domingo, 10 de outubro de 2010

Esboço de uma biografia

Com minha avó, eu apreendi o amor e me tornei uma feminista radical sem que ela jamais tenha se queixado da sua condição de mulher, com ela ainda aprendi sobre os sabores de um bom chá. Com minha tia, eu aprendi as dificuldades e os prazeres da profissão que abracei. Com minha mãe, eu aprendi a valentia e a paixão. Com minhas professoras de infância, eu aprendi a ler e escrever. Com Ingrid Caetano, eu descobri o anarquismo. Com Ana Cláudia, eu descobri a sociologia e a sedução. Com Daniela F, Anaiv e Virgínia, eu aprendi sobre a amizade e a experimentar a vida. Com Heloísa e Norma, eu aprendi a desfrutar. Com Fiona, eu aprendi a odiar. Com Janis, Nina, Billie, Ella, Gal, Bethânia e tantas outras, eu aprendi sobre a música. Com Hilda Hilst, Florbela e Alfonsina eu aprendi sobre a poesia. Com Tânia Lobo, eu aprendi a potência de uma aula. Com Mirella Márcia, eu aprendi que a crítica mata a poesia. Com Florentina Souza, eu aprendi a necessidade de ser radical. Com Butler e Preciado, eu aprendo a ser queer. Com Milena Britto, eu exercito meu olhar queer.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

estrangeiro

- Você parece estar fascinado pelas outras culturas, e não somente pelas culturas antigas; durante os dez primeiros anos de sua carreira, você viveu na Suécia, na Alemanha Ocidental e na Polônia. Este parece um itinerário um pouco atípico para um acadêmico francês. Você poderia explicar as razões que o motivaram a deixar a França e por que, quando você retorna em 1961, você teria, se me permite dizer, preferido viver no Japão?

- Há hoje, na França, um esnobismo do antichauvinismo. Espero que eu não seja, por meio do que eu disse, associado como representante desta atitude. Se eu fosse americano ou canadense, talvez eu sofresse com certos aspectos da cultura norte americana. De todo modo, eu sofri e sofro ainda muitos aspectos da vida social e cultural francesa. Esta é a razão pela qual eu deixei a França em 1955. Por outro lado, eu vivi também dois anos na Tunísia, de 1966 a 1968, mas por razões puramente pessoais.

- Você poderia lembrar alguns dos aspectos da sociedade francesa que afetaram você?

- Quando eu deixei a França, a liberdade em matéria de vida pessoal era terrivelmente restrita. Na época, a Suécia parecia um país muito mais liberal. Mas lá, eu descobri que ter um certo tipo de liberdade pode ter, se não os mesmos efeitos, pelo menos tantos efeitos restritivos quanto em uma sociedade diretamente restritiva. Esta foi, para mim, uma experiência muito importante. Depois, tive a oportunidade de passar um ano na Polônia onde, claro, as restrições e o poder de opressão do Partido Comunista é algo verdadeiramente diferente. Em um tempo relativamente pequeno, eu pude experimentar ao mesmo tempo o que era uma velha sociedade tradicional - como era a França dos fins dos anos quarenta e o início dos ano cinqüenta - e a nova sociedade livre que era a Suécia. Eu não diria que tive a experiência da totalidade das possibilidades políticas, mas tive uma amostra do que era, naquela época, as diferentes possibilidades das sociedades ocidentais. Essa foi uma boa experiência.

- Centenas de americanos vieram a Paris nos anos vinte e trinta, atraídos por aquilo que levou você deixar a França nos anos cinqüenta.

- Sim, mas se eles vêm hoje a Paris, não é mais, penso, a fim de encontrar a liberdade. Eles vêem para apreciar o sabor de uma velha cultura tradicional. Eles vêem na França como os pintores iam à Itália no séc. XVII: a fim de assistir ao declínio de uma civilização. De todo modo, o sentimento que experimentamos da liberdade é lembrado bem mais em países estrangeiros do que em nosso próprio país. Enquanto estrangeiros, podemos fazer pouco caso de todas essas obrigações implícitas que não são inscritas na lei, mas no modo geral de comportamento. Por outro lado, o fato apenas de mudar as obrigações é percebido ou experimentado como uma espécie de liberdade.


Michel Foucault in: Silêncio, Sexo e Verdade

sábado, 2 de outubro de 2010

inter/trans

"Mediante a constante migração de ida e volta, e o uso crescente de telefones, os aguilillenes costumam estar reproduzindo seus laços com gente que está a duas mil milhas de distância tão ativamente quanto mantêm suas relações com os vizinhos imediatos. Mais ainda, e mais geralmente, por meio da circulação contínua de pessoas, dinheiro, mercadorias e informação, os diversos assentamentos se entrelaçaram com tal força que provavelmente sejam mais bem compreendidos como se formassem uma única comunidade dispersa em uma variedade de lugares" (Canclini apud Roger Rouse, in Culturas Híbridas, Poderes Oblíquos - pág. 313).

robert rauschenberg