sábado, 31 de outubro de 2009

livros digitais já

a tecnologia de imprimir textos em papel (livros, jornais, revistas, etc) é ultrapassada e deve ser superada. essa afirmação soará bastante apocaliptica para alguns, principalmente para aqueles que trabalham direta ou indiretamente com o texto impresso. não quero dizer com isso que devemos fazer uma caça as bruxas contra as grandes bibliotecas e os pequenos colecionadores. não pensem em fahrenheit 451, ok? longe disso... acho inclusive que lugar de livros impressos é na biblioteca. estou defendendo sim! a popularização e o barateamento de tecnologia que facilite a leitura de livros não impressos (digitais). a impressão de livros e a forma como nós os utilizados enquanto construção da cultura deve ser superada por tecnologias mais limpas e acessíveis.

quando eu digo tecnologia limpa, estou pensando na quantidade de energia que desperdiçamos para imprimir um livro. pensemos no seu ciclo de produção mesmo na sua forma ecologicamente correta: árvores são plantadas, água é gasta para que essas árvores cresçam, fertilizantes químicos são utilizados para melhorar a qualidade do solo, o solo é empobrecido a longo prazo, energia é gasta para transformar a árvore em papel, essa mesma indústria polui a natureza, principalmente rios (temos inúmeros exemplos no Brasil) e, por fim, a maior parte desse papel vira lixo e uma ínfima parte tem uma longevidade maior nas bibliotecas ou é reciclada. e reinicia-se o ciclo de destruição.

ecologicamente e culturalmente essa destruição deve ser superada, pensemos: o escritor ou o jornalista hoje utiliza quase sempre um computador para escrever, porque esse livro precisa necessariamente virar impressão? se tivermos uma tecnologia que não permita alterações no livro e que tenha algum tipo de autenticação e catalogação; se tivermos uma ferramenta mais poderosa que o pdf, teremos superado o problema das alterações nos originais; se tivermos uma tecnologia que facilite o transporte e o armazenamento de inúmeros livros; se essa tecnologia permitir encontrar palavras (o famoso Ctrl + F) e permitir também marcar o texto sem alterá-lo... para quê precisaremos de livros impressos? além de tudo, esse tipo de tecnologia acarretaria necessariamente um barateamento desse bem cultural.

os puristas irão me falar e para isso evocarão até clarice lispector (felicidade clandestina) para falar do prazer do tato com o livro, do cheiro do livro, etc. calma pessoal! eu tenho sido até aqui bastante radical talvez. pensemos: o mp3 destruiu o vinil? acabou com o cd? o vhs acabou com o cinema? o avi destruiu o dvd? não, né? penso que o mesmo possa ser feito com livros impressos: que eles virem bens para colecionadores e que se mantenham acervos de livros impressos em bibliotecas. para as pessoas que precisam do tato e do cheiro do livro (geração que pode ser superada por outras gerações que passem a utilizar o livro basicamente no formato digital) o livro poderia continuar sendo produzido, temos o exemplo, atualmente, das editoras digitais. como elas funcionam? para aqueles que desejam o livro impresso, basta acessar o site e fazer o pedido. o livro, então, é impresso especialmente para aquela pessoa. além disso, poderiamos continuar mantendo o acervo impresso em bibliotecas públicas. porque e para quê isso? sabemos que tecnologias digitais são falíveis e caso (teoria da conspiração) haja alguma pane no sistema? nesse caso, contaríamos ainda com o acervo das bibliotecas públicas. o homem também não esqueceria como produzir livros impressos, né? ainda que se mantenha a impressão de livros para bibliotecas e para colecionadores, o livro digital popularizado através de tecnologias limpas e baratas implicaria em uma destruição menor do meio ambiente e em uma acessibilidade facilitada a alguns cliques do mouse.

