quarta-feira, 25 de novembro de 2009

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A LITERATURA GAY DE NELSON LUIS DE CARVALHO

INTRODUÇÃO

O presente artigo traça um olhar sobre o primeiro livro publicado por Nelson Luiz de Carvalho. O Terceiro Travesseiro foi lançado em 1998 e atualmente está na décima terceira edição com mais de duzentas e trinta mil cópias vendidas, além disso, foi adaptado em 2005 para o teatro, ficando quatro meses em cartaz no eixo Rio-São Paulo com a direção de Regiana Antonini.

A categorização dessa obra no ramo da literatura gay atende exclusivamente as denominações mercadológicas, não abarcando nenhuma teoria essencialista sobre uma escrita ou uma estética gay. Ressalta-se porém que o livro trata ainda que superficialmente de temas pouco abordados na literatura brasileira, por exemplo, a homofobia e a saída do armário.

Ainda que tênue as relações entre realidade e ficção, chama atenção na obra de Nelson Luiz de Carvalho – o mesmo ocorre no seu outro livro, Apartamento 41 – o fato dos personagens serem pessoas conhecidas do autor. Sobre O Terceiro Travesseiro, Nelson em entrevista declara a existência de uma continuação da obra ainda não publicada - O Dia Seguinte - em que relata como vivem os personagens atualmente.

Neste artigo, traço um pequeno resumo do enredo para depois levantar alguns pontos que considero importantes na obra. Como instrumento teórico para essa análise utilizo alguns conceitos criados e/ou aprofundados pela teoria queer, por exemplo, heteronormatividade, normalização e narrativa de revelação.

O TERCEIRO TRAVESSEIRO

O livro conta a história do triângulo amoroso formado por três adolescentes brancos e de classe média alta: Marcus, Renato e Beatriz. Marcus e Renato são dois amigos de colégio que se apaixonam e passam a namorar, para concretizar a relação amorosa eles resolvem sair do armário para as respectivas famílias. Nesse momento conflituoso surge Beatriz, uma ex-namorada de Renato que termina se apaixonando por Marcus e acaba engravidando dele. Eles assumem então uma relação sexual e amorosa vivida a três até que Renato morre em um acidente de carro.

O ARMÁRIO

O primeiro ponto da narrativa que chama a atenção é a saída do armário dos personagens Marcus e Renato. Essa, aliás, é uma temática que quase sempre envolve os personagens não heterossexuais, ou seja, a presença desses personagens nas narrativas quase sempre envolve a confissão da sua identidade sexual. Isso é até justificável, já que é a partir dessa confirmação/afirmação que se acirra o choque entre a sociedade heterossexual e os indivíduos não heterossexuais, mas é também tematicamente redutor, já que a presença desses personagens parece sempre reduzida às suas confissões sexuais.

Essa saída do armário não é nunca absoluta e na verdade está bem longe disso, a revelação da homossexualidade dos jovens se restringe ao círculo familiar mais próximo: os pais e os irmãos. Fora da espera privada das famílias o tema é mantido em segredo e os garotos aceitam manter esse fingimento social. Os meninos não querem subverter nenhuma ordem, querem apenas a aceitação dos pais. Suas aspirações não são nem de libertação e nem de resistência e sim de tolerância familiar.

Esses dois personagens passam a viver conformados com a nova situação familiar e a antiga situação pública, em que eles mascaram a relação amorosa. Estranhamente o personagem Marcus, em diálogo direto com o leitor, parece incitar uma saída do armário mais ampla, mas que na verdade ele não realiza e não questiona no seu cotidiano.

“fiquei imaginando quantos caras deviam sentir o que eu sentia. Mas que, por vergonha ou sei lá o quê, preferiam viver uma vida mentirosa, ou pior ainda, uma vida totalmente sem-graça.”[1]

Na verdade, a vida de Marcus e de Renato continua a ser uma “mentira”, já que é necessário manter as aparências nos outros ambientes que não seja o doméstico. Mesmo quando Beatriz passa a morar com os dois e eles passam a viver uma relação a três, para o mundo exterior trata-se sempre de um casal heterossexual que divide o apartamento com um amigo.

HOMOFOBIA

A homofobia também é um assunto que quase nunca é discutido na literatura brasileira, poucos são os livros que abordam diretamente o tema. É através da saída do armário de Marcus e de Renato que a homofobia é abordada no livro.

Na família de Marcus, a notícia é recebida com o choro da mãe e com violência física e verbal pelo pai. Porém, durante a narrativa o pai passa a conviver bem com a homossexualidade do filho, enquanto que a mãe arma constantemente aproximações e jogos de sedução entre o filho e Beatriz, além de apelar para padres e pais de santo para “curá-lo”.

Na família de Renato, a notícia é recebida com mais agressividade. O pai chega a dar uma facada no filho e ele vai parar no hospital. Nesse momento, apesar de ser um tema pouco explorado pela narrativa, vemos os jogos de mascaramento das violências domésticas, em que o próprio violentado assume a culpa da agressão e justifica dessa forma a conduta do agressor.

