.

Fica bastante claro, pelo visto acima, como Ninete atua para transformar a vida das pessoas e também como Tonha passa a se espelhar em Ninete, passando a ser um modelo de comportamento para a madrasta de Tieta, inclusive gestualmente. Mas a transformação de Tonha não é só gestual, é também na forma de falar, de se vestir e de se maquiar – é toda a performance da personagem.
Desde o dia que voltou, Tonha parece dividir o mesmo figurino com Ninete. Além de tudo isso, Ninete dá uma aula sobre bolsa de valores para Tonha.
Tonha: Ninete... aquela santa criatura... quando ela me mostrou as ações que tu me deu... ela me falou sobre investimento... ela me deu foi aula sobre bolsa de valor e ela disse... a vida pra essa gente é um jogo.
Tieta: É isso é verdade...

Características gerais da personalidade do personagem: criminoso, violento, psicopata, saudável, calmo etc.:
A personagem é mostrada como uma mulher de negócios, mesmo trabalhando como a gerente de uma casa de prostituição. Sempre que Tieta pede alguma satisfação a Ninete, ela entrega toda a contabilidade em pastas de forma muito organizada. Mas ela também costuma resolver alguns negócios de Tieta de forma duvidosa, por exemplo, conseguir retirar Leonora da cadeia e arquivar o processo criminal dela, mandar espancar o ex-namorado de Leonora para lhe dar uma lição, convencer políticos a levarem energia elétrica a Santana do Agreste, providenciar o histórico da Brastânio, empresa que pretende se instalar em Mangue Seco. Não fica claro nessas suas ações, a forma com que a personagem resolve esse tipo de problema de Tieta.
Porém, considero a personagem calma, elegante, culta e eficiente. Como podemos ver no diálogo entre Ninete e Tieta:
Ninete: Ora Tieta... faz favor.. dê uma olhada aqui no modelito.. dá uma olhada e veja.. sou ou não sou uma lady?
Tieta: Tu é uma lady... tu é uma lady quando tu quer... mas quando fica desvairada.
Ninete: É só quando me provocam... aí eu realmente fico uma fera... mas fique descansada porque aqui em Santa do Agreste... em matéria de classe a rainha da Inglaterra perde pra mim.. tá?

Aspectos sobre a sexualidade do personagem

Personagem se apresenta (assume verbalmente) como: gay, lésbica, travesti, transformista, transexual, transgênero, intersexo, bissexual:
Como Rogéria, que interpreta a personagem Ninete, costuma dizer, ela é a travesti da família brasileira. Então, como se é de esperar, Ninete em determinado momento da trama fala que é homem, em outros, fala que é mulher, mas não existe nenhuma idéia sobre quais são suas preferências sexuais, muito pelo contrário, o único momento em que ela foi assediada, no caso por um homem, ela deu-lhe um murro e ainda disse que era homem também. Não há em toda a trama sugestão alguma sobre as preferências sexuais de Ninete, ela é assexuada.

Em que ponto da narrativa fica claro que o personagem é homossexual?
No terceiro capítulo em que a personagem aparece de fato, sem ser apenas citada, fica claro que a personagem não é heterossexual. Mas não há uma verbalização de quais são as preferências sexuais da personagem, ainda que ela se apresente ora como mulher ora como homem, ela é construída como uma personagem assexuada.

Como se dá a performatividade de gênero? Que normas ou conjunto de normas o personagem reitera e/ou reforça?
Ninete habita o entre-lugar das perfomatividades de gênero, recusa papéis fixos e assume a transição. Primeiro, Tieta a apresenta para a cidade inteira como mulher (Ninete), depois, no bar, quando é agredida ela se apresenta como homem (Valdemar). Ninete repete parodicamente, porque exagerada, porque irônica, porque camp, os padrões binários estereotipadas: macho e fêmea, mas não é subversiva; quando mulher é frágil, dócil, fala mansamente, faz biquinhos, ombros encolhidos, jogadas de cabelo; quando homem é forte, agressivo, fala grosso, parte pra cima. Porém, para ser aceita pelo público, Aguinaldo Silva criou uma personagem assexuada.