os argumentos contra tudo que tenho dito cairão então na sobrevivência do escritor. como iria sobreviver esse escritor? pensemos: no caso de revistas e jornais, a publicidade garante a receita e a sobrevivência desses meios. inclusive, a maior parte dos jornais, hoje, disponibiliza gratuitamente seu conteúdo quase sempre na totalidade no espaço virtual. esses veículos de comunicação não faliram, estão sim passando por uma fase de reestruturação. no caso dos livros de literatura ou técnicos, poderíamos pensar, então, em bolsas de incentivo para escritores. isso já acontece. inúmeros escritores conseguem parar as suas vidas para escreverem livros através de bolsas do governo, sejam pesquisadores ou literatos. ou seja, uma política de incentivos mais valorizada e mais popular manteria ativo os escritores. ok... é isso mesmo... o estado continuará a ser o mecenas, pelo menos por enquanto. o debate está aberto para se pensar outras formas de sobrevivência. esse problema também poderia ser solucionado através da cobrança online do download desses livros, eu não considerei essa possibilidade nesse texto porque acredito que o livro será gratuito, assim como o mp3 e o avi é e deverá continuar a ser.

paro por aqui e continuo esperando novas críticas ao fim dos textos impressos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

você já foi a baía? - 1944


no auge da política de boa vizinhança norte-americana com a américa latina foi lançado no brasil "você já foi a baía?", em 1944, famoso desenho animado em que pato donald passeia por uma américa latina exótica e esquisita como diz a narração do desenho animado ou melhor um passeio "lá no fim do mundo".

sobre a bahia, zé carioca a descreve como uma cidade com ar romântico, música e garotas. no desenho encontramos as imagens clássicas do elevador lacerda, os casarões antigos, as ladeiras, uma floresta exótica ao redor da igreja do bonfim. mas o que mais chama atenção são as baianas de acarajé todas brancas e os malandros músicos, vendedores de frutas ou capoeiristas igualmente brancos. a baía é uma cidade que dança. uma cidade mítica.




quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Bahia que GIl e Caetano não cantaram - Gato Preto

GATO PRETO
A BAHIA QUE GIL E CAETANO NÃO CANTARAM


Iludidos, vê só quem chegou
Pode me chamar de Gato Preto, o invasor
Vou mostrar a Bahia que Gil e Caetano nunca cantaram
Bahia regada a sangue real
Que jorra com intensidade em época de Carnaval

Falo do pescador que sai às três da manhã
Pedindo força a Iemanjá e a Iansã
Sai cortando as águas do mar da vida
Querendo pescar uma solução, uma saída

A Bahia da guerreira baiana que chora
Que travou uma luta e perdeu na batalha seu filho pra droga
Bahia do ser que vive de migalhas, esmolas
E água sem cloro no seu rosto jorra

Bahia da queda dos morros, barracas dos Alagados
Bahia do descaso, descamisados, desabrigados
Falo da venda do voto, do voto comprado
ACM domina com chicote na mão e dinheiro do lado

A noite foi fria, só que agora o sol está quente
O Que não esquenta é o coração dessa gente
Que não se revolta contra a ordem predatória
ACM domina com chumbo, moeda e palmatória

Desordem, desgraça, desamor, desemprego,
Descaso, disparate, danos, desespero
O poder baiano é doentio, processo
Quer disperder, manter o povo disperso

Separado, abandonado, longe aniquilado
Mentalmente algemado em cárcere privado
Mantendo o povo no curral tipo gado
Assim, com certeza garante o seu eleitorado

Não falo da beleza, da Barra, Pituba, Pelô
De praias lindas, de Porto Seguro, Ilhéus, Salvador
Da praça Castro Alves, Mercado Modelo, Elevador
Da história de Mãe Menininha, Mãe Dulce e Dona Canô
Não falo da moça bela nas ondas do mar que Caymmi narrou

Relato o sofrimento da escravidão, do negro nagô
Da política perversa que o meu povo escravizou
Lembro da lavadeira, do lavrador
Do Velho Chico e do pescador