As famílias que passam a tolerar a relação entre os dois jovens impõem um código de performatividade heterossexual que é aceito pelos dois. Eles não devem em lugar nenhum demonstrar uma relação afetiva que seja diferente da amizade entre dois homens heterossexuais. Na festa de aniversário de Marcus, por exemplo, quando ele vai oferecer o primeiro pedaço do bolo, a mãe desmaia só de imaginar que o primeiro pedaço pode ser dedicado a Renato, fato que chamaria a atenção de outros parentes.

O preconceito no livro, na verdade, não é resolvido e também não é muito problematizado, apesar de ser um dos temas principais da narrativa. Os personagens são simplesmente tolerados desde que se mantenham dentro de um modelo e de uma performatividade heterossexual.

“A ceia de Natal transcorreu quase que normalmente. Percebi que meus pais já se sentiam bem mais à vontade comigo e com o Renato. No fundo, esse alívio vinha do fato de nem eu nem ele darmos bandeira da nossa situação. Realmente nós parecíamos apenas amigos.”[2]

Os personagens também pensam em saídas clichês e românticas caso eles não sejam aceitos pelos pais, porém se conformam com a tolerância familiar.

“Eu prefiro não pensar nisso, Renato, mas se acontecer e você gostar de mim do jeito que eu gosto de você, só teria um jeito, cara, colocar a mochila nas costas e meter o pé na estrada.”[3]

HETERONORMATIVIDADE E NEGAÇÃO DA DIFERENÇA

A afirmação da normalidade dos personagens, ou seja, de uma performatividade heterossexual é uma constante no livro, fato que implica o tempo todo na negação de comportamentos afeminados. Estabelece-se assim uma hierarquia em que comportamentos próximos a um padrão tido culturalmente como masculino são valorizados, enquanto que comportamentos mais afetados são desvalorizados. Vejamos alguns exemplos:

“E tem mais, Renato, nós não somos afeminados e nunca seremos.”[4]

“Sabe, pai, continuo sendo a mesma pessoa, estudo, tenho boa educação, respeito os mais velhos, não fumo, não uso drogas e não sou promíscuo. Sabe, pai, apesar de sentir o que sinto, eu sou homem. Nunca vou me vestir de mulher. Nunca vou querer usar uma calcinha. Eu gosto de ser homem.”[5]

“É interessante como as pessoas fazem juízo errado de caras como eu. Quando se pensa em alguém assim, logo se imagina que o cara gosta de se vestir de mulher, gosta de ‘dar’ e gosta de qualquer homem, e isso, pelo menos para mim, não é verdade.”[6]

Os personagens também vivem dentro de papéis sexuais fixos, em que um realiza a posição de ativo e o outro a posição de passivo. Além disso, eles reproduzem o modelo de uma relação heterossexual monogâmica e na verdade Beatriz só se torna amante de ambos depois que ela engravida. Vejamos:

“Em relação a outros homens, somos religiosamente fiéis um ao outro.”[7]

O livro também é extremamente romântico, nele temos um casal, nesse caso composto por dois homens, que está em choque com a sociedade. Por isso, declarações de amor eterno sobram no livro. Não precisaria ser lembrado, que essa idéia de fidelidade e também de eternidade da relação amorosa foi criada na sociedade e reproduzida na literatura mundial para um casal heterossexual.

“Observando-o dormir de bruços e quase nu naquela imponente cama, me veio a certeza de que, por mais difícil que fosse, eu estaria disposto a enfrentar tudo e todos para poder viver com ele ao meu lado para sempre.”[8]

“Definitivamente, nós nascemos um para o outro. Para mim não existe vida sem ele.”[9]

CONCLUSÔES

Apesar de tratar de temas ligados ao universo não-heterossexual, os personagens estão inseridos dentro de um modelo heteronormativo, tanto na performatividade de gênero dos personagens como na construção das relações amorosas, há uma supervalorização da relação monogâmica e fiel, reproduzindo modelos românticos heterossexuais.

A afirmação da normalidade dos personagens e a conseqüente desvalorização da afetação também cria hierarquias dentro da comunidade gay. Se a literatura de Nelson Luiz de Carvalho é gay, então devemos acrescentar um outro adjetivo, assim, mercadologicamente falaríamos então em uma literatura gay heteronormativa.

BIBLIOGRAFIA

LUIZ DE CARVALHO, Nelson. O Terceiro Travesseiro. São Paulo, Mandarim, 2000.

RANIERI, Gustavo. Entrevista: Nelson Luiz de Carvalho. Disponível em: <http://gonline.uol.com.br/site/arquivos/estatico/gnews/gnews_entrevista_24.htm>. Acesso em: 14 de novembro de 2009.



[1] LUIZ DE CARVALHO, Nelson. O Terceiro Travesseiro. São Paulo, Mandarim, 2000, p. 15.

[2] Ibid. Pág. 34.

[3] Ibid. Pág. 15.

[4] Ibid. Pág. 11.

[5] Ibid. Pág. 21.

[6] Ibid. Pág. 8.

[7] Ibid. Pág. 12.

[8] Ibid. Pág. 14.

[9] Ibid. Pág. 24.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

URGENTE

POLNa próxima terça-feira (12) será um dia muito importante para a população LGBT do Brasil, dia em que irá à votação no Senado a PLC 122/2006.


Você é favorável à aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que torna crime o preconceito contra homossexuais?

Vote em:
http://www.senado.gov.br/agencia/default.aspx?mob=0


PS: Acompanhem depoimentos de deputados e senadores via youtube!!!!