quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Cabo Machado - Mário de Andrade

Poema de Mário de Andrade que provocou piada homofobica de Oswald de Andrade em "Miss São Paulo" e consequente rompimento entre os dois.


Cabo Machado - Mário de Andrade


Cabo Machado é cor de jambo.
Pequenino que nem todo brasileiro que se preza.
Cabo Machado é moço bem bonito.
É como si a madrugada andasse na minha frente.
Entreabre a boca encarnada num sorriso perpétuo
Adonde alumia o Sol de oiro, dos dentes
Obturados com um luxo oriental.


Cabo Machado marchando
É muito pouco marcial.
Cabo Machado é dansarino, sincopado,
Marcha vem-cá-mulata.
Cabo Machado traz a cabeça levantada
Olhar dengoso pros lados.


Segue todo rico de jóias olhares quebrados
Que se enrabicharam pelo posto dele
E pela cor-de-jambo.
Cabo Machado é delicado gentil.
Educação francesa mesureira
Cabo Machado é doce que nem mel
É polido que nem manga rosa.
Cabo Machado é bem o representante de uma terra
Cuja Constituição proíbe as guerras de conquista
E recomenda cuidadosamente o arbitramento.
Só não bulam com ele!
Mais amor menos confiança!
Cabo Machado toma um geito de rasteira...


Mas traz unhas bem tratadas
Mãos transparentes frias,
Não rejeita o bom-tom do pó-de-arroz.
Se vê bem que prefere o arbitramento.
E tudo acaba em dansa!
Por isso Cabo Machado anda maxixe.


Cabo Machado... bandeira nacional!


sábado, 8 de dezembro de 2012

abdias nascimento


Quando eu li Gilberto Freyre, eu fiquei muito muito puto. Quem presenciou minha leitura e quem presenciou todas as minhas falas sobre ele sabe o quanto o acho detestável. Apoio total ao escracho que tomou do pessoal da USP. Grande Florestan Fernandes! Só não devemos queimar Gilberto Freyre porque devemos ler para entender melhor essa sociedade racista em que vivemos. Mas eu tenho dito desde o dia em que li Casa-Grande e Senzala: "Gilberto Freyre transformou nossos preconceitos raciais em ciência e pior, bom poeta que era, não posso negar, fez da sua poesia uma arma de opressão." Hoje, lendo uma entrevista, no jornal Lampião da Esquina, de agosto de 1979, vejo que tudo isso já foi dito por Abdias Nascimento.
Abdias mudou e mudou para muito melhor já que em 1950 no I Congresso do Negro Brasileiro ele faz uma defesa dessa ideia e entre 1948-1950, no seu jornal Quilombo, ele mantinha uma coluna chamada "Democracia Racial" que contava com a colaboração do próprio Freyre.