Falo da prostituição infantil que aumentou
Da Bahia que o cartão-postal nunca mostrou
A Bahia do mercado informal, do camelô
Essa é a Bahia que Bethânia nunca cantou

Vem conhecer a Bahia, sou um guia diferente
Mostro a verdadeira cara da nossa gente
Vai ver que não é só Carnaval, praia e acarajé
Vai ver o que é não ter alimento e manter-se de pé
Bahia de Todos os Santos? Besteira
Olho meu povo se alimentando de restos de feira

Terra de jagunço, polícia assassina
Quantas mães perderam filhos nessa guerra fria?
Bahia titanic, Bateau Mouche
Educação, política séria não se discute

Vem comigo, calma, eu lhe mostro logo
O lugar que as crianças morreram fabricando fogos
Somos náufragos nesse mar vermelho
E os botes salva-vidas são só para quem tem dinheiro

Olha só a ilusão daquele bobo
Pensa que aqui é só mulher, samba e água de coco
Acredita no que a tevê passa, deve tá louco
Ele não sabe que a maioria aqui passa sufoco

Saudades de Betinho, um grande homem
Não esqueço da campanha contra a fome
Ele dizia: “Onde come um, dois também comem”
Solidariedade, vida, cidadania

Estas rosas morrem logo, se fossem eternas quem diria?
Se florescessem nos corações dos corruptos da Bahia...
Não posso ficar batendo o tambor, se sofreu o nego banto
Terra do meu herói, saudoso Milton Santos

Terra de mortes, crimes encoberto
Terra de riquezas pra poucos, miséria pro resto
Terra de cultura e rico dialeto
Os ignorantes dizem que o linguajar é incorreto

Bahia de coreografia pornográfica
Criança de doze anos excita magnata
Quando ele vê ela rebolando na garrafa
Cenas exibidas aos domingos na tela mágica

Jorge, Gabriela, Cravo e Canela
Ilhéus, becos, buracos, barracos, taperas
Linda, formosa, tão bela
Tiros, policiais, drogas, favela

Espantosa tradição, atos absurdos
Quantas cabeças foram decapitadas em Canudos?
Engenho, seca, senhores, político, coronel
Trabalho escravo infantil em grande escala ou a granel

Turista, pega a câmara, vamos passar no farol
Mas não no Farol da Barra, do trânsito
Preparem-se, a visão é triste, causa espanto
Olhos famintos, pés descalços, pretos e brancos
Numa frase infeliz ouvi dizer que a Bahia é de todos os santos

O cronista a que se chama Gato Preto
Nascido em Ilhéus, no cento do gueto
Pele escura, olhos vermelhos, cabelos crespos
Antepassado africano, descendente negro
Pane, Extremamente salve do gueto
Todos descendentes do mesmo povo preto

A intenção é mostrar a verdadeira cara da minha terra
Sem inverdades, maquiagens, cenas de novelas
Desculpas pelas rimas pobres, poesia rúsica
Mas essa é a Bahia que Gil e Caetano não cantam em suas músicas.

GATO PRETO nasceu em Ilhéus, BA, e pertence à família do grupo de Rap GOG e ao grupo Extremamente, de Cordel Urbano

IN: Literatura Marginal. Talentos da escrita periférica. Organização Ferrez. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

vera verão


Estou escrevendo um trabalho sobre o ator Jorge Lafond ou melhor estou escrevendo um artigo sobre o personagem Bob Bacall interpretado pelo ator na novela Sassaricando. Nas minhas vasculhadas no Google encontrei duas informações que compartilho aqui:

a) Segundo alguns sites, o padre Marcelo Rossi teria causado a morte do ator. Exageros ou não... o fato é que em 10 de novembro de 2002 o ator participou de um quadro "Homens x Mulheres" do progama Domingo Legal. Segundo seu empresário, o padre Marcelo Rossi que seria a próxima atração do programa solicitou a retirada do ator do palco por ele ser homossexual e candomblecista. Lafond foi retirado do palco e uma semana depois passou por uma série de internações, sendo diagnosticado com depressão, crise renal, respiratória, etc... e morreu logo depois. É claro que o padre não matou Lafond até porque se ele fosse morrer vítima de preconceito já teria morrido muito antes... mas é bom sabermos disso, para pensarmos na suposta santidade do padre Marcelo Rossi. É bom que se divulgue esse tipo de comportamento do padre Marcelo Rossi e de tantos outros que nos agridem simbolicamente e fisicamente todos os dias!