Logo após se revelar homem no bar da cidade, depois da briga, já na casa de Tieta, ela conversa com Leonora.
Ninete: Não... você sabe que eu não gosto de escândalos... eu sempre procurei fazer uma mulher fina... lady... mas quando me provocam.. você sabe que eu viro uma lavadeira... não é?
(...)
Leonora: Me diga uma coisa... e depois do soco o que foi que aconteceu?
Ninete: Absolutamente nada... joguei o cabelo e saí linda e maravilhosa pisando naquele salto maria porreta... eu estava majestosa.

Resumo conclusivo e redutor sobre a representação dos homossexuais na sociedade:
Resultado 1: forte carga de estereótipos e outras características que contribuem para a reduplicação dos preconceitos e da homofobia;
Resultado 2: caracteriza os personagens com alguns elementos da comunidade queer, constrói um tratamento humanístico e contribui para o combate aos preconceitos e a homofobia;
Resultado 3: caracteriza os personagens homossexuais dentro de um modelo heteronormativo que contribui para a reduplicação dos preconceitos e da homofobia;
Resultado 4: caracteriza os personagens homossexuais dentro de um modelo heteronormativo, mas constrói um tratamento humanístico e contribui para o combate aos preconceitos e a homofobia;
Resultado 5: indica uma representação dúbia e produz dúvida sobre o tratamento dado.

A construção da personagem aproxima-se muito do resultado dois, mas não se realiza por completo. Ninete é uma personagem camp tratada de forma humana por alguns personagens da novela, como Tieta, Carmosina, Dona Milú, Tonha, Comandante Dário (Flávio Galvão) e até pelo padre Mariano (Cláudio Correia e Castro), porém, sempre dentro de um tom de respeito e tolerância à diferença.

O padre Mariano, um padre liberal, por exemplo, chega a dizer que não vê problema em Ninete ser assim, já que ela não estaria fazendo nada mais do que seguir os impulsos da sua natureza, mas, em compensação, se opõe a presença de Ninete, vestida de mulher, na sua igreja. Vale lembrar que o padre aceita a presença de todas as outras pessoas na igreja, inclusive chegou a rezar uma missa pelo restabelecimento de Zuleika Cinderela (Maria Helena Dias), cafetina da cidade, contrariando toda a comunidade de beatas da sua igreja.

Dona Milú, que continua a ver Ninete como uma pessoa distinta e fina, diz que pra ela não faz diferença porque na idade dela não dá pra se espantar mais com nada. Ricardo, que primeiro condena Ninete por contrariar as leis de Deus e depois, convencido por Tieta, passa a defendê-la, muda de posição apenas porque ele também tem seus pecados (a relação amorosa/sexual com a tia), ele recolhe as suas pedras pra não receber uma pedrada maior. Tieta diz que não vê problemas em Ninete ser assim e justifica a sua amizade com ela, pelo fato de ter sido Ninete a tirá-la da sarjeta. Carmosina aceita Ninete por ter sido ela a ajudar Tieta. Comandante Dário não vê problema também, para ele cada um se veste como quer e ninguém têm nada a ver com isso.
Mas todos esses discursos são muito insossos, pautados exclusivamente por uma tolerância particular que não desconstrói e que não problematiza para os outros o preconceito, são apenas discursos de tolerância, motivados muitas vezes por questões particulares.

Enquanto isso, o discurso da intolerância tem um apelo muito mais forte para o telespectador, já que apela para as leis de Deus, para a idéia de um sexo natural, para a proteção da instituição familiar. Além de tudo, esse é o discurso que foi mais repetido na novela, o discurso do abjeto. Perpétua que é a vilã da novela, mas também é carismática e engraçada, encabeça o discurso moralizador e começa a preparar uma marcha das mulheres da cidade para expulsar Ninete de Santana do Agreste.

E o pior é que a permanência de Ninete na cidade só é assegurada por Tieta porque ela faz uma chantagem com Perpétua, dizendo que caso esta continue com a idéia de expulsar Ninete, ela seria obrigada a contar pra toda a cidade o que Perpétua guarda dentro da caixa-branca (o pinto do marido falecido), fato que também a desmoralizaria.

Esse é o discurso que Tieta faz sobre Ninete: Mas também... cada um tem o direito de ter a sua doideira... cada pervertido também tem o direito de ter a sua perversão... quem sou eu pra criticar os outros... mas se tu pensa que eu não vou usar o que eu descobri... tu tá muito enganada... contra as tuas safadezas qualquer arma vale.

Além disso, piadas homofóbicas podem ser encontradas na novela, ainda que não sejam relacionadas a Ninete, mas a outros personagens, por exemplo, quando encontram as calças dos homens roubados pela mulher de branco, Osnar faz o seguinte comentário: Essa aqui com jeito de calça de baitola deve ser do engenheiro. Em seguida, todos os homens riem.
Por isso, acredito que o tratamento dado à personagem é dúbio e não ajuda a combater a homofobia, ou seja, resultado número 5.

Conclusão: um parecer
Ninete é uma representação ainda estereotipada da travesti porque recorre à idéia que liga a travesti sempre à prostituição, ainda que a personagem seja culta, bem relacionada e fina, como dizem algumas personagens. O tratamento dado à personagem, por autores e diretores, também é dúbio, porque fala de uma tolerância, sem problematizar a diferença e pior, reforça o discurso da intolerância por não problematizar os apelos da proteção à instituição familiar, por não problematizar as leis de Deus e a idéia de um sexo natural.


Referências Bibliográficas

1) BARBOSA, Bruno Cesar. Nômades da Norma: Corpo, gênero e sexualidade em travestis de diferentes gerações. Disponível em: . Acesso em 10 de junho de 2009.

2) BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e subversão de identidade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2008.

3) COLLING, Leandro. Personagens homossexuais nas telenovelas da rede Globo: criminosos, afetados e heterossexualizados. Disponível em: <>. Acesso em 10 de junho de 2009.

4) __________. Teoria Queer. Disponível em: . Acesso em: 10 de junho de 2009.

5) FOUCAULT, Michel. Historia da Sexualidade: a vontade de saber. Rio de janeiro, Edições Graal, 2001.

6) LIMA, Marcelo. Estranhas no paraíso: análise das personagens homossexuais femininas em Senhora do Destino. Disponível em: . Acesso em 07 de junho de 2009.

7) LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte, Autêntica, 2004.

8) MISKOLCI, Richard & PELUCIO, Larissa. Fora do Sujeito e Fora do Lugar: Reflexões sobre Performatividade a Partir de uma Etnografia entre Travestis. Disponível em: . Acesso em 12 de junho de 2009.

9) SILVA, Aguinaldo; MORETZSOHN, Ana Maria; LINHARES, Ricardo. UBIRATAN, Paulo; BOURY, Reynaldo; CARVALHO, Luis Fernando; WADDINGTON, Ricardo. Vale a pena ver de novo: Tieta. [Novela]. Direção Geral de Paulo Ubiratan. Rio de Janeiro, Tieta Media Share, 1994. 145 capítulos AVI, 45 min cada, colorido.

10) SILVA, Aguinaldo. Blog do Aguinaldo Sillva. Disponível em: Acesso em 13 de junho de 2009

11) SILVA, Tomaz Tadeu da (org.), HALL, Stuart. WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença. A perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis, Vozes, 2000.

Um comentário:

Mariana disse...

Oi, nossa, encontrei o seu blog por acaso e gostei bastante!!! Parabéns!