b) A outra notícia é que Jorge Lafond teria se oferecido ao Ministério da Saúde para filmar uma campanha de prevenção a AIDS, melhor... uma campanha sobre camisinha. Uma série de grupos organizados (GGB, etc) se colocaram contra por considerar Jorge Lafond um perpetuador de um esteriótipo gay, serviria ele como um modelo do que o gay não é ou não deveria ser. Eu celebro a fexação de Lafond, celebro a sua diferença e sua coragem. Existem milhões de Lafond nas ruas e nos armários de Salvador e do Brasil e prefiro o seu jeito debochado e escroto do que a representação institucional que se pretende criar da comunidade LGBT, coisas do tipo: "somos normais, casamos, somos monogâmicos, podemos adotar, fazemos papai-mamãe, etc"

Por isso tudo, obrigado boneca! Obrigado Lafond!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Mear y Cagar


BASURA Y GÉNERO. MEAR/CAGAR. MASCULINO/FEMENINO
Por Beatriz Preciado

Más acá de las fronteras nacionales, miles de fronteras de género, difusas y tentaculares, segmentan cada metro cuadrado del espacio que nos rodea. Allí donde la arquitectura parece simplemente ponerse al servicio de las necesidades naturales más básicas (dormir, comer, cagar, mear..) sus puertas y ventanas, sus muros y aberturas, regulando el acceso y la mirada, operan silenciosamente como la más discreta y efectiva de las "tecnologías de género."(1)

Así, por ejemplo, los retretes públicos, instituciones burguesas generalizadas en las ciudades europeas a partir del siglo XIX, pensados primero como espacios de gestión de la basura corporal en los espacios urbanos (2) , van a convertirse progresivamente en cabinas de vigilancia del género. No es casual que la nueva disciplina fecal impuesta por la naciente burguesía a finales del siglo XIX sea contemporánea del establecimiento de nuevos códigos conyugales y domésticos que exigen la redefinición espacial de los géneros y que serán cómplices de la normalización de la heterosexualidad y la patologización de la homosexualidad. En el siglo XX, los retretes se vuelven auténticas células públicas de inspección en las que se evalúa la adecuación de cada cuerpo con los códigos vigentes de la masculinidad y la feminidad.

En la puerta de cada retrete, como único signo, una interpelación de género: masculino o femenino, damas o caballeros, sombrero o pamela, bigote o florecilla, como si hubiera que entrar al baño a rehacerse el género más que ha deshacerse de la orina y de la mierda. No se nos pregunta si vamos a cagar o a mear, si tenemos o no diarrea, nadie se interesa ni por el color ni por la talla de la mierda. Lo único que importa es el GÉNERO.

Tomemos, por ejemplo, los baños del aeropuerto George Pompidou de Paris, sumidero de desechos orgánicos internacionales en medio de un circuito de flujos de globalización del capital. Entremos en los baños de señoras. Una ley no escrita autoriza a las visitantes casuales del retrete a inspeccionar el género de cada nuevo cuerpo que decide cruzar el umbral. Una pequeña multitud de mujeres femeninas, que a menudo comparten uno o varios espejos y lavamanos, actúan como inspectoras anónimas del género femenino controlando el acceso de los nuevos visitantes a varios compartimentos privados en cada uno de los cuales se esconde, entre decoro e inmundicia, un inodoro. Aquí, el control público de la feminidad heterosexual se ejerce primero mediante la mirada, y sólo en caso de duda mediante la palabra. Cualquier ambigüedad de género (pelo excesivamente corto, falta maquillaje, una pelusilla que sombrea en forma de bigote, paso demasiado afirmativo…) exigirá un interrogatorio del usuario potencial que se verá obligado a justificar la coherencia de su elección de retrete: "Eh, usted. Se ha equivocado de baño, los de caballeros están a la derecha." Un cúmulo de signos del género del otro baño exigirá irremediablemente el abandono del espacio mono‐género so pena de sanción verbal o física. En último término, siempre es posible alertar a la autoridad pública (a menudo una representación masculina del gobierno estatal) para desalojar el cuerpo tránsfugo (poco importa que se trate de un hombre o de una mujer masculina).

Si, superando este examen del género, logramos acceder a una de las cabinas, nos encontraremos entonces en una habitación de 1x1,50 m2 que intenta reproducir en miniatura la privacidad de un váter doméstico. La feminidad se produce precisamente por la sustracción de toda función fisiológica de la mirada pública. Sin embargo, la cabina proporciona una privacidad únicamente visual. Es así como la domesticidad extiende sus tentáculos y penetra el espacio público. Como hace notar Judith Halberstam "el baño es una representación, o una parodia, del orden doméstico fuera de la casa, en el mundo exterior" (3).

Cada cuerpo encerrado en una cápsula evacuatoria de paredes opacas que lo protegen de mostrar su cuerpo en desnudez, de exponer a la vista pública la forma y el color de sus deyecciones, comparte sin embargo el sonido de los chorros de lluvia dorada y el olor de las mierdas que se deslizan en los sanitarios contiguos. Libre. Ocupado. Una vez cerrada la puerta, un inodoro blanco de entre 40 y 50 centímetros de alto, como si se tratara de un taburete de cerámica perforado que conecta nuestro cuerpo defecante a una invisible cloaca universal (en la que se mezclan los desechos de señoras y caballeros), nos invita a sentarnos tanto para cagar como para mear. El váter femenino reúne así dos funciones diferenciadas tanto por su consistencia (sólido/líquido), como por su punto anatómico de evacuación (conducto urinario/ano), bajo una misma postura y un mismo gesto: femenino=sentado. Al salir de la cabina reservada a la excreción, el espejo, reverberación del ojo público, invita al retoque de la imagen femenina bajo la mirada reguladora de otras mujeres.

Crucemos el pasillo y vayamos ahora al baño de caballeros. Clavados a la pared, a una altura de entre 80 y 90 centímetros del suelo, uno o varios urinarios se agrupan en un espacio, a menudo destinado igualmente a los lavabos, accesible a la mirada pública. Dentro de este espacio, una pieza cerrada, separada categóricamente de la mirada pública por una puerta con cerrojo, da acceso a un inodoro semejante al que amuebla los baños de señoras. A partir de principios del siglo XX, la única ley arquitectónica común a toda construcción de baños de caballeros es esta separación de funciones: mear‐de pie‐urinario/cagar‐sentado‐inodoro. Dicho de otro modo, la producción eficaz de la masculinidad heterosexual depende de la separación imperativa de genitalidad y analidad. Podríamos pensar que la arquitectura construye barreras cuasi naturales respondiendo a una diferencia esencial de funciones entre hombres y mujeres. En realidad, la arquitectura funciona como una verdadera prótesis de género que produce y fija las diferencias entre tales funciones biológicas. El urinario, como una protuberancia arquitectónica que crece desde la pared y se ajusta al cuerpo, actúa como una prótesis de la masculinidad facilitando la postura vertical para mear sin recibir salpicaduras. Mear de pie públicamente es una de las performances constitutivas de la masculinidad heterosexual moderna. De este modo, el discreto urinario no es tanto un instrumento de higiene como una tecnología de género que participa a la producción de la masculinidad en el espacio público. Por ello, los urinarios no están enclaustrados en cabinas opacas, sino en espacios abiertos a la mirada colectiva, puesto que mear‐de‐pie‐entre‐tíos es una actividad cultural que genera vínculos de sociabilidad compartidos por todos aquellos, que al hacerlo públicamente, son reconocidos como hombres.

Dos lógicas opuestas dominan los baños de señoras y caballeros. Mientras el baño de señoras es la reproducción de un espacio doméstico en medio del espacio público, los baños de caballeros son un pliegue del espacio público en el que se intensifican las leyes de visibilidad y posición erecta que tradicionalmente definían el espacio público como espacio de masculinidad.

Mientras el baño de señoras opera como un mini‐panópticon en el que las mujeres vigilan colectivamente su grado de feminidad heterosexual en el que todo avance sexual resulta una agresión masculina, el baño de caballeros aparece como un terreno propicio para la experimentación sexual. En nuestro paisaje urbano, el baño de caballeros, resto cuasi‐arqueológico de una época de masculinismo mítico en el que el espacio público era privilegio de los hombres, resulta ser, junto con los clubes automovilísticos, deportivos o de caza, y ciertos burdeles, uno de los reductos públicos en el que los hombres pueden librarse a juegos de complicidad sexual bajo la apariencia de rituales de masculinidad.

Pero precisamente porque los baños son escenarios normativos de producción de la masculinidad, pueden funcionar también como un teatro de ansiedad heterosexual. En este contexto, la división espacial de funciones genitales y anales protege contra una posible tentación homosexual, o más bien la condena al ámbito de la privacidad. A diferencia del urinario, en los baños de caballeros, el inodoro, símbolo de feminidad abjecta/sentada, preserva los momentos de defecación de sólidos (momentos de apertura anal) de la mirada pública. Como sugiere Lee Edelman (4), el ano masculino, orificio potencialmente abierto a la penetración, debe abrirse solamente en espacios cerrados y protegidos de la mirada de otros hombres, porque de otro modo podría suscitar una invitación homosexual.

No vamos a los baños a evacuar sino a hacer nuestras necesidades de género. No vamos a mear sino a reafirmar los códigos de la masculinidad y la feminidad en el espacio público. Por eso, escapar al régimen de género de los baños públicos es desafiar la segregación sexual que la moderna arquitectura urinaria nos impone desde hace al menos dos siglos,: público/privado, visible/invisible, decente/obsceno, hombre/mujer, pene/vagina, de‐pie/sentado, ocupado/libre…

Una arquitectura que fabrica los géneros mientras, bajo pretexto de higiene pública, dice ocuparse simplemente de la gestión de nuestras basuras orgánicas. BASURA>GÉNERO. Infalible economía productiva que transforma la basura en género. No nos engañemos: en la máquina capital‐heterosexual no se desperdicia nada. Al contrario, cada momento de expulsión de un desecho orgánico sirve como ocasión para reproducir el género. Las inofensivas máquinas que comen nuestra mierda son en realidad normativas prótesis de género.

(1). Utilizo aquí la expresión de Teresa De Lauretis para definir el conjunto de instituciones y técnicas, desde el cine hasta el derecho pasando por los baños públicos, que producen la verdad de la masculinidad y la feminidad. Ver: Teresa De Lauretis, Technologies of Gender, Bloomington, Indiana University Press, 1989.

(2).Ver: Dominique Laporte, Histoire de la Merde, Christian Bourgois Éditeur, Paris, 1978; y Alain Corbin, Le Miasme et la Jonquille, Flammarion, Paris, 1982.

(3). Judith Halberstam, "Techno‐homo: on bathrooms, butches, and sex with furniture," in Jenifer Terry and Melodie Calvert Eds., Processed Lives. Gender and Technology in the Everyday Life, Routledge, London and New York, 1997, p.185.

(4). Ver: Lee Edelman, "Men's Room" en Joel Sanders, Ed. Stud. Architectures of Masculinity, New York, Princeton Architectural Press, 1996, pp.152‐161.


fonte: http://espaciogayesquel.blogspot.com/2008/02/basura-y-genero-mearcagar